Sem conseguir estabelecer o que eu tenho sentido nos últimos tempos. Se alguém - qualquer um - me empurrasse contra a parede e me perguntasse "Feliz ou triste?", eu não estaria mentindo se jurasse não saber responder.
O sentimento é bem parecido nos dois casos.
As pálpebras sendo puxadas para dentro do corpo, é preciso segurar a cabeça para que ela não ceda para trás. A parte mais difícil é não fechar os olhos. E ficar parada, mesmo pensando em tudo menos no que alguém está tentando te dizer, permanecer parada para que ninguém desconfie, de se perguntar "Feliz ou triste?", embora "Feliz" seja sempre bom de ser divulgado, mas não "Muito feliz", porque a inveja é inconsciente e supersticiosa.
Tudo isso causa arranhões e vergões vermelhos feios de tão superficiais, a pele tentando resistir e é uma pena que ela consiga, preferiríamos com certeza escarlate se pudéssemos escolher, mas os gestos de machucar são mecânicos e não estudados, são apenas resultado de crises idiotas de ansiedade.
Como as minhas mãos podem se mover sozinhas eu não sei, procuro pedi-las para parar quando me lembro, ainda que elas nunca me obedesçam.
Me incomoda o jeito como eu espero demais de mim e da minha vida, a vontade que eu tenho sempre de saber o que vai acontecer daqui a cinco segundos, posso por favor parar e escutar, observar para entender?
Deveria ser como uma festa em que eu fosse a única pessoa sentada em um sofá, só o que eu pudesse enxegar estaria de fato acontecendo e então o mundo precisaria da minha versão para continuar existindo.
Assim, eu saberia responder a "Feliz ou triste?" como quem responde a "Café ou chá?", com naturalidade e sorrindo; ninguém duvidaria da minha felicidade.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
domingo, 22 de novembro de 2009
como ser trash sem redondilha nenhuma
Eu te superestimei
Você me subestimou -
Acho que podemos nos encontrar
No meio do caminho.
Não me chame de querida
Não serei sua amiga
Mas você podia pelo menos
Me pagar uma bebida.
Minhas rimas são pobres
Mas o meu caráter
É precioso (eu juro).
Estou escrevendo um soneto
Para dizer que
Eu te odeio.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Ontem aconteceu de novo: inventei uma pessoa. Já deve ser a quarta ou a quinta, fora as personalidades que eu invento para pessoas que já existem.
Pela manhã, ela ainda não tinha uma forma física definida. No começo da tarde, tinha a altura de uma pessoa pequena e, no final, já era loira. À noite, ganhou um corte de cabelo específico; mas, mesmo hoje, ainda não tem nome.
Desde o começo, tinha olhos azuis e me puxava pelo braço, mandava mensagens de texto quase sem pontuação, me fazia sorrir quando estava sorrindo.
Pela manhã, ela ainda não tinha uma forma física definida. No começo da tarde, tinha a altura de uma pessoa pequena e, no final, já era loira. À noite, ganhou um corte de cabelo específico; mas, mesmo hoje, ainda não tem nome.
Desde o começo, tinha olhos azuis e me puxava pelo braço, mandava mensagens de texto quase sem pontuação, me fazia sorrir quando estava sorrindo.
Finjo para mim mesma que eu não gosto dela e, se alguém visse a situação de um ponto de vista que não o meu, diria que ela gosta muito mais de mim do que o contrário. Mentira.
Nosso amor é perigosamente mútuo, mas sem adjetivos carregados. Ela aparece na minha casa sem ser convidada e, entretanto, sempre nos momentos certos.
Enquanto estou pensando sobre tudo isso, me sinto a melhor pessoa do mundo. Minhas idéias andam de um lado para o outro da minha cabeça enquanto faço alguma coisa qualquer; não consigo pensar em mais nada.
Com 14 anos, desenvolvi um método particular para lidar com os meus amores platônicos: criar situações-modelo de coisas que poderiam acontecer e as imaginar até que elas fiquem cinematograficamente perfeitas. A pior parte chega sempre quando não tenho mais o que corrigir. Então todo o trabalho começa outra vez, tenho que inventar uma nova cena e, com o enredo criado, a parte boa - de aprimoração mental de diálogos, gestos e contextos - volta novamente.
Nosso amor é perigosamente mútuo, mas sem adjetivos carregados. Ela aparece na minha casa sem ser convidada e, entretanto, sempre nos momentos certos.
Enquanto estou pensando sobre tudo isso, me sinto a melhor pessoa do mundo. Minhas idéias andam de um lado para o outro da minha cabeça enquanto faço alguma coisa qualquer; não consigo pensar em mais nada.
Com 14 anos, desenvolvi um método particular para lidar com os meus amores platônicos: criar situações-modelo de coisas que poderiam acontecer e as imaginar até que elas fiquem cinematograficamente perfeitas. A pior parte chega sempre quando não tenho mais o que corrigir. Então todo o trabalho começa outra vez, tenho que inventar uma nova cena e, com o enredo criado, a parte boa - de aprimoração mental de diálogos, gestos e contextos - volta novamente.
É um ciclo perigoso, de ápices brilhantes e vales extremamente cruéis de tão profundos. Desgasta muito o meu cérebro criar todas essas siatuções, ao mesmo tempo que elas formam a parte mais importante da minha razão de ser.
E, nisso tudo, o que mais me dói é que, embora eu as considere como parte da minha vida, elas não são. No sentido de que não podem ser compartilhadas com mais ninguém, de que qualquer um me acharia maluca se eu começasse a falar da última vez em que encontrei um dos meus personagens, como quem fala do namorado ou do melhor amigo - nesse grau de intimidade.
Desde os 14, tenho tido problemas com isso, fecho a minha cabeça dentro de si mesma e às vezes chego tão perto de contar para alguém sobre as coisas que imagino que alguma força maior - uma imagem minha em tamanho real, de frente para mim e rindo da minha própria cara - tem que me coibir gritando.
Uma pena, porque as histórias são realmente incríveis (e tão incrivelmente normais que poderiam mesmo ter acontecido), eu pareceria mais interessante e me sentiria melhor amada.
Meu maior medo? Começar a acreditar em tudo o que eu invento. Não uma esquizofrenia de verdade, talvez só uma grande confusão mental e uma solidão cada vez maior. Porque, se eu tenho os meus personagens sempre disponíveis para mim a todo momento, sempre aptos a fazer tudo o que eu quiser, não existe motivo algum para que eu me importe com as pessoas do mundo real. Elas têm, aliás, muito menos graça. Assim como eu fora do meu mundo ideal.
Queria muito da banalidade que só parece alcançar as outras pessoas - que, para mim, portanto, nunca será banal. Na minha imaginação, nem tudo é extraordinário; pelo contrário, as coisas que imagino estão lotadas de trivialidade, mas são momentos melhor vividos que os que eu realmente vivo. Em termos de custo-benefício, obviamente. (Quantos minutos tenho que viver para conseguir ao menos um minuto que valha a pena?)
Ainda me pergunto se eu já vivi momentos que tivessem valido a pena. Todo o mundo já viveu momentos que valem a pena... Nem que tenha sido um único segundo. Ou será mais fácil viver horas ou dias que valem a pena do que um só segundo? Talvez a grande maioria de todas as pessoas que eu conheço simplesmente não consiga admitir que nunca teve nenhum prazer. Nem um único. E que vive fingindo, só para continuar vivendo. Ou, na verdade, nem se importa com o que vive, mas finge para si mesma que se importa sem nunca ter pensado sobre isso. E eu ainda acho que é melhor fingir conscientemente; por pior que seja, é voluntário.
Preciso de mais café, de mais ataraxia, talvez de um coma e de menos chocolate. Preciso de um abraço uma vez por dia mas não gosto de admitir.
Não é pessimismo, é só o jeito como o mundo me trata e como eu, sem crises de não inteligência, chuto o mundo de volta.
Ontem à noite, lembrei que só tenho mais três anos de vida. E não vou vivê-los da melhor maneira possível, com certeza. Não só porque eu não saiba que maneira é essa, mas porque, mesmo que me dissessem Você vai morrer amanhã, nem assim eu teria forças para levantar da cama.
Quero um mundo de pessoas que enxerguem o que eu tenho de bom para oferecer, mas é claro que eu não quero as pessoas que existem. Não espero pessoas perfeitas, só espero defeitos menos idiotas e mais compreensíveis. Não conheço ninguém que esteja ligeiramente perto do que eu considere uma pessoa próxima de algo que desejo para mim, isto é, alguém que eu realmente quisesse que estivesse perto de mim.
Gosto de muitas pessoas que conheço e que eu sei que gostam de mim, mas não vejo nenhuma delas preocupada em ser importante para mim. Queria um exclusivismo uma vez na vida, tanta gente têm tantos exclusivismos e eu não posso ter nenhum, sei que é egoísta mas eu não acho errado, sei que eu não sou estúpida nem tão desinteressante assim.
Quer dizer, tenho gostos bons e até um bom humor quando me esforço bastante, penso nas pessoas que já se interessaram por mim e o saldo é devedor, quem eu ainda estou tentando conquistar? Queria a amizade de muitos, o amor de quase nenhum e a devoção de todos. Sei que é egoísta, mas eu não acho errado.
Por isso só mais três anos, foi o que combinei comigo mesma, o tempo que as coisas têm para começar a funcionar, já se passaram dois anos e eu continuo viva, por quanto tempo por quanto tempo por quanto tempo. Tudo fica bagunçado e nebuloso, não sei onde estou nem consigo determinar algo que eu esteja com vontade de fazer, qualquer coisa, ficar deitada parada, eu gostaria de conseguir ouvir uma música, eu queria chorar mas está tudo dentro da minha garganta, me peça para falar sobre qualquer coisa e eu colocarei nisso todo o meu amor na minha voz embaçada.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Perco muito tempo parada, pensando. Não sei se é realmente uma perda, mas o fato é que gasto muito tempo com isso. Às vezes me deixa angustiada, às vezes não. Hoje me deixou muito angustiada. Não só o fato de passar tanto tempo pensando ao invés de estar fazendo alguma coisa - qualquer coisa -, mas principalmente de ter tido noção da dimensão de todo esse tempo.
Se eu não tenho coisas obrigatórias para fazer, pelo menos poderia estar lendo um livro ou vendo um filme ou escrevendo ou tentando desenhar ou estudando qualquer porcaria, estar praticando um esporte, conversando com alguém.
Talvez doa mais do que precisasse doer (precisa doer, é claro). E não saber qual é o problema me incomoda ainda mais. Não ter a solução é completamente normal, mas não poder nem conseguir poder buscá-la é extremamente desgastante.
Sinto falta da raiva quase patológica que eu cultivava dentro de mim há alguns meses: minha vida já foi muito mais vazia do que é hoje, mas eu tinha uma maneira, embora péssima, para tentar lidar com isso.
Dói perceber que o problema talvez não seja eu, mas as minhas escolhas e as escolhas dos outros - eu ainda me considero maior do que as minhas escolhas. No fim, tenho que escolher os caminhos menos piores para os piores problemas, e caminhos agradáveis para situações nem tão ruins assim.
Gostava da minha auto-mutilação, um jeito próprio para me resolver comigo mesma. Como eu é que me punia, nenhum outro tipo de punição poderia ser mais provocativo. Tenho me tornado mais tolerante em relação a mim, e isso é horrível. Ao mesmo tempo que abre espaço para que mais gente se sinta à vontade para entrar na minha vida, suprime todo o controle que eu tenho sobre o que os outros estão fazendo comigo.
Sobre o que estão fazendo com a minha vida; eu não sei até que ponto poderei me deixar levar. Ou até quando vou abaixar a cabeça e pensar Um dia melhora - não que eu gostaria que melhorasse muito. (Em todos os sentidos, nunca.)
Procurando referências para ensinar Realismo, encontrei o poema do Drummond sobre o Machado de Assis (A um bruxo, com amor):
Olhas para a guerra, o murro, a facada como uma simples quebra da monotonia universal
Na folha de papel que a Antonietta entregou para a gente no segundo ano, desenhei uma flexa ao lado desses versos e escrevi Senão o mundo seria muito chato, que é provavelmente uma fala dela (combina com a sua risadinha irônica) mas, lido hoje, soa bonito e condiz com a linearidade de tudo o que eu estou falando.
Se eu não tenho coisas obrigatórias para fazer, pelo menos poderia estar lendo um livro ou vendo um filme ou escrevendo ou tentando desenhar ou estudando qualquer porcaria, estar praticando um esporte, conversando com alguém.
Talvez doa mais do que precisasse doer (precisa doer, é claro). E não saber qual é o problema me incomoda ainda mais. Não ter a solução é completamente normal, mas não poder nem conseguir poder buscá-la é extremamente desgastante.
Sinto falta da raiva quase patológica que eu cultivava dentro de mim há alguns meses: minha vida já foi muito mais vazia do que é hoje, mas eu tinha uma maneira, embora péssima, para tentar lidar com isso.
Dói perceber que o problema talvez não seja eu, mas as minhas escolhas e as escolhas dos outros - eu ainda me considero maior do que as minhas escolhas. No fim, tenho que escolher os caminhos menos piores para os piores problemas, e caminhos agradáveis para situações nem tão ruins assim.
Gostava da minha auto-mutilação, um jeito próprio para me resolver comigo mesma. Como eu é que me punia, nenhum outro tipo de punição poderia ser mais provocativo. Tenho me tornado mais tolerante em relação a mim, e isso é horrível. Ao mesmo tempo que abre espaço para que mais gente se sinta à vontade para entrar na minha vida, suprime todo o controle que eu tenho sobre o que os outros estão fazendo comigo.
Sobre o que estão fazendo com a minha vida; eu não sei até que ponto poderei me deixar levar. Ou até quando vou abaixar a cabeça e pensar Um dia melhora - não que eu gostaria que melhorasse muito. (Em todos os sentidos, nunca.)
Procurando referências para ensinar Realismo, encontrei o poema do Drummond sobre o Machado de Assis (A um bruxo, com amor):
Olhas para a guerra, o murro, a facada como uma simples quebra da monotonia universal
Na folha de papel que a Antonietta entregou para a gente no segundo ano, desenhei uma flexa ao lado desses versos e escrevi Senão o mundo seria muito chato, que é provavelmente uma fala dela (combina com a sua risadinha irônica) mas, lido hoje, soa bonito e condiz com a linearidade de tudo o que eu estou falando.
Fico pensando, pensando, e talvez seja bom gastar tempo pensando, mas não sei se tanto. Citando Jonathan Safran Foer pela milésima vez - e, pela milésima vez, o mesmo conto, que parece descrever a minha vida em pedacinhos quebrados que se caixam precisamente em momentos variados -, A gente tem todas essas idéias de coisas que quer ver feitas. Acho que não pensava o suficiente sobre o fazer.
sábado, 24 de outubro de 2009
Misturando melancolia com M&M's, noites pouco dormidas, hálito de cerveja (dos outros, claro), piadas ruins de pessoas interessantes, preguiça de existir e vontades pontuais de viver.
Os dias continuariam correndo normalmente, minha mãe não pararia de gritar e eu não deixaria de existir tão cedo, as minhas unhas cresceriam como sempre - todos os dias? -, eu dormiria tarde e acordaria logo depois, não consigo entender como nem por que motivo alguém ainda continuaria se importando.
Meus lábios latejariam e eu teria machucados aleatórios, sem nem poder ter escolhido em que parte do corpo eles aparentariam menos saúde. Minhas mãos ainda repousariam encaixadas sobre a minha cintura.
Planejo uma morte por acidente não porque eu esteja planejando algum acidente em especial, mesmo porque, se fosse planejado, não seria acidente. É uma conveniência e uma satisfação: eu não teria que me preocupar em não me acidentar.
Me sinto mal por estar parecendo idiota, eu sempre acho que estou parecendo idiota mesmo quando não estou, sou menos idiota que muita gente - tenho consciência disso - e ainda assim olho para baixo e enfio casualmente as mãos nos bolsos quando algumas pessoas me olham de frente. Começo a andar mais rápido e, de repente, estou sozinha de novo, as pernas correndo enquanto tentam evitar que os joelhos não se toquem.
Tenho medo de ser mais velha; mas queria, por alguns instantes, a sensação de já ter vivido mais tempo, tento me lembrar de como eu era no passado e nunca dá certo, porque busco um passado recente demais, queria ontem ao invés de cinco anos atrás, mas quero o futuro de daqui a cinco anos muito mais do que o de amanhã.
Os dias continuariam correndo normalmente, minha mãe não pararia de gritar e eu não deixaria de existir tão cedo, as minhas unhas cresceriam como sempre - todos os dias? -, eu dormiria tarde e acordaria logo depois, não consigo entender como nem por que motivo alguém ainda continuaria se importando.
Meus lábios latejariam e eu teria machucados aleatórios, sem nem poder ter escolhido em que parte do corpo eles aparentariam menos saúde. Minhas mãos ainda repousariam encaixadas sobre a minha cintura.
Planejo uma morte por acidente não porque eu esteja planejando algum acidente em especial, mesmo porque, se fosse planejado, não seria acidente. É uma conveniência e uma satisfação: eu não teria que me preocupar em não me acidentar.
Me sinto mal por estar parecendo idiota, eu sempre acho que estou parecendo idiota mesmo quando não estou, sou menos idiota que muita gente - tenho consciência disso - e ainda assim olho para baixo e enfio casualmente as mãos nos bolsos quando algumas pessoas me olham de frente. Começo a andar mais rápido e, de repente, estou sozinha de novo, as pernas correndo enquanto tentam evitar que os joelhos não se toquem.
Tenho medo de ser mais velha; mas queria, por alguns instantes, a sensação de já ter vivido mais tempo, tento me lembrar de como eu era no passado e nunca dá certo, porque busco um passado recente demais, queria ontem ao invés de cinco anos atrás, mas quero o futuro de daqui a cinco anos muito mais do que o de amanhã.
domingo, 4 de outubro de 2009
Reparando em todas as formas de arte que estão sempre ao meu redor, me pergunto para qual eu teria menos talento.
A voz na minha cabeça é imperativa: música. Outra voz discorda: dança. Outra ri e grita pintura, com naturalidade, enquanto alguma se questiona sobre a escultura.
As vozes são pessoas de personalidades características: o da música veste fraque e tem cabelos desgrenhados, fala com severidade e usa movimentos bruscos de cabeça; a da dança é ossuda de magra e não consegue ficar parada; o da pintura e o da escultura se confundem, de lenço no pescoço e roupas surradas cheias de manchas, dentes amarelados e tortos.
Eles riem para me olhar com superioridade - desista. Tento conversar com o poeta, algo como um Baudelaire que está tomando um drink em uma poltrona de couro no canto da sala (os escritores pensam mais do que escrevem, seria errado se ele estivesse escrevendo na frente de todo o mundo). Seu olhar é perturbador e amargo, ele não está disposto a conversar. Eu me livraria do caderno e do lápis que traria em mãos (pegaria mal) para tentar uma aproximação.
Ele não me encararia de frente, nem por um segundo deixaria de olhar para um nada tão assustador e quase que convidativo. Isso me daria mais vontade de tentar. Um desafio. Não que eu pudesse me igualar a ele, nem que nunca viesse a ter essa pretensão, mas me estimularia.
Eu voltaria a tentar pensar sobre qual seria a forma de arte para a qual eu teria menos talento, dando passos curtos para trás, com cautela, para sair da área delimitada pelo tapete persa sob a poltrona do poeta.
Teatro, diria um homem que estaria conversando com o pintor e o escultor, também rindo. Faria um sentido óbvio na mesma hora, mas, depois de alguns segundos, eu perceberia que até poderia ter talento para teatro, se essa não fosse a minha forma de arte menos preferida. Eu sorriria de volta, sem me preocupar com o que ele pensaria sobre mim (tal qual eu me preocuparia com a opinião do escritor), balançando a cabeça de um lado para o outro.
Cinema e fotografia são artes irmãs, e eu acho que eu teria talento para criar imagens dentro da minha cabeça, então eu poderia ter talento para retirar essas imagens de dentro de mim em forma de cinema ou fotografia - mais talento do que para fazer isso através de desenho, pintura ou escultura, que requerem destrezas específicas de um tipo de atividade artesanal que não existe em mim.
Eu não poderia dançar porque me induzi a acreditar nessa idéia há anos. Tenho uma empatia enorme por dança, mas acho que estou destinada a ficar como espectadora. A obra se completa no espectador, e acho que a dança me faz bem de muitos jeitos - como espectadora -, então fico feliz com isso e deixo para quem entende do assunto a possibilidade de tentar me completar.
Música demanda muitas noções teóricas que eu nunca consegui incorporar. (Não que eu tenha me dedicado a fundo.) Sem querer parecer resignada, digo que eu gosto de ter a música como algo a parte, puramente emocional. Embora eu considere importante para os meus sentidos saber o motivo teórico da minha emoção, nesse caso, não sinto tanta necessidade. E tomo como bom ou ruim aquilo que me agrada, que, por sua vez, é o que me faz bem baseado em perspectivas temporais (não consigo me abalar com algo que, por mais interessante, seja igual ao que milhares de pessoas já fizeram antes, ou tento não me abalar, por meio de auto-chantagens).
Os artistas plásticos falam alto enquanto mexem as mãos. O músico tenta não participar, mas é interrogado o tempo todo, dando respostas lacônicas de cabeça baixa. Ninguém está nem aí para a dançarina, que marca ritmos com um dos pés no chão de madeira. (Na verdade, os outros se importam apenas com o barulho, principalmente o escritor, que trava a boca em caretas blasé de quando em quando.) O ator tenta - sem receber retorno algum - se comunicar com a dançarina, andando ao redor dela, como se interpretasse uma peça mas sendo muito verdadeiro em seus significados.
Eu ainda estou no meio de todos, de frente para o escritor, de costas para os artistas plásticos, a dançarina à minha direita e o músico logo atrás de mim. O fotógrafo conversa com o cineasta apontando para a lente da câmera no seu pescoço. Nenhum deles, entretanto, dá muita atenção ao outro, a conversa é interrompida e retomada várias vezes.
A sala é um ambiente pouco convencional, a parte onde estão os artistas plásticos lembra um prédio em construção, vigas de madeira aparentes, pé direito alto - é impossível ver o teto, o escuro predomina metros acima das cabeças deles - e cabos de aço sobrando por todos os lados; onde está o escritor é como uma cena de estúdio, a poltrona e o tapete combinando com o papel da parede, o qual preenche só um recorte específico dela, justamente como se o que importasse fosse uma área pequena o bastante para poder ser enquadrada por uma câmera, refletores abandonados atrás da poltrona, uma mesa de centro esquecida de cabeça para baixo.
A situação é infinita e eu sei que poderei voltar ali outras vezes. Porém, minha visita nunca é voluntária. É preciso que o meu cérebro atinja um determinado estado de emoções para que eu possa chegar até ali, surgida do nada, bem no centro da sala, de frente para o escritor e de costas para os artistas plásticos, caderno e lápis em mãos.
A voz na minha cabeça é imperativa: música. Outra voz discorda: dança. Outra ri e grita pintura, com naturalidade, enquanto alguma se questiona sobre a escultura.
As vozes são pessoas de personalidades características: o da música veste fraque e tem cabelos desgrenhados, fala com severidade e usa movimentos bruscos de cabeça; a da dança é ossuda de magra e não consegue ficar parada; o da pintura e o da escultura se confundem, de lenço no pescoço e roupas surradas cheias de manchas, dentes amarelados e tortos.
Eles riem para me olhar com superioridade - desista. Tento conversar com o poeta, algo como um Baudelaire que está tomando um drink em uma poltrona de couro no canto da sala (os escritores pensam mais do que escrevem, seria errado se ele estivesse escrevendo na frente de todo o mundo). Seu olhar é perturbador e amargo, ele não está disposto a conversar. Eu me livraria do caderno e do lápis que traria em mãos (pegaria mal) para tentar uma aproximação.
Ele não me encararia de frente, nem por um segundo deixaria de olhar para um nada tão assustador e quase que convidativo. Isso me daria mais vontade de tentar. Um desafio. Não que eu pudesse me igualar a ele, nem que nunca viesse a ter essa pretensão, mas me estimularia.
Eu voltaria a tentar pensar sobre qual seria a forma de arte para a qual eu teria menos talento, dando passos curtos para trás, com cautela, para sair da área delimitada pelo tapete persa sob a poltrona do poeta.
Teatro, diria um homem que estaria conversando com o pintor e o escultor, também rindo. Faria um sentido óbvio na mesma hora, mas, depois de alguns segundos, eu perceberia que até poderia ter talento para teatro, se essa não fosse a minha forma de arte menos preferida. Eu sorriria de volta, sem me preocupar com o que ele pensaria sobre mim (tal qual eu me preocuparia com a opinião do escritor), balançando a cabeça de um lado para o outro.
Cinema e fotografia são artes irmãs, e eu acho que eu teria talento para criar imagens dentro da minha cabeça, então eu poderia ter talento para retirar essas imagens de dentro de mim em forma de cinema ou fotografia - mais talento do que para fazer isso através de desenho, pintura ou escultura, que requerem destrezas específicas de um tipo de atividade artesanal que não existe em mim.
Eu não poderia dançar porque me induzi a acreditar nessa idéia há anos. Tenho uma empatia enorme por dança, mas acho que estou destinada a ficar como espectadora. A obra se completa no espectador, e acho que a dança me faz bem de muitos jeitos - como espectadora -, então fico feliz com isso e deixo para quem entende do assunto a possibilidade de tentar me completar.
Música demanda muitas noções teóricas que eu nunca consegui incorporar. (Não que eu tenha me dedicado a fundo.) Sem querer parecer resignada, digo que eu gosto de ter a música como algo a parte, puramente emocional. Embora eu considere importante para os meus sentidos saber o motivo teórico da minha emoção, nesse caso, não sinto tanta necessidade. E tomo como bom ou ruim aquilo que me agrada, que, por sua vez, é o que me faz bem baseado em perspectivas temporais (não consigo me abalar com algo que, por mais interessante, seja igual ao que milhares de pessoas já fizeram antes, ou tento não me abalar, por meio de auto-chantagens).
Os artistas plásticos falam alto enquanto mexem as mãos. O músico tenta não participar, mas é interrogado o tempo todo, dando respostas lacônicas de cabeça baixa. Ninguém está nem aí para a dançarina, que marca ritmos com um dos pés no chão de madeira. (Na verdade, os outros se importam apenas com o barulho, principalmente o escritor, que trava a boca em caretas blasé de quando em quando.) O ator tenta - sem receber retorno algum - se comunicar com a dançarina, andando ao redor dela, como se interpretasse uma peça mas sendo muito verdadeiro em seus significados.
Eu ainda estou no meio de todos, de frente para o escritor, de costas para os artistas plásticos, a dançarina à minha direita e o músico logo atrás de mim. O fotógrafo conversa com o cineasta apontando para a lente da câmera no seu pescoço. Nenhum deles, entretanto, dá muita atenção ao outro, a conversa é interrompida e retomada várias vezes.
A sala é um ambiente pouco convencional, a parte onde estão os artistas plásticos lembra um prédio em construção, vigas de madeira aparentes, pé direito alto - é impossível ver o teto, o escuro predomina metros acima das cabeças deles - e cabos de aço sobrando por todos os lados; onde está o escritor é como uma cena de estúdio, a poltrona e o tapete combinando com o papel da parede, o qual preenche só um recorte específico dela, justamente como se o que importasse fosse uma área pequena o bastante para poder ser enquadrada por uma câmera, refletores abandonados atrás da poltrona, uma mesa de centro esquecida de cabeça para baixo.
A situação é infinita e eu sei que poderei voltar ali outras vezes. Porém, minha visita nunca é voluntária. É preciso que o meu cérebro atinja um determinado estado de emoções para que eu possa chegar até ali, surgida do nada, bem no centro da sala, de frente para o escritor e de costas para os artistas plásticos, caderno e lápis em mãos.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
de alguns dos últimos posts não publicados
22.07
Isso tudo, afinal, acabou me deixando feliz: descobri que a minha vida não é tão longa como eu imaginava. (...) Não que eu seja a mesma pessoa agora em relação àquela que fez 18 anos no ano passado, só acho que eu comecei a sofrer uma mudança estrutural a partir dos 16.
10.08
I took three days to be bound and standing up, my mattress had marked the exactly shape of my body - the same way it has done to yours. Your ghost was laying down by my side and my pillow could not stand anymore tears without bursting.
11.08
Se eu morasse sozinha, acho que teria passado tanto tempo sem falar que, ao voltar às aulas, precisaria de alguns dias para reaprender a pronúncia de certas palavras.
20.08
Ela respondeu por impulso, baseada na convenção de que o chão é sujo, se esquecendo de que o que torna o chão sujo são todas as coisas que passam por cima dele - o mesmo conceito que faz da cama uma superfície limpa, por exemplo.
28.08
Não é vontade de dormir, nem fome - me parece assustadora a perspectiva de comer quando começo a derreter. Em geral começa quando estou sentada. Penso no que poderia me fazer sentir melhor, e a idéia de me deitar soa repulsiva. Desmaiar? (...) Não me sinto doente a maior parte do tempo, nem acho que, se eu me sentisse, procuraria ajuda.
29.08
I knew I needed to write you something, so I would stop thinking about you.
03.09
Mas é bom ter a cabeça ocupada - com muita coisa, o tempo todo. Ou estar ocupada o tempo todo, ainda que só fisicamente (sem estar propriamente pensando). (...) Meus pensamentos são, na sua maioria, horríveis, então é melhor que fiquem longe de mim, de fato.
13.09
Aos poucos, tenho percebido que eu penso sempre nas mesmas coisas, que falo tudo igual e repito o que escrevo com outras palavras. Que bom seria se eu pudesse ser uma pessoa diferente a cada dia, ter uma vida diferente a cada dia. Só seria ruim se alguma vez acontecesse de eu gostar da minha personalidade recém-adquirida.
Isso tudo, afinal, acabou me deixando feliz: descobri que a minha vida não é tão longa como eu imaginava. (...) Não que eu seja a mesma pessoa agora em relação àquela que fez 18 anos no ano passado, só acho que eu comecei a sofrer uma mudança estrutural a partir dos 16.
10.08
I took three days to be bound and standing up, my mattress had marked the exactly shape of my body - the same way it has done to yours. Your ghost was laying down by my side and my pillow could not stand anymore tears without bursting.
11.08
Se eu morasse sozinha, acho que teria passado tanto tempo sem falar que, ao voltar às aulas, precisaria de alguns dias para reaprender a pronúncia de certas palavras.
20.08
Ela respondeu por impulso, baseada na convenção de que o chão é sujo, se esquecendo de que o que torna o chão sujo são todas as coisas que passam por cima dele - o mesmo conceito que faz da cama uma superfície limpa, por exemplo.
28.08
Não é vontade de dormir, nem fome - me parece assustadora a perspectiva de comer quando começo a derreter. Em geral começa quando estou sentada. Penso no que poderia me fazer sentir melhor, e a idéia de me deitar soa repulsiva. Desmaiar? (...) Não me sinto doente a maior parte do tempo, nem acho que, se eu me sentisse, procuraria ajuda.
29.08
I knew I needed to write you something, so I would stop thinking about you.
03.09
Mas é bom ter a cabeça ocupada - com muita coisa, o tempo todo. Ou estar ocupada o tempo todo, ainda que só fisicamente (sem estar propriamente pensando). (...) Meus pensamentos são, na sua maioria, horríveis, então é melhor que fiquem longe de mim, de fato.
13.09
Aos poucos, tenho percebido que eu penso sempre nas mesmas coisas, que falo tudo igual e repito o que escrevo com outras palavras. Que bom seria se eu pudesse ser uma pessoa diferente a cada dia, ter uma vida diferente a cada dia. Só seria ruim se alguma vez acontecesse de eu gostar da minha personalidade recém-adquirida.
domingo, 30 de agosto de 2009
Sempre que eu leio esse "Lugar certo, hora errada?"aqui em cima, entro na maior bad.
Se bem que ultimamente tem sido muito mais Lugar errado, hora certa.
Não saber escolher o que fazer nem a que horas tem feito da minha vida um transtorno sem fim. De momentos ruins, situações despropositadas. E a sensação de estar deixando passar todo o resto - que talvez nem seja nada, mas parece muito, só porque eu não estou ali para ter certeza - é ainda mais angustiante.
Talvez eu devesse mudar. Não sei exatamente como, nem a que tipo de transformação me refiro. Aparência, modo de agir, gostos pessoais, mudar por que, para quem?
Me sinto vazia mais do que nunca, mesmo tendo milhares de coisas para fazer o tempo todo. É só que parece que essas são as coisas erradas. O tempo errado. E, se alguma coisa certa existisse, eu não saberia reconhecê-la.
Tenho um sentimento dentro de mim que me obriga a não me preocupar. Então vivo um dia depois do outro, escovo os dentes e durmo e acordo sem saber exatamento o motivo disso tudo.
As felicidades parecem efêmeras, os problemas são estáticos e o que sobra é um grande tédio, me coloco no lugar dos outros e a equação é mais ou menos a mesma; no entanto, a maioria das pessoas vê sentido e se dispõe a acreditar sem grande resistência.
Ou a vida é uma inércia, de repente ficou tarde e é hora de ir dormir, daqui a pouco estamos de férias e nem percebemos o tempo passando, seis meses atrás era tudo igual, daqui a seis meses vai ser tudo igual, e nos próximos dez anos.
Tenho medo de não conseguir levar a vida de uma pessoa adulta. Não me acho capaz, competente a ponto de assumir as responsabilidades que, algum dia, acabarão caindo em cima de mim de qualquer maneira. Nem acho que eu esteja aproveitando os momentos de não-responsabilidade enquanto esse dia não chega.
É um meio-termo dolorido, ainda menos dolorido do que há uns dois ou três anos, e então eu deveria estar raciocinando de acordo com uma tendência progressiva de melhora - e só o que eu sinto é medo; de mim mesma, acima de tudo.
Nas últimas vezes em que ouvi professores ou palestrantes se apresentando, morri de inveja. Deve ser de uma gratificação estonteante poder olhar do alto da sua idade e dizer Em tal ano, fiz isso. Me formei naquilo. Viajei para não sei onde. Conheci não sei quem. Mas isso foi há muito tempo; hoje...
Eles olham para pessoas como eu e suas mentes devem imediatamente unir conceitos como ingenuidade e perspectiva, para nos descrever através de adjetivos eufemistas. Não que eles tenham consciência disso. Nem que eles um dia tenham tido as mesmas angústias que eu, provavelmente não se preocuparam em como se apresentariam vinte anos depois de estarem no que viriam a pensar ser o ponto mais alto das suas vidas, em termos emocionais.
Eu obviamente transbordo emoções hoje, mas não consigo levá-las a lugar nenhum.
Não acho que eu esteja decaindo. Pior: realmente acredito que eu esteja mudando, penso estar melhor do que eu era há pouquíssimo tempo. O que me comove é não conseguir perceber quais são os gestos exatos que geram mudanças. Os meses passam, eu preciso de tempo até conseguir entender o que foi bom e o que foi ruim.
Meu presente é a resposta a uma interpretação mal-feita do meu passado misturada ao que eu preciso para o meu futuro.
Hoje penso que a minha vida é medíocre se comparada à da maioria ao meu redor. Por enquanto, consigo conviver bem com isso. Muito melhor do que a maioria de toda essa maioria conseguiria. Mas, daqui a alguns anos, não sei como vai ser. Eu não vou mais ter idade para ser medíocre.
Se bem que ultimamente tem sido muito mais Lugar errado, hora certa.
Não saber escolher o que fazer nem a que horas tem feito da minha vida um transtorno sem fim. De momentos ruins, situações despropositadas. E a sensação de estar deixando passar todo o resto - que talvez nem seja nada, mas parece muito, só porque eu não estou ali para ter certeza - é ainda mais angustiante.
Talvez eu devesse mudar. Não sei exatamente como, nem a que tipo de transformação me refiro. Aparência, modo de agir, gostos pessoais, mudar por que, para quem?
Me sinto vazia mais do que nunca, mesmo tendo milhares de coisas para fazer o tempo todo. É só que parece que essas são as coisas erradas. O tempo errado. E, se alguma coisa certa existisse, eu não saberia reconhecê-la.
Tenho um sentimento dentro de mim que me obriga a não me preocupar. Então vivo um dia depois do outro, escovo os dentes e durmo e acordo sem saber exatamento o motivo disso tudo.
As felicidades parecem efêmeras, os problemas são estáticos e o que sobra é um grande tédio, me coloco no lugar dos outros e a equação é mais ou menos a mesma; no entanto, a maioria das pessoas vê sentido e se dispõe a acreditar sem grande resistência.
Ou a vida é uma inércia, de repente ficou tarde e é hora de ir dormir, daqui a pouco estamos de férias e nem percebemos o tempo passando, seis meses atrás era tudo igual, daqui a seis meses vai ser tudo igual, e nos próximos dez anos.
Tenho medo de não conseguir levar a vida de uma pessoa adulta. Não me acho capaz, competente a ponto de assumir as responsabilidades que, algum dia, acabarão caindo em cima de mim de qualquer maneira. Nem acho que eu esteja aproveitando os momentos de não-responsabilidade enquanto esse dia não chega.
É um meio-termo dolorido, ainda menos dolorido do que há uns dois ou três anos, e então eu deveria estar raciocinando de acordo com uma tendência progressiva de melhora - e só o que eu sinto é medo; de mim mesma, acima de tudo.
Nas últimas vezes em que ouvi professores ou palestrantes se apresentando, morri de inveja. Deve ser de uma gratificação estonteante poder olhar do alto da sua idade e dizer Em tal ano, fiz isso. Me formei naquilo. Viajei para não sei onde. Conheci não sei quem. Mas isso foi há muito tempo; hoje...
Eles olham para pessoas como eu e suas mentes devem imediatamente unir conceitos como ingenuidade e perspectiva, para nos descrever através de adjetivos eufemistas. Não que eles tenham consciência disso. Nem que eles um dia tenham tido as mesmas angústias que eu, provavelmente não se preocuparam em como se apresentariam vinte anos depois de estarem no que viriam a pensar ser o ponto mais alto das suas vidas, em termos emocionais.
Eu obviamente transbordo emoções hoje, mas não consigo levá-las a lugar nenhum.
Não acho que eu esteja decaindo. Pior: realmente acredito que eu esteja mudando, penso estar melhor do que eu era há pouquíssimo tempo. O que me comove é não conseguir perceber quais são os gestos exatos que geram mudanças. Os meses passam, eu preciso de tempo até conseguir entender o que foi bom e o que foi ruim.
Meu presente é a resposta a uma interpretação mal-feita do meu passado misturada ao que eu preciso para o meu futuro.
Hoje penso que a minha vida é medíocre se comparada à da maioria ao meu redor. Por enquanto, consigo conviver bem com isso. Muito melhor do que a maioria de toda essa maioria conseguiria. Mas, daqui a alguns anos, não sei como vai ser. Eu não vou mais ter idade para ser medíocre.
sábado, 29 de agosto de 2009
Minha cabeça traz dúvidas e me leva outra vez a acreditar que não vale a pena.
Ontem, enquanto mexia em jornais velhos, pensei em desistir. Mas então reparei que eu estava de pijama, eu jamais morreria de pijama. Só o trabalho de vestir uma roupa e arrumar o cabelo, bom, eu já teria parado de chorar até lá.
Meus impulsos falham porque são escravos do meu método. Minha morte seria calculada e perfeita, eu já disse isso antes.
Ou sem roupas nem maquiagem. Mas todos ririam das minhas costelas. Seria de olhos fechados e sorriso mas com rugas, eu também já falei sobre isso um milhão de vezes.
Não poderia ser no frio. Eu não morreria roxa, nem deixaria que alguém pensasse que eu morri há mais de dez horas se tivesse morrido dois minutos atrás.
Quem comentaria? Quem se preocuparia? Consigo pensar nas pessoas que se importam, mas o que mais me interessa é quem não me conhece direito. Envergariam a boca e falariam alguma coisa? Permaneceriam sem dizer nada, como sempre.
Como a notícia correria, eu não sei. A minha foto 3x4 sendo lembrada através de um monte de lugares. E então é o fim. Qual seria a minha última foto 3x4?
Eu enxergo o fim branco. Eu não me imaginar no futuro quer ou não quer dizer alguma coisa?
Daqui a dez anos, eu... Eu. É nesse instante em que fica tudo branco. Na minha imaginação. Aquela cena que aparece na parte de trás do que estamos enxergando, que é o que estamos imaginando.
Uma sensação de estar sendo desligada, um som abafado e então termina. Um filme sem créditos.
Quem poderá assistir até o final? Fico pensando e tenho medo de que ninguém possa apertar a minha mão pela última vez.
Sempre pode ser o último segundo. Portanto, percebam. E não se sintam culpados, acima de tudo. Arrependidos. Impotentes, apenas. E felizes. Por mim, por vocês, pelo mundo sem mim, pelo mundo comigo, por tudo o que for importante, pelo que foi importante.
Ontem, enquanto mexia em jornais velhos, pensei em desistir. Mas então reparei que eu estava de pijama, eu jamais morreria de pijama. Só o trabalho de vestir uma roupa e arrumar o cabelo, bom, eu já teria parado de chorar até lá.
Meus impulsos falham porque são escravos do meu método. Minha morte seria calculada e perfeita, eu já disse isso antes.
Ou sem roupas nem maquiagem. Mas todos ririam das minhas costelas. Seria de olhos fechados e sorriso mas com rugas, eu também já falei sobre isso um milhão de vezes.
Não poderia ser no frio. Eu não morreria roxa, nem deixaria que alguém pensasse que eu morri há mais de dez horas se tivesse morrido dois minutos atrás.
Quem comentaria? Quem se preocuparia? Consigo pensar nas pessoas que se importam, mas o que mais me interessa é quem não me conhece direito. Envergariam a boca e falariam alguma coisa? Permaneceriam sem dizer nada, como sempre.
Como a notícia correria, eu não sei. A minha foto 3x4 sendo lembrada através de um monte de lugares. E então é o fim. Qual seria a minha última foto 3x4?
Eu enxergo o fim branco. Eu não me imaginar no futuro quer ou não quer dizer alguma coisa?
Daqui a dez anos, eu... Eu. É nesse instante em que fica tudo branco. Na minha imaginação. Aquela cena que aparece na parte de trás do que estamos enxergando, que é o que estamos imaginando.
Uma sensação de estar sendo desligada, um som abafado e então termina. Um filme sem créditos.
Quem poderá assistir até o final? Fico pensando e tenho medo de que ninguém possa apertar a minha mão pela última vez.
Sempre pode ser o último segundo. Portanto, percebam. E não se sintam culpados, acima de tudo. Arrependidos. Impotentes, apenas. E felizes. Por mim, por vocês, pelo mundo sem mim, pelo mundo comigo, por tudo o que for importante, pelo que foi importante.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Franja engana bem. Sempre.
(Estou comecando a tentar perceber qual é a primeira coisa em que eu reparo nas pessoas que, de repente, se mostram interessantes para mim. Fisicamente, claro. Nunca gostei de características psicológicas por preconceito - a não ser, talvez, da menina estrangeira falando um português desajeitado, mas acho que nao conta muito, eu já tinha gostado dela antes mesmo de tê-la ouvido falar.)
Eu reparo em cabelos, depois em roupas. Depois em nariz, fatalmente. Se tudo isso for aprovado, reparo na altura. E vejo se a altura condiz com o tamanho das pernas. Depois vêm detalhes dos mais variados, unhas, pele. Tatuagens também são um ponto importante (e em geral não favorável).
Olhos são os menos principais.
Sorrisos são desnecessários. Gosto de quem encara de frente, mas odeio quem continua olhando depois de não ter sido correspondido.
(Estou comecando a tentar perceber qual é a primeira coisa em que eu reparo nas pessoas que, de repente, se mostram interessantes para mim. Fisicamente, claro. Nunca gostei de características psicológicas por preconceito - a não ser, talvez, da menina estrangeira falando um português desajeitado, mas acho que nao conta muito, eu já tinha gostado dela antes mesmo de tê-la ouvido falar.)
Eu reparo em cabelos, depois em roupas. Depois em nariz, fatalmente. Se tudo isso for aprovado, reparo na altura. E vejo se a altura condiz com o tamanho das pernas. Depois vêm detalhes dos mais variados, unhas, pele. Tatuagens também são um ponto importante (e em geral não favorável).
Olhos são os menos principais.
Sorrisos são desnecessários. Gosto de quem encara de frente, mas odeio quem continua olhando depois de não ter sido correspondido.
O jeito como as mãos se mexem. Para pegar coisas na bolsa, dobrar a manga do casaco, chamar alguém. O jeito como a voz sai da boca e como os dentes lidam com a voz.
Adoro não ser percebida. E tenho medo de que as pessoas reparem que eu sorrio quando estou imaginando. Que eu deixo o café esfriar e páro tudo o que estiver fazendo.
Antes, eu não tinha coragem de olhar.
Meu amor platônico teve uma fase inicial - e completamente normal - de imaginar o que poderia ter acontecido em certas situações depois delas terem acontecido, ou o que poderia acontecer e seria bom que acontecesse, sem ligação nenhuma com a realidade; mas tudo piorou quando eu comecei a imaginar coisas que poderiam estar acontecendo durante o momento que eu estava vivendo.
Eu não tinha coragem de olhar e por isso me prendia cada vez mais no que eu estava pensando, a minha imaginação ia muito além do que eu mesma podia acreditar, meu único objetivo era não sorrir, ainda que o sorriso de alguém que encara o chão quase não seja denunciador.
Eu ainda olho, imagino, finjo que não está acontecendo nada, rio para dentro. Me deixo levar pelas primeiras impressões, e demoro a me convencer de que elas não são as melhores. Impossível me conquistar, impossível ser conquistado por mim.
domingo, 9 de agosto de 2009
como seria a minha vida matrimonial, se ela existisse
opção 1 middle-aged bem-sucedido
Eu teria vinte e poucos anos; ele, trinta ou quarenta. Ele teria estudado algo como engenharia ou administração (faculades de empregos que dão dinheiro) e seria brilhante. Ele tentaria falar sobre matemática mas então se lembraria que eu não entenderia nada e riria e em seguida pararia - eu acharia isso encantador. Ele não falaria muito comigo, e por isso eu o amaria. Teríamos filhos e ele não estaria nem aí para a minha vida pessoal, porque, enquanto estivesse acordado, estaria trabalhando.
opção 2 garotão lindo herdeiro
Um quase drogadicto que tocaria guitarra e entenderia tudo sobre qualquer assunto adolescente demais para ser interessante. Falaria muito, chegando a ser irritante, mas isso não importaria, afinal, ele seria lindo e cheio de dinheiro (dos pais, é claro). O típico caso do filho único de uma família tradicional que quer ir contra tudo e contra todos só porque não tem nada de melhor para fazer na vida. É aí, aliás, que eu entraria: como promessa de estabilidade, a possibilidade de construção de uma vida digna e encatadoramente normal, em uma mansão de subúrbio lotada de empregados. Tudo mentira. Fingiríamos o nosso casamento barbie para os pais dele enquanto correríamos atrás de garotas por todos os lugares do mundo, acompanhando turnês de bandas decadentes com olheiras até o queixo.
opção 3 girl pride! my oh my
Cinco garotas maravilhosas morando juntas em um apartamento. Sim, amor-livre. Sem ciúmes nem visitas masculinas depois da meia-noite, guarda-roupa comum, dormir cada dia em uma cama diferente, nunca se preocupar em trancar a porta. Andar por aí só de meias, uma jacuzzi gigante, se a gente contasse ninguém acreditaria. Um casal formado por cinco pessoas, simplesmente. E felicidade saindo pelas janelas o tempo todo.
Eu teria vinte e poucos anos; ele, trinta ou quarenta. Ele teria estudado algo como engenharia ou administração (faculades de empregos que dão dinheiro) e seria brilhante. Ele tentaria falar sobre matemática mas então se lembraria que eu não entenderia nada e riria e em seguida pararia - eu acharia isso encantador. Ele não falaria muito comigo, e por isso eu o amaria. Teríamos filhos e ele não estaria nem aí para a minha vida pessoal, porque, enquanto estivesse acordado, estaria trabalhando.
opção 2 garotão lindo herdeiro
Um quase drogadicto que tocaria guitarra e entenderia tudo sobre qualquer assunto adolescente demais para ser interessante. Falaria muito, chegando a ser irritante, mas isso não importaria, afinal, ele seria lindo e cheio de dinheiro (dos pais, é claro). O típico caso do filho único de uma família tradicional que quer ir contra tudo e contra todos só porque não tem nada de melhor para fazer na vida. É aí, aliás, que eu entraria: como promessa de estabilidade, a possibilidade de construção de uma vida digna e encatadoramente normal, em uma mansão de subúrbio lotada de empregados. Tudo mentira. Fingiríamos o nosso casamento barbie para os pais dele enquanto correríamos atrás de garotas por todos os lugares do mundo, acompanhando turnês de bandas decadentes com olheiras até o queixo.
opção 3 girl pride! my oh my
Cinco garotas maravilhosas morando juntas em um apartamento. Sim, amor-livre. Sem ciúmes nem visitas masculinas depois da meia-noite, guarda-roupa comum, dormir cada dia em uma cama diferente, nunca se preocupar em trancar a porta. Andar por aí só de meias, uma jacuzzi gigante, se a gente contasse ninguém acreditaria. Um casal formado por cinco pessoas, simplesmente. E felicidade saindo pelas janelas o tempo todo.
sábado, 1 de agosto de 2009
Minha mãe disse que, quando ela tinha 20 anos, ia com os amigos tomar café no aeroporto. Fizemos isso sábado à noite depois do hamburger, e não só porque era o meu jantar de aniversário - acho que teríamos feito de qualquer jeito, depois de eela ter comentado algo a respeito.
Ela contou que o aeroporto de Congonhas foi um dos primeiros lugares a ter café expresso em São Paulo. Achei engraçado e fiquei tentando entender como era o mundo não-globalizado e menos caótico, minha irmã tem ou diz ter uma imagem melhor disso (ela fala até que, quando ela era uma criança pequena, os shoppings não abriam de domingo).
Tive uma conversa parecida com a Hannah há pouco tempo, ela perguntou se eu queria que ela trouxesse alguma coisa da Califórnia e eu pedi m&m's de peanut butter. Um mundo de coisas nos Estados Unidos e, bom, eu pedi m&m's de peanut butter. Uma das poucas coisas que tem lá e não tem aqui, assim como um dia já aconteceu com balas Althoids e algumas outras besteirinhas que faziam com que aqueles que costumavam viajar ao exterior se sentissem superiores.
Sem ser criteriosa, vivemos o mesmo tipo de vida em todo o mundo. Com algumas nuances, claro, algumas pequenas diferenças em forma de filigranas, como diria a Cláudia, mas, ainda segundo ela, a estrutura é a mesma.
E fico me perguntando qual é a graça. E, se daqui a trinta anos, vou ter alguma coisa para dizer aos meus filhos (ou aos filhos dos outros), encher o pulmão de ar e levantar o indicador direito 'Porque, no meu tempo...'
Sei que não tem nada a ver com o raciocínio que eu estava desenvolvendo, mas ontem pensei que, se eu quisesse fazer um filme sobre a minha vida, não saberia quando ele começaria nem quando terminaria. Pensar no começo talvez fosse mais fácil, não acho relevante falar de nada que venha antes dos meus avós, embora isso implique em narrar talvez mais de sessenta anos de história antes do meu nascimento.
Mas, e então, quando tudo terminaria? É mais do que óbvio que eu precisaria morrer para poder terminar o filme, ou quem sabe para começar. Se eu começasse hoje, talvez mais da metade do filme seria sobre a minha vida até hoje, e eu provavelmente ficaria tentada a inventar um final.
Não saberia o que dizer, aonde chegar. Espero ainda não ter vivido a maior parte da minha vida. Nem a melhor. Não espero muito ou tento não exigir nada, sei que é impossível mas procuro não sonhar nem fazer metas, preciso ser medíocre.
Enquanto isso, posso elaborar o roteiro para o filme da minha vida, fechar os olhos e enxergar imagens estragadas pela neve que caiu sobre os meus pais há quase trinta anos, fingir que eu lembro do que era a minha vida - e não só eu, e sim tudo o que se passava ao meu redor - quando eu era um bebê, pensar nas coisas que vêm me incomodando desde que eu entendo que eu existo, minha aparência nas situações mais relevantes que já me aconteceram, como eu estava vestida, que altura eu tinha, posso sentir o sol quente tropical de 1950 e poucos.
Ela contou que o aeroporto de Congonhas foi um dos primeiros lugares a ter café expresso em São Paulo. Achei engraçado e fiquei tentando entender como era o mundo não-globalizado e menos caótico, minha irmã tem ou diz ter uma imagem melhor disso (ela fala até que, quando ela era uma criança pequena, os shoppings não abriam de domingo).
Tive uma conversa parecida com a Hannah há pouco tempo, ela perguntou se eu queria que ela trouxesse alguma coisa da Califórnia e eu pedi m&m's de peanut butter. Um mundo de coisas nos Estados Unidos e, bom, eu pedi m&m's de peanut butter. Uma das poucas coisas que tem lá e não tem aqui, assim como um dia já aconteceu com balas Althoids e algumas outras besteirinhas que faziam com que aqueles que costumavam viajar ao exterior se sentissem superiores.
Sem ser criteriosa, vivemos o mesmo tipo de vida em todo o mundo. Com algumas nuances, claro, algumas pequenas diferenças em forma de filigranas, como diria a Cláudia, mas, ainda segundo ela, a estrutura é a mesma.
E fico me perguntando qual é a graça. E, se daqui a trinta anos, vou ter alguma coisa para dizer aos meus filhos (ou aos filhos dos outros), encher o pulmão de ar e levantar o indicador direito 'Porque, no meu tempo...'
Sei que não tem nada a ver com o raciocínio que eu estava desenvolvendo, mas ontem pensei que, se eu quisesse fazer um filme sobre a minha vida, não saberia quando ele começaria nem quando terminaria. Pensar no começo talvez fosse mais fácil, não acho relevante falar de nada que venha antes dos meus avós, embora isso implique em narrar talvez mais de sessenta anos de história antes do meu nascimento.
Mas, e então, quando tudo terminaria? É mais do que óbvio que eu precisaria morrer para poder terminar o filme, ou quem sabe para começar. Se eu começasse hoje, talvez mais da metade do filme seria sobre a minha vida até hoje, e eu provavelmente ficaria tentada a inventar um final.
Não saberia o que dizer, aonde chegar. Espero ainda não ter vivido a maior parte da minha vida. Nem a melhor. Não espero muito ou tento não exigir nada, sei que é impossível mas procuro não sonhar nem fazer metas, preciso ser medíocre.
Enquanto isso, posso elaborar o roteiro para o filme da minha vida, fechar os olhos e enxergar imagens estragadas pela neve que caiu sobre os meus pais há quase trinta anos, fingir que eu lembro do que era a minha vida - e não só eu, e sim tudo o que se passava ao meu redor - quando eu era um bebê, pensar nas coisas que vêm me incomodando desde que eu entendo que eu existo, minha aparência nas situações mais relevantes que já me aconteceram, como eu estava vestida, que altura eu tinha, posso sentir o sol quente tropical de 1950 e poucos.
domingo, 26 de julho de 2009
Preciso de alguém para jogar um copo de água na minha cara.
Isso me faria perceber muitas coisas, me deixaria menos ansiosa e mais à vontade. Depois - as gotas pingando pelo meu nariz e meu queixo, minha sobrancelha bagunçada e meus cílios enxarcados -, eu passaria a língua nos lábios. Alguém poderia amarrar as minhas mãos atrás das minhas costas e jogar um copo de água na minha cara.
Assim eu não teria como evitar toda a situação, mesmo relutando muito para que as minhas mãos não fossem amarradas. Talvez fosse preciso amarrar os meus pés aos de uma cadeira.
Alguém jogaria um copo de água na minha cara, e esse seria um gesto anônimo e instantâneo (não seria preciso que essa pessoa realmente existisse).
A água do copo encontrando o meu rosto (a cena repetida em câmera lenta, como nas aulas sobre inércia) escorreria e levaria com ela todo o arrependimento que eu tenho sentido nos últimos tempos.
Não tenho idéia do motivo exato, mas, ultimamente, quando eu páro de falar e começo a pensar a respeito de qualquer assunto, minha mente têm me lembrado de acontecimentos deprimentes das épocas mais diferentes da minha vida. Foram situações em que eu me senti muito constrangida, daquelas em que chega a ser possível sentir as bochechas ganhando cor, você tenta disfarçar e acaba só falando coisas sem o menor sentido ou justificativa.
Em momentos como esse, pisco o olho esquerdo. Involuntariamente. Enquanto estou corando por besteiras que eu fiz há anos, pisco o olho esquerdo, em uma ação reflexa tão imediata que nunca consigo evitar. Quando dou por mim, estou com o olho esquerdo fechado, o resto do rosto se contorcendo em uma careta mal-feita, a boca levantando junto com o nariz.
Se eu recebesse um copo de água na cara bem nesse instante, talvez até desse risada da situação relembrada. Afinal, racionalmente, é mais do que óbvio que não devo me sentir arrependida por momentos tão pontuais e distantes.
Quando eu era menor, essas situações de constrangimento eram bem mais freqüentes. Não sei se porque eu era menos segura, talvez eu falasse demais, ou era mais idiota.
Nenhum daqueles que estavam presentes em cada situação deve lembrar do acontecido, assim como eu não tenho memória da vergonha sentida por outras pessoas. Na hora pode até ser engraçado, às vezes meio triste ou embaraçoso, mas depois de meia hora pronto, já passou, e eu nunca volto a refletir sobre aquilo.
Estou presa nas minhas próprias lembranças, e as boas lembranças não ficam marcadas.
Isso me faria perceber muitas coisas, me deixaria menos ansiosa e mais à vontade. Depois - as gotas pingando pelo meu nariz e meu queixo, minha sobrancelha bagunçada e meus cílios enxarcados -, eu passaria a língua nos lábios. Alguém poderia amarrar as minhas mãos atrás das minhas costas e jogar um copo de água na minha cara.
Assim eu não teria como evitar toda a situação, mesmo relutando muito para que as minhas mãos não fossem amarradas. Talvez fosse preciso amarrar os meus pés aos de uma cadeira.
Alguém jogaria um copo de água na minha cara, e esse seria um gesto anônimo e instantâneo (não seria preciso que essa pessoa realmente existisse).
A água do copo encontrando o meu rosto (a cena repetida em câmera lenta, como nas aulas sobre inércia) escorreria e levaria com ela todo o arrependimento que eu tenho sentido nos últimos tempos.
Não tenho idéia do motivo exato, mas, ultimamente, quando eu páro de falar e começo a pensar a respeito de qualquer assunto, minha mente têm me lembrado de acontecimentos deprimentes das épocas mais diferentes da minha vida. Foram situações em que eu me senti muito constrangida, daquelas em que chega a ser possível sentir as bochechas ganhando cor, você tenta disfarçar e acaba só falando coisas sem o menor sentido ou justificativa.
Em momentos como esse, pisco o olho esquerdo. Involuntariamente. Enquanto estou corando por besteiras que eu fiz há anos, pisco o olho esquerdo, em uma ação reflexa tão imediata que nunca consigo evitar. Quando dou por mim, estou com o olho esquerdo fechado, o resto do rosto se contorcendo em uma careta mal-feita, a boca levantando junto com o nariz.
Se eu recebesse um copo de água na cara bem nesse instante, talvez até desse risada da situação relembrada. Afinal, racionalmente, é mais do que óbvio que não devo me sentir arrependida por momentos tão pontuais e distantes.
Quando eu era menor, essas situações de constrangimento eram bem mais freqüentes. Não sei se porque eu era menos segura, talvez eu falasse demais, ou era mais idiota.
Nenhum daqueles que estavam presentes em cada situação deve lembrar do acontecido, assim como eu não tenho memória da vergonha sentida por outras pessoas. Na hora pode até ser engraçado, às vezes meio triste ou embaraçoso, mas depois de meia hora pronto, já passou, e eu nunca volto a refletir sobre aquilo.
Estou presa nas minhas próprias lembranças, e as boas lembranças não ficam marcadas.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
and an island never cries
Era eu, de novo, sentada em uma cadeira grande demais sem coneguir relaxar, pensando no que iria fazer dali em diante. Era eu com rugas na testa, o bloco de papel e a caneta que eu deveria ter levado comigo.
Eram idéias surgindo que foram parar em algum lugar qualquer, frases prontas que poderiam ser refrões de músicas sem instrumentos, poemas.
Era ela, com as suas mãos quentes (sempre muito mais quentes do que as minhas), soluçando com discrição. Quantas vezes já tínhamos compartilhado soluços, mãos quentes, quantas vezes eu já tinha pensado em abraçá-la tendo desistido no meio do caminho - e quantas vezes isso continuaria a acontecer, as botas pesando do mesmo jeito, a tristeza vindo como um gancho que nos unia pela parte de cima das costas - eu não seria capaz de responder.
Todos vinham agasalhados; muito mais bonitos, naturalmente, eu me sentia bonita e essa era a minha maior punição: o mundo estava acabando e eu me sentia bonita.
Dentre as coisas que eu não disse para ele, está quase tudo o que eu penso sobre o mundo. A visão que ele tinha de mim provavelmente é de uma criança de onze anos que gosta de chocolate, ou de uma menina ingênua que não consegue aprender as coisas que é ensinada na escola. Ele não me conhecia de verdade. Não como eu sou hoje, meus gostos e cada uma das minhas preferências.
Ele sabia o que eu queria da minha vida? Ele se preocupava - tenho certeza -, ele queria o meu bem e eu nunca quis o seu mal, éramos pessoas distantes há alguns anos, e ele sabia como fazer piada com isso. Nunca duvidei de que ele se sentisse triste. Era ele quem se sentia pior, o nosso sofrimento nunca poderia compensar o dele, nós sempre soubemos disso e nunca pensamos em como seria se não estivéssemos mais disponíveis.
Ele se destruía todos os dias, e parecia não poder se sentir tranqüilo até que destruísse tudo ao seu redor. Nesse ponto, ele era eu, os motivos que me fizeram tentar acabar comigo mesma, minha mãe disse que ele se cobrava muito, 'Nisso vocês são muito parecidos'.
E, enfim, eu tenho a chance de mostrar que posso dar certo. Tenho uma desculpa para olhar para frente e nunca mais querer olhar para trás, a Paula costuma dizer que o futuro está muito mais perto porque o passado nunca mais poderá ser tocado, fecho os olhos e imagino uma piscina azul infinita, sou eu debaixo d'água nadando com dificuldade, a água que está perto de mim é azul clara e às vezes eu até consigo perceber o fundo da piscina, a água que está longe de mim é azul bem escura e vai se tornando clara conforme persisto me movimentando.
Há muita água em cima de mim: se eu quisesse voltar para respirar, não saberia como, porque não daria tempo.
Meio parecido com a expansão do universo. Se o seu tamanho não tem fim, como eu poderia dizer se estamos parados desde que chegamos ao ponto onde começamos a existir? (Ou talvez não seja muito parecido.)
Talvez não seja o fim de uma etapa. Pode ser só a continuação de um processo longo e difícil, mais antigo do que a minha própria vida. E que perdurará por muito mais tempo, aquelas pessoas têm histórias diferentes, contam versões para fatos encarados sob inúmeros pontos de vista.
Mas é a minha vez e o meu tempo, penso no que eu quero fazer da memória dele, da minha memória, meus gestos podem ser decisivos. Nunca mais pensar em jogar o carro da ponte (embora isso só tenha acontecido uma vez), sem opção de misturar remédios para esquizofrenia com gim tônica, eu não vou mais abaixar a cabeça, nem quando o mundo estiver apoiado em cima de mim - nem antes e provavelmente nem depois dos 22 anos.
Descobri muitas coisas sozinha, tive ajuda de muitas pessoas que se importam comigo e para as quais eu sei que sou importante, e aos poucos reparei que posso ser fria se for necessário.
Encarar o mundo sem deixar cair uma lágrima, e ainda assim ser a pessoa mais sensível de todas. Sou um escudo e posso ser usada por quem quer que precise ser protegido, eu queria poder ajudar todos aqueles que eu considero especiais, sua dor se transformaria na minha dor, porque eu sei como lidar com isso, sei enfrentar o que for preciso, nunca mais tenha receio em pedir ajuda, nem pense que eu fico triste quando deixam de me perguntar como eu me sinto.
Eu simplesmente não me sinto, e isso é muito mais forte do que eu. Não nessa vida.
Eram idéias surgindo que foram parar em algum lugar qualquer, frases prontas que poderiam ser refrões de músicas sem instrumentos, poemas.
Era ela, com as suas mãos quentes (sempre muito mais quentes do que as minhas), soluçando com discrição. Quantas vezes já tínhamos compartilhado soluços, mãos quentes, quantas vezes eu já tinha pensado em abraçá-la tendo desistido no meio do caminho - e quantas vezes isso continuaria a acontecer, as botas pesando do mesmo jeito, a tristeza vindo como um gancho que nos unia pela parte de cima das costas - eu não seria capaz de responder.
Todos vinham agasalhados; muito mais bonitos, naturalmente, eu me sentia bonita e essa era a minha maior punição: o mundo estava acabando e eu me sentia bonita.
Dentre as coisas que eu não disse para ele, está quase tudo o que eu penso sobre o mundo. A visão que ele tinha de mim provavelmente é de uma criança de onze anos que gosta de chocolate, ou de uma menina ingênua que não consegue aprender as coisas que é ensinada na escola. Ele não me conhecia de verdade. Não como eu sou hoje, meus gostos e cada uma das minhas preferências.
Ele sabia o que eu queria da minha vida? Ele se preocupava - tenho certeza -, ele queria o meu bem e eu nunca quis o seu mal, éramos pessoas distantes há alguns anos, e ele sabia como fazer piada com isso. Nunca duvidei de que ele se sentisse triste. Era ele quem se sentia pior, o nosso sofrimento nunca poderia compensar o dele, nós sempre soubemos disso e nunca pensamos em como seria se não estivéssemos mais disponíveis.
Ele se destruía todos os dias, e parecia não poder se sentir tranqüilo até que destruísse tudo ao seu redor. Nesse ponto, ele era eu, os motivos que me fizeram tentar acabar comigo mesma, minha mãe disse que ele se cobrava muito, 'Nisso vocês são muito parecidos'.
E, enfim, eu tenho a chance de mostrar que posso dar certo. Tenho uma desculpa para olhar para frente e nunca mais querer olhar para trás, a Paula costuma dizer que o futuro está muito mais perto porque o passado nunca mais poderá ser tocado, fecho os olhos e imagino uma piscina azul infinita, sou eu debaixo d'água nadando com dificuldade, a água que está perto de mim é azul clara e às vezes eu até consigo perceber o fundo da piscina, a água que está longe de mim é azul bem escura e vai se tornando clara conforme persisto me movimentando.
Há muita água em cima de mim: se eu quisesse voltar para respirar, não saberia como, porque não daria tempo.
Meio parecido com a expansão do universo. Se o seu tamanho não tem fim, como eu poderia dizer se estamos parados desde que chegamos ao ponto onde começamos a existir? (Ou talvez não seja muito parecido.)
Talvez não seja o fim de uma etapa. Pode ser só a continuação de um processo longo e difícil, mais antigo do que a minha própria vida. E que perdurará por muito mais tempo, aquelas pessoas têm histórias diferentes, contam versões para fatos encarados sob inúmeros pontos de vista.
Mas é a minha vez e o meu tempo, penso no que eu quero fazer da memória dele, da minha memória, meus gestos podem ser decisivos. Nunca mais pensar em jogar o carro da ponte (embora isso só tenha acontecido uma vez), sem opção de misturar remédios para esquizofrenia com gim tônica, eu não vou mais abaixar a cabeça, nem quando o mundo estiver apoiado em cima de mim - nem antes e provavelmente nem depois dos 22 anos.
Descobri muitas coisas sozinha, tive ajuda de muitas pessoas que se importam comigo e para as quais eu sei que sou importante, e aos poucos reparei que posso ser fria se for necessário.
Encarar o mundo sem deixar cair uma lágrima, e ainda assim ser a pessoa mais sensível de todas. Sou um escudo e posso ser usada por quem quer que precise ser protegido, eu queria poder ajudar todos aqueles que eu considero especiais, sua dor se transformaria na minha dor, porque eu sei como lidar com isso, sei enfrentar o que for preciso, nunca mais tenha receio em pedir ajuda, nem pense que eu fico triste quando deixam de me perguntar como eu me sinto.
Eu simplesmente não me sinto, e isso é muito mais forte do que eu. Não nessa vida.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Passei o dia inteiro com a sensação horrível de não ter o que fazer com a música que estava na minha cabeça (e que eu devo ter ouvido mais de vinte vezes ao longo do dia).
Costumo me emocionar muito com todas as formas de arte. (É idiota dizer isso, eu sei, e eu digo porque sinto que tenho mais tendência a me sentir sentimentalmente abalada frente a uma obra de arte do que a maioria das pessoas que eu conheço, os olhos ardendo e os lábios diminuindo de tamanho). Mas com música isso é bem mais forte (o que não quer dizer que seja mais legítimo) - algo do que os românticos já sabiam.
A segunda guitarra entra e eu demoro alguns segundos até ter certeza de que consegui permanecer de pé, sem cair desvanecida.
Se eu pudesse, engoliria cada um daqueles acordes. Não sei se isso resolveria a minha aflição, mas provavelmente faria com que eu, enquanto matéria, participasse de todas aquelas vibrações sonoras.
Seria um problema físico, um som bem forte correndo por dentro do meu aparelho digestório, será que as paredes dos meus órgãos seriam capazes de barrá-lo, e então eu seria jogada de um lado para o outro até que a música terminasse? Ou o som simplesmente entraria no meu corpo e sairia pelos meus poros, por difusão, estragando cada nota da minha música?
Não vejo com bons olhos a idéia do meu corpo como um grande aspirador de barulho. Talvez esse fosse um recurso para ser usado uma, duas ou três vezes na vida. O certo é que a sensação seria excepcional, do tipo experiência de quase-morte - aliás, seria até interessante que a situação proporcionasse risco de vida. Afinal, as condições seriam sempre adversas, um processo desconhecidíssimo, como engolir uma música?
Também seria bom para que isso não se banalizasse, para que se desse valor a cada um dos segundos de êxtase musical; seria perfeito se bastante gente já tivesse morrido tentando, e se os que tivessem vivido para contar tivessem ficado loucos depois de descobrir que o mundo nunca poderia ter graça outra vez. Seria obviamente uma história mal contada, aquilo que sabemos que existe mas preferimos não acreditar, ou que não acreditamos simplesmente por saber que existe.
Talvez a sensação fosse parecida com a de entrar em uma pintura: dividir refeições com parisienses ou participar de uma homenagem ao menino Jesus. Eu poderia fazer parte da narrativa de um livro sem que ninguém percebesse, só para estar ao lado dos meus personagens preferidos - você não odeia terminar de ler um livro, e saber que aquelas pessoas nunca mais irão se reportar a você?
Eu me moveria junto com a música - e isso não quer dizer dançar: eu estaria dentro da música, como se tentasse cruzar um buraco de minhoca do Einstein (uma brecha no espaço-tempo), por isso toda a emoção, o perigo de nunca mais conseguir voltar, eu poderia ser uma palavra pronunciada que nunca mais voltaria a ser uma palavra pronunciada porque já teria sido uma palavra pronunciada que nunca mais seria aquela mesma palavra pronunciada.
Costumo me emocionar muito com todas as formas de arte. (É idiota dizer isso, eu sei, e eu digo porque sinto que tenho mais tendência a me sentir sentimentalmente abalada frente a uma obra de arte do que a maioria das pessoas que eu conheço, os olhos ardendo e os lábios diminuindo de tamanho). Mas com música isso é bem mais forte (o que não quer dizer que seja mais legítimo) - algo do que os românticos já sabiam.
A segunda guitarra entra e eu demoro alguns segundos até ter certeza de que consegui permanecer de pé, sem cair desvanecida.
Se eu pudesse, engoliria cada um daqueles acordes. Não sei se isso resolveria a minha aflição, mas provavelmente faria com que eu, enquanto matéria, participasse de todas aquelas vibrações sonoras.
Seria um problema físico, um som bem forte correndo por dentro do meu aparelho digestório, será que as paredes dos meus órgãos seriam capazes de barrá-lo, e então eu seria jogada de um lado para o outro até que a música terminasse? Ou o som simplesmente entraria no meu corpo e sairia pelos meus poros, por difusão, estragando cada nota da minha música?
Não vejo com bons olhos a idéia do meu corpo como um grande aspirador de barulho. Talvez esse fosse um recurso para ser usado uma, duas ou três vezes na vida. O certo é que a sensação seria excepcional, do tipo experiência de quase-morte - aliás, seria até interessante que a situação proporcionasse risco de vida. Afinal, as condições seriam sempre adversas, um processo desconhecidíssimo, como engolir uma música?
Também seria bom para que isso não se banalizasse, para que se desse valor a cada um dos segundos de êxtase musical; seria perfeito se bastante gente já tivesse morrido tentando, e se os que tivessem vivido para contar tivessem ficado loucos depois de descobrir que o mundo nunca poderia ter graça outra vez. Seria obviamente uma história mal contada, aquilo que sabemos que existe mas preferimos não acreditar, ou que não acreditamos simplesmente por saber que existe.
Talvez a sensação fosse parecida com a de entrar em uma pintura: dividir refeições com parisienses ou participar de uma homenagem ao menino Jesus. Eu poderia fazer parte da narrativa de um livro sem que ninguém percebesse, só para estar ao lado dos meus personagens preferidos - você não odeia terminar de ler um livro, e saber que aquelas pessoas nunca mais irão se reportar a você?
Eu me moveria junto com a música - e isso não quer dizer dançar: eu estaria dentro da música, como se tentasse cruzar um buraco de minhoca do Einstein (uma brecha no espaço-tempo), por isso toda a emoção, o perigo de nunca mais conseguir voltar, eu poderia ser uma palavra pronunciada que nunca mais voltaria a ser uma palavra pronunciada porque já teria sido uma palavra pronunciada que nunca mais seria aquela mesma palavra pronunciada.
sábado, 4 de julho de 2009
Depois de andar um pouco por ruas & lojas, minha mãe perguntou 'Você repara como as pessoas olham para você?' Eu não tinha reparado, nem sabia como formular uma resposta para o sorriso malicioso dela. Formulei uma pergunta: 'Como assim? De um jeito ruim?'
'Ninguém fica olhando para as pessoas que não gostou.'
Entramos em uma loja de acessários para cozinha e os vendedores me trataram bem, nada excessivo. A mulher da American Apparel perguntou se eu era bailarina, acho que pelo jeito como eu estava vestida. 'Por causa da meia-calça branca?' Ela se confundiu. 'Não sei... O sapato rosa...' Era um Timberland bem rosa ballet, e depois eu percebi que estava usando um coque.
Na Lupo, um homem careca de casaco verde e talvez uns 30 anos de idade (que provavelmente estava esperando alguém, sentado) me encarou como se quisesse não só o meu mal, mas de todo o meu corpo.
Eu fiquei encarando uma garota pequena (de uns 16, talvez) na loja das Havaianas. Ela se vestia bem (apesar do all star preto) e carregava uma Holga de 35mm na mão. Pensei 'Ou ela é poser ou ela é estrangeira'. Ela era estrangeira, estava com a mãe, depois eu até vi as duas tirando fotos em frente à loja da Melissa. Ela não era bonita, mas tinha um messy hair loiro-castanho bonito (bagunçado e bem ajeitado - foi daí que eu tirei a idéia para o meu coque).
Quando a minha mãe perguntou, pensei que ela fosse dizer que todo o mundo olha para as minhas pernas quando eu não estou usando calça. Nem sempre isso acontece, é só uma mania da minha mãe; atualmente, é também uma maneira que ela encontrou para provar que 'Viu? Não sou só eu que acho as suas pernas finas demais'.
A menina da Holga talvez fosse ainda menor do que eu imaginei, mas soube retribuir aos meus olhares. Ela tinha olhos pequenos e separados, e abria a boca como se tivesse acabado de receber uma notícia ruim.
Em festas, ultimamente, quando tenho que passar pelo meio de muita gente junta, sinto que não sou eu, e sim os meus ossos que esbarram nas pessoas. Principalmente perto da cintura, e eu não sentiria nada além de vergonha se alguém realmente quisesse tocá-los.
O fato de as pessoas olharem para mim é uma conquista, ou talvez um prêmio sem disputa.
Afinal, com quem você estava competindo? Você não pode se sentir bem, mesmo não tendo motivos para se sentir mal. Não se sinta pior se você sabe que é melhor, não tente encontrar explicações sem sentido. Talvez você simplesmente não seja.
O meu coração é inconstante. Pela primeira vez na vida, consigo dizer isso sem chorar. Às vezes eu rio por dentro e penso na Brod de Tudo de ilumina escrevendo no diário Eu não estou apaixonada. Eu já disse isso antes, e me orgulho de que essa seja a melhor coisa do mundo, Eu não estou apaixonada.
Daí lembro do Nemo quando finalmente é encontrado, ele chega perto do pai e diz Eu não te odeio. Eu não te odeio e Eu não estou apaixonada são as frases que mais vêm na minha cabeça quando não estou pensando em nada e tenho algum sentimento muito forte preso na minha garganta, junto com You're tacky and I hate you do menininho Escola de rock e She died of anorexia, da maluca de Meu amor de verão.
'Ninguém fica olhando para as pessoas que não gostou.'
Entramos em uma loja de acessários para cozinha e os vendedores me trataram bem, nada excessivo. A mulher da American Apparel perguntou se eu era bailarina, acho que pelo jeito como eu estava vestida. 'Por causa da meia-calça branca?' Ela se confundiu. 'Não sei... O sapato rosa...' Era um Timberland bem rosa ballet, e depois eu percebi que estava usando um coque.
Na Lupo, um homem careca de casaco verde e talvez uns 30 anos de idade (que provavelmente estava esperando alguém, sentado) me encarou como se quisesse não só o meu mal, mas de todo o meu corpo.
Eu fiquei encarando uma garota pequena (de uns 16, talvez) na loja das Havaianas. Ela se vestia bem (apesar do all star preto) e carregava uma Holga de 35mm na mão. Pensei 'Ou ela é poser ou ela é estrangeira'. Ela era estrangeira, estava com a mãe, depois eu até vi as duas tirando fotos em frente à loja da Melissa. Ela não era bonita, mas tinha um messy hair loiro-castanho bonito (bagunçado e bem ajeitado - foi daí que eu tirei a idéia para o meu coque).
Quando a minha mãe perguntou, pensei que ela fosse dizer que todo o mundo olha para as minhas pernas quando eu não estou usando calça. Nem sempre isso acontece, é só uma mania da minha mãe; atualmente, é também uma maneira que ela encontrou para provar que 'Viu? Não sou só eu que acho as suas pernas finas demais'.
A menina da Holga talvez fosse ainda menor do que eu imaginei, mas soube retribuir aos meus olhares. Ela tinha olhos pequenos e separados, e abria a boca como se tivesse acabado de receber uma notícia ruim.
Em festas, ultimamente, quando tenho que passar pelo meio de muita gente junta, sinto que não sou eu, e sim os meus ossos que esbarram nas pessoas. Principalmente perto da cintura, e eu não sentiria nada além de vergonha se alguém realmente quisesse tocá-los.
O fato de as pessoas olharem para mim é uma conquista, ou talvez um prêmio sem disputa.
Afinal, com quem você estava competindo? Você não pode se sentir bem, mesmo não tendo motivos para se sentir mal. Não se sinta pior se você sabe que é melhor, não tente encontrar explicações sem sentido. Talvez você simplesmente não seja.
O meu coração é inconstante. Pela primeira vez na vida, consigo dizer isso sem chorar. Às vezes eu rio por dentro e penso na Brod de Tudo de ilumina escrevendo no diário Eu não estou apaixonada. Eu já disse isso antes, e me orgulho de que essa seja a melhor coisa do mundo, Eu não estou apaixonada.
Daí lembro do Nemo quando finalmente é encontrado, ele chega perto do pai e diz Eu não te odeio. Eu não te odeio e Eu não estou apaixonada são as frases que mais vêm na minha cabeça quando não estou pensando em nada e tenho algum sentimento muito forte preso na minha garganta, junto com You're tacky and I hate you do menininho Escola de rock e She died of anorexia, da maluca de Meu amor de verão.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Venha para mim de novo
Na noite fria fria.
(saudades da Meg, sono, saudades da Meg, vontade de não dormir)
Odeio computador, não leva a lugar nenhum, vai ser chato acordar amanhã no frio já que eu não tenho mais motivo para acordar cedo.
Férias
sisos
Argan, T. J. Clark, design no Brasil
amigas
baladas
esporte?
Na noite fria fria.
(saudades da Meg, sono, saudades da Meg, vontade de não dormir)
Odeio computador, não leva a lugar nenhum, vai ser chato acordar amanhã no frio já que eu não tenho mais motivo para acordar cedo.
Férias
sisos
Argan, T. J. Clark, design no Brasil
amigas
baladas
esporte?
domingo, 28 de junho de 2009
O único consolo é que os meus momentos ruins se transformam em palavras (You take your ordinary life and make gossip of it; I take mine and turn it into literature).
Todas as coisas que eu quis fazer mas não consegui, tudo o que eu imaginei e por qualquer motivo não deu certo (porque nenhuma situação acontece exatamente da maneira como tinha sido imaginada).
Elas sopravam asteriscos para dentro da boca uma da outra. Eu derretia contra a parede oposta (os joelhos dobrados, as costas retas e os ombros caídos), ela olhava para mim a cada dois ou três suspiros, eu abria os olhos quando conseguia - por que ela continuava me olhando?
Ela não me queria, eu não podia mais continuar olhando, eu preferia que ela me odiasse. Eu me contorcia, na ponta dos pés, jogava o pescoço para trás. Seria melhor que ela dissesse Nem fodendo, que pedisse para eu ir embora antes que fosse tarde demais. Que ela gritasse comigo do que ter que agir como a pessoa mais chata do mundo, ela nem era a pessoa mais legal do mundo.
Todas as coisas que eu quis fazer mas não consegui, tudo o que eu imaginei e por qualquer motivo não deu certo (porque nenhuma situação acontece exatamente da maneira como tinha sido imaginada).
Elas sopravam asteriscos para dentro da boca uma da outra. Eu derretia contra a parede oposta (os joelhos dobrados, as costas retas e os ombros caídos), ela olhava para mim a cada dois ou três suspiros, eu abria os olhos quando conseguia - por que ela continuava me olhando?
Ela não me queria, eu não podia mais continuar olhando, eu preferia que ela me odiasse. Eu me contorcia, na ponta dos pés, jogava o pescoço para trás. Seria melhor que ela dissesse Nem fodendo, que pedisse para eu ir embora antes que fosse tarde demais. Que ela gritasse comigo do que ter que agir como a pessoa mais chata do mundo, ela nem era a pessoa mais legal do mundo.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
A Denise me irrita por querer almoçar cedo demais; depois eu fico passando fome durante todo o resto do dia, o que é naturalmente um problema para ela, e não para mim. Primeiro porque eu amo ter fome depois de comer (ainda mais especial se for logo depois). Segundo porque, mesmo que no começo a fome possa me deixar com raiva, depois de algumas horas ela obviamente se torna a minha raison d'être.
Depois de muitas horas sem comer, a perspectiva de vir a comer outra vez na vida se torna repulsiva. Se eu posso sobreviver bem sem comida, então por quê? É claro que isso já foi mais forte, muito mais forte, eu colecionava horas sem colocar nem uma gota de água dentro da boca, quanto mais horas melhor, quanto menos peso, menos corpo, mais pele sobrando.
Quanto mais os meus ossos dóem, mais feliz eu me sinto. Eu sei que é errado, mas é assim que eu me sinto, e eu não mentiria sobre isso - não para mim mesma.
Odeio agir de má fé (do jeito Sartre), então não escondo as coisas de mim, nem quando isso for dolorido demais. Nunca.
Mas eu vim aqui para escrever coisas mundanas - cansei dos meus pensamentos blasé dos últimos tempos. Eu vim aqui reclamar da Denise e acabei vomitando um monte de palavras que poderiam, todas elas, estar dentro de um único par de parênteses.
Vim aqui para falar de mim, e não de mim no sentido 'o que eu sinto', nem 'o que eu penso', mas no sentido 'o que eu fiz'.
Ontem trabalho finalmente terminado. O papelão é ingrato, o lame é ingrato. E eu até hoje não sei o que significa 'lame'. Eu sei lá se é uma sigla, uma abreviação...
Daí eu fui no Fifties e pedi um sorvete cabuloso (que mania horrível de chamar tudo de 'cabuloso'), e isso é como uma ponta do ciclo que eu mencionei no começo do post. Apesar de tudo, eu tenho que me centrar, respirar fundo e dizer para mim mesma: Não vai acontecer de novo. Eu não vou deixar acontecer.
Outro dia, enquanto eu assistia a uma mesa redonda (Rico Lins no Tomie Othake), ela veio para mim outra vez. Eu tinha comido um hamburger naquela noite, e ela começou a falar comigo. Pude reconhecer a sua voz, que é muito parecida com a minha mas mantém sempre a mesma entonação, sempre se utilizando com enorme propriedade da função fática. Ela é incisiva e começa a falar quando bem entende. Não adianta tentar não escutar, ela fala as mesmas coisas até que você preste atenção.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas e, se eu estivesse sozinha, provavelmente teria apertado a minha cabeça com as duas mãos e gritado até que ela parasse, mesmo sabendo que ela não iria parar. Ela faz perguntas como 'O que você quer de mim?', 'Aonde você quer chegar?', perguntas que eu é que deveria fazer a ela. Eu já fui dela, eu sei, eu já fiz muito do que ela me mandou fazer, já deixei de gostar das pessoas que são importantes para mim por ela. Levei ela ao extremo de toda a minha razão: nada mais no mundo fazia sentido.
E então eu estou, de novo, falando do mesmo assunto. Eu poderia ser um gravador no modo repeat?
Amanhã acabam as aulas e eu não sei como vai ser. Tantas coisas para fazer, tanto tempo, e ao mesmo tempo nenhum tempo nem nada, nem nada para fazer, nem nada com o que me preocupar - e tudo com o que me preocupar.
Não sei mais o que eu quero (se é que eu algum dia já soube), mas essa inércia de ter trabalhos para entregar e textos para ler e conceitos para entender não me deixava parar para pensar. Agora eu vou ter tempo - A mente vazia é oficina do demônio (São Paulo?) -, e vou ficar muito mais em casa, e muito mais longe do convívio social.
A situação ideal para ela; sim, eu voltei ao mesmo assunto pela terceira vez.
Depois de muitas horas sem comer, a perspectiva de vir a comer outra vez na vida se torna repulsiva. Se eu posso sobreviver bem sem comida, então por quê? É claro que isso já foi mais forte, muito mais forte, eu colecionava horas sem colocar nem uma gota de água dentro da boca, quanto mais horas melhor, quanto menos peso, menos corpo, mais pele sobrando.
Quanto mais os meus ossos dóem, mais feliz eu me sinto. Eu sei que é errado, mas é assim que eu me sinto, e eu não mentiria sobre isso - não para mim mesma.
Odeio agir de má fé (do jeito Sartre), então não escondo as coisas de mim, nem quando isso for dolorido demais. Nunca.
Mas eu vim aqui para escrever coisas mundanas - cansei dos meus pensamentos blasé dos últimos tempos. Eu vim aqui reclamar da Denise e acabei vomitando um monte de palavras que poderiam, todas elas, estar dentro de um único par de parênteses.
Vim aqui para falar de mim, e não de mim no sentido 'o que eu sinto', nem 'o que eu penso', mas no sentido 'o que eu fiz'.
Ontem trabalho finalmente terminado. O papelão é ingrato, o lame é ingrato. E eu até hoje não sei o que significa 'lame'. Eu sei lá se é uma sigla, uma abreviação...
Daí eu fui no Fifties e pedi um sorvete cabuloso (que mania horrível de chamar tudo de 'cabuloso'), e isso é como uma ponta do ciclo que eu mencionei no começo do post. Apesar de tudo, eu tenho que me centrar, respirar fundo e dizer para mim mesma: Não vai acontecer de novo. Eu não vou deixar acontecer.
Outro dia, enquanto eu assistia a uma mesa redonda (Rico Lins no Tomie Othake), ela veio para mim outra vez. Eu tinha comido um hamburger naquela noite, e ela começou a falar comigo. Pude reconhecer a sua voz, que é muito parecida com a minha mas mantém sempre a mesma entonação, sempre se utilizando com enorme propriedade da função fática. Ela é incisiva e começa a falar quando bem entende. Não adianta tentar não escutar, ela fala as mesmas coisas até que você preste atenção.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas e, se eu estivesse sozinha, provavelmente teria apertado a minha cabeça com as duas mãos e gritado até que ela parasse, mesmo sabendo que ela não iria parar. Ela faz perguntas como 'O que você quer de mim?', 'Aonde você quer chegar?', perguntas que eu é que deveria fazer a ela. Eu já fui dela, eu sei, eu já fiz muito do que ela me mandou fazer, já deixei de gostar das pessoas que são importantes para mim por ela. Levei ela ao extremo de toda a minha razão: nada mais no mundo fazia sentido.
E então eu estou, de novo, falando do mesmo assunto. Eu poderia ser um gravador no modo repeat?
Amanhã acabam as aulas e eu não sei como vai ser. Tantas coisas para fazer, tanto tempo, e ao mesmo tempo nenhum tempo nem nada, nem nada para fazer, nem nada com o que me preocupar - e tudo com o que me preocupar.
Não sei mais o que eu quero (se é que eu algum dia já soube), mas essa inércia de ter trabalhos para entregar e textos para ler e conceitos para entender não me deixava parar para pensar. Agora eu vou ter tempo - A mente vazia é oficina do demônio (São Paulo?) -, e vou ficar muito mais em casa, e muito mais longe do convívio social.
A situação ideal para ela; sim, eu voltei ao mesmo assunto pela terceira vez.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Acho estranho como algumas músicas (ou alguns álbuns, ou até algumas bandas) acabam ficando associadas a períodos, sensações ou objetos extremamente marcados. Percebi a verdadeira relevância disso enquanto eu e a Paula ouvíamos Kinks no sábado.
Músicas como Drivin', Victoria ou Yes sir funcionam como retratos tristes de 2004 - para nós duas.
Em 2005, Get Behind Me Satan foi a trilha sonora da minha semana de provas. Ele tinha acabado de ser lançado, e eu o escutava pelo menos duas vezes por dia. Ajudou a me livrar de recuperações mesmo tendo estragado todas as minhas tentativas de estudo.
As férias de 2005 para 2006 foram invadidas pelos Strokes com seu First Impressions of Earth. Hoje não está mais na minha cabeça, mas foi importante no segundo ano, quando eu e a Hannah fazíamos analogias descomplicadas de Heart in a cage com o Romantismo que aprendíamos com a Antonietta: See, I'm stuck in a city but I belong to a field.
Em 2006, os Raconteurs lançaram o seu primeiro álbum. O vício durou alguns meses, sendo depois substituído por De Stijl, dos White Stripes, não sei bem por que. Antes disso, The best little secrets are kept, do Louis XIV, marcou o momento em que eu percebi que queria puxar meninas pelo cabelo e arrancar as suas roupas com os dentes.
Mais no começo de 2006, o Supergrass conseguiu roubar horas da minha vida; seus dois primeiros álbuns me lembram o carro da minha irmã - assim como o Transfiguration Of Vincent do M. Ward, que eu também associo a uma regata branca da Zara (que ainda existe mas está velha demais) e às minhas idas freqüentes e doloridas ao dentista, por causa do aparelho.
O começo de 2007 foram b sides do Franz Ferdinand: Better in Hoboken (versão meio acústica de Jacqueline), Don't start, Words so Leisured (Darts of pleasure calminha com o Alex Kapranos cantando drogadíssimo), Bang bang (All for you, all for you, all for you, Sophie...) e principalmente Love and destroy, esta última muito associada à fase degradante que eu estava vivendo. Icky thump, White Stripes, foi o álbum da minha melhora - física, e não psicológica.
Gallowbird's bark, dos Fiery Furnaces, é do período entre o fim da segunda fase da Unicamp e a divulgação do resultado da Fuvest. Tonight, do Franz Ferdinand, é o mesmo que não ter passado na Fuvest.
Detroit Cobras são amores frustrados de 2006 e 2007; Beatles (Help, Please please me, Revolver - cheguei a escrever um roteiro sobre Revolver) é a minha experiência negativa em 2005.
Consolers Of The Lonely, The Raconteurs, é voltar dos Estados Unidos e perceber que tudo ainda poderia dar certo; Widow City, The Fiery Furnaces, é perceber que nada poderia dar certo (e sair escrevendo SHE MEANS NOTHING TO ME NOW pela casa).
Supergrass, Louis XIV e Fiery Furnaces (com Bitter Tea) são o Peter, meu primeiro iPod. White denim é verão 2008/2009.
Road to Rouen, Supergrass, é o meu peso ideal: embora o mais estável de todos os meus pesos, foi a última gota de um copo que começou a transbordar e parecia que nunca poderia voltar a se esvaziar. Walk a mile, Holly Golightly, é o meu Converse Weapon amarelo e azul, que eu ganhei quando fiz 16 anos. Junto com o Louis XIV, a Holly (e a sua bonitinha She said) ajudou a construir a minha personalidade (And she meant: you're all I see. You complete me. Yes you complete me. It's you I'm for).
Músicas como Drivin', Victoria ou Yes sir funcionam como retratos tristes de 2004 - para nós duas.
Em 2005, Get Behind Me Satan foi a trilha sonora da minha semana de provas. Ele tinha acabado de ser lançado, e eu o escutava pelo menos duas vezes por dia. Ajudou a me livrar de recuperações mesmo tendo estragado todas as minhas tentativas de estudo.
As férias de 2005 para 2006 foram invadidas pelos Strokes com seu First Impressions of Earth. Hoje não está mais na minha cabeça, mas foi importante no segundo ano, quando eu e a Hannah fazíamos analogias descomplicadas de Heart in a cage com o Romantismo que aprendíamos com a Antonietta: See, I'm stuck in a city but I belong to a field.
Em 2006, os Raconteurs lançaram o seu primeiro álbum. O vício durou alguns meses, sendo depois substituído por De Stijl, dos White Stripes, não sei bem por que. Antes disso, The best little secrets are kept, do Louis XIV, marcou o momento em que eu percebi que queria puxar meninas pelo cabelo e arrancar as suas roupas com os dentes.
Mais no começo de 2006, o Supergrass conseguiu roubar horas da minha vida; seus dois primeiros álbuns me lembram o carro da minha irmã - assim como o Transfiguration Of Vincent do M. Ward, que eu também associo a uma regata branca da Zara (que ainda existe mas está velha demais) e às minhas idas freqüentes e doloridas ao dentista, por causa do aparelho.
O começo de 2007 foram b sides do Franz Ferdinand: Better in Hoboken (versão meio acústica de Jacqueline), Don't start, Words so Leisured (Darts of pleasure calminha com o Alex Kapranos cantando drogadíssimo), Bang bang (All for you, all for you, all for you, Sophie...) e principalmente Love and destroy, esta última muito associada à fase degradante que eu estava vivendo. Icky thump, White Stripes, foi o álbum da minha melhora - física, e não psicológica.
Gallowbird's bark, dos Fiery Furnaces, é do período entre o fim da segunda fase da Unicamp e a divulgação do resultado da Fuvest. Tonight, do Franz Ferdinand, é o mesmo que não ter passado na Fuvest.
Detroit Cobras são amores frustrados de 2006 e 2007; Beatles (Help, Please please me, Revolver - cheguei a escrever um roteiro sobre Revolver) é a minha experiência negativa em 2005.
Consolers Of The Lonely, The Raconteurs, é voltar dos Estados Unidos e perceber que tudo ainda poderia dar certo; Widow City, The Fiery Furnaces, é perceber que nada poderia dar certo (e sair escrevendo SHE MEANS NOTHING TO ME NOW pela casa).
Supergrass, Louis XIV e Fiery Furnaces (com Bitter Tea) são o Peter, meu primeiro iPod. White denim é verão 2008/2009.
Road to Rouen, Supergrass, é o meu peso ideal: embora o mais estável de todos os meus pesos, foi a última gota de um copo que começou a transbordar e parecia que nunca poderia voltar a se esvaziar. Walk a mile, Holly Golightly, é o meu Converse Weapon amarelo e azul, que eu ganhei quando fiz 16 anos. Junto com o Louis XIV, a Holly (e a sua bonitinha She said) ajudou a construir a minha personalidade (And she meant: you're all I see. You complete me. Yes you complete me. It's you I'm for).
domingo, 7 de junho de 2009
Descobri que eu não tenho com quem conversar. Parte disso é culpa de não ter amigas por perto todos os dias (o que não acontecia na escola ou no cursinho). Então, quando eu finalmente encontro alguma delas - em geral em finais de semana - as assuntos acumulados já são tantos que acabam virando nenhum. Conversamos sobre qualquer coisa que diga respeito a nada (o tempo, a rotina, problemas pequenos e passageiros ou que nem existem); nunca consigo deixar que as minhas angústias se tornem palavras, nem que elas saiam do meu corpo de qualquer outra maneira.
Ao invés disso, elas se fincam cada vez mais para dentro da minha consciência. Não as deixar sair é o mesmo que me acostumar com elas, elas me habitam e, no fundo, fazem parte de mim. São a minha personalidade, embora eu tente ao máximo não parecer uma pessoa angustiada.
Acho que um ponto crucial seria ter alguém para quem dar satisfação. Não necessariamente alguém que se preocupasse comigo, mas também não alguém que não me conhecesse bem o suficiente. Alguém que minimamente se importasse, e estivesse sempre disposto a ouvir e discutir qualquer coisa. Não uma pessoa que me cobrasse, nem que achasse estranho se eu ligasse para ela e não falasse nada ou se ficássemos nos encarando por horas sem dizer nada.
Eu poderia falar ou poderia não falar. Seria uma opção. Poderia não querer falar por semanas, e de repente, quando eu precisasse, ela apareceria para mim de novo. A nossa relação não seria mútua: eu claramente me aproveitaria dela. Mas ela não trataria isso como um problema.
No fim, as pessoas se aproveitam umas das outras, e as pessoas sensatas não tratam isso como um problema. É mais comum do que eu imaginava.
Ao invés disso, elas se fincam cada vez mais para dentro da minha consciência. Não as deixar sair é o mesmo que me acostumar com elas, elas me habitam e, no fundo, fazem parte de mim. São a minha personalidade, embora eu tente ao máximo não parecer uma pessoa angustiada.
Acho que um ponto crucial seria ter alguém para quem dar satisfação. Não necessariamente alguém que se preocupasse comigo, mas também não alguém que não me conhecesse bem o suficiente. Alguém que minimamente se importasse, e estivesse sempre disposto a ouvir e discutir qualquer coisa. Não uma pessoa que me cobrasse, nem que achasse estranho se eu ligasse para ela e não falasse nada ou se ficássemos nos encarando por horas sem dizer nada.
Eu poderia falar ou poderia não falar. Seria uma opção. Poderia não querer falar por semanas, e de repente, quando eu precisasse, ela apareceria para mim de novo. A nossa relação não seria mútua: eu claramente me aproveitaria dela. Mas ela não trataria isso como um problema.
No fim, as pessoas se aproveitam umas das outras, e as pessoas sensatas não tratam isso como um problema. É mais comum do que eu imaginava.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Fiz uma lista mental e descobri que eu já me apaixonei por seis pessoas. Duas eram meninos. A lista começa a contar quando eu tinha doze anos. Apesar do número exato (hoje estamos seis anos e seis pessoas depois), estive apaixonada pela primeira pessoa por alguns meses; pela segunda, por mais de dois anos; a terceira paixão começou quando eu tinha catorze anos e, de certa forma, dura até hoje; a quarta veio logo em seguida e durou um pouco mais de um ano; a quinta durou pelo menos um ano mas também nunca foi totalmente superada; a sexta foi a mais concreta, mas talvez tenha durado menos do que a primeira.
De todas essas pessoas, fiquei com duas. Uma eu nunca conheci pessoalmente. Duas eu mal conhecia. Duas eram amigas, ou se diziam ser amigas, mas hoje em dia não passam de conhecidos. Três tomaram conhecimento de que eu gostava delas; uma, se não percebeu, é idiota. Duas nunca suspeitaram - nem nunca vão suspeitar - de nada.
Tenho trabalhado o meu cérebro para nunca mais se apaixonar por pessoas absurdas. Absurdas são pessoas que eu não conheço, que eu mal conheço ou que não têm nada a ver comigo mas que eu acho que têm por causa de alguma característica marcante (de acordo com uma visão pessoal, e não geral, é claro).
Sempre fui uma pessoa fechada e indisposta a ver coisas positivas nos outros, por isso pode parecer besteira me esforçar para tentar gostar menos ainda de alguém. Muito disso vem de tentar evitar situações de sofrimento, constantes na minha vida nos últimos anos.
Nunca mantive um relacionamento. Nunca gostei de ficar com alguém. Só beijei duas pessoas enquanto estava sóbria. Ninguém nunca se apaixonou por mim.
Não acho que eu mereça um relacionamento. Não acho que eu, um dia, vá gostar de ficar com alguém, porque eu sei que nunca vou conseguir as pessoas que eu quero. Não vou ficar com alguém só porque a minha primeira opção não está nem aí para a minha existência - prefiro permanecer sozinha para sempre, o que não deixa de ser uma escolha, mesmo que opressora.
Mas, como a grande maioria das outras pessoas, eu gostaria de conseguir fazer concessões. De me apaixonar por pessoas que pudessem oferecer vantagens, mesmo que a médio prazo. Eu gostaria de pensar no amor como uma coisa normal ou até banal.
Odeio a idéia de colocar as pessoas em um pedestal e de me sentir na obrigação de admirá-las muito mais do que elas merecem. Ao mesmo tempo, não acho que seja justo pensar no amor como algo que poderia acontecer a qualquer instante, bastasse um estímulo qualquer.
Não acho que existam muitas pessoas no mundo capazes de sentir amor. É um sentimento nobre, afinal. Escrevi uma vez alguma coisa sobre a inexistência do amor recíproco - achei um papel amassado no meio de muitos outros -, e ainda acredito nisso. Seria ótimo se fosse verdade, mas a maioria dos relacionamentos já está tão desgastada no instante em que começa a acontecer que nem valeria a pena ser tentada.
Se existisse alguém com sentimentos ou intenções amorosas parecidas com as minhas, provavelmente seria um ultra-romântico. E provavelmente seríamos tão irritantes um com o outro que não agüentaríamos ficar juntos por muito tempo, e teríamos, previsivelmente, finais como suicídio ou manicômio.
Em Milk, o Harvey Milk diz que teve quatro relacionamentos em toda a sua vida. Fiquei pensando que quatro é um número bom, eu morreria feliz se tivesse passado por quatro relacionamentos durante a vida. Dois entre 20 e 30 anos, um entre 30 e 40 e outro entre 40 e 50 (não sei se teria capacidade para morrer muito depois disso), parece ideal. Mas duvido que eles seriam ininterruptos (um seguido do outro), acho que cada um não duraria mais de dois anos, na verdade, e isso talvez não seja de todo mal, pensando na proporção de anos em que eu estaria e em que eu não estaria namorando.
No mais, eu não me sinto apaixonada. Tenho conseguido evitar que isso aconteça com louvor, eu realmente deveria me sentir orgulhosa. Ao invés disso, me sinto feia, estranha e extremamente desinteressante. Sinto que eu afasto as pessoas; não consigo trazer ninguém para perto de mim. Além disso, acho horrível a idéia de alguém interessado em mim, isso me torna inversamente interessada. Tenho medo de que os outros também se sintam assim, então, quando me interesso por alguém, procuro não demonstrar (embora nem sempre obtenha sucesso); às vezes até acho que demosntro odiar as pessoas por quem estou interessada, não me aproximo delas nem dou bom dia, encaro-as com olhos apertados de raiva.
Por isso eu acho que a minha abordagem afetiva é péssima. Como eu posso dar a entender que estou interessada em alguém? Bom, talvez seja até melhor não dar a entender, porque assim não corro o risco de cair de um precipício quando souber que a pessoa por quem eu estou apaixonada não dá a mínima para mim, ou que até me acha ridícula.
Tenho medo do que as pessoas pensam de mim, queria saber a opinião de cada um sobre cada uma das minhas características - físicas, psicológicas, comportamentais. Poderia ser por meio de um questionário, não importa, as pessoas marcariam o que elas acham de pior em mim, dariam notas em escala de 1 a 5 sobre todos os meus aspectos. Dependendo do resultado, eu poderia tentar mudar. Perceberia o que os outros desejam de mim, como em uma pesquisa de mercado, e, se os resultados fossem muito estranhos, eu é que teria que mudar de público-alvo.
O público-alvo, aliás, é uma questão central. Porque quando se é heterossexual, a abordagem afetiva é muito mais simples. Em um ambiente noturno, então, a aproximação significa quase o mesmo do que carregar plaquinhas no pescoço com os dizeres VAMO AÍ?. Fora o fato de os heterrossexuais dominarem o mundo, ou seja, é muito mais provável (acho que provável chega a ser até uma palavra fraca) que um homossexual se apaixone por um heterossexual do que o contrário.
Talvez eu esteja andando com as pessoas erradas, talvez fosse melhor para mim encontrar as pessoas certas, melhor para a minha busca pelos meus quatro relacionamentos da vida. Mas onde elas estão? Quem são as pessoas certas? Nem sei se elas existem. E estou feliz com as minhas amigas, mesmo sabendo que não se trata de uma situação de exclusão.
De todas essas pessoas, fiquei com duas. Uma eu nunca conheci pessoalmente. Duas eu mal conhecia. Duas eram amigas, ou se diziam ser amigas, mas hoje em dia não passam de conhecidos. Três tomaram conhecimento de que eu gostava delas; uma, se não percebeu, é idiota. Duas nunca suspeitaram - nem nunca vão suspeitar - de nada.
Tenho trabalhado o meu cérebro para nunca mais se apaixonar por pessoas absurdas. Absurdas são pessoas que eu não conheço, que eu mal conheço ou que não têm nada a ver comigo mas que eu acho que têm por causa de alguma característica marcante (de acordo com uma visão pessoal, e não geral, é claro).
Sempre fui uma pessoa fechada e indisposta a ver coisas positivas nos outros, por isso pode parecer besteira me esforçar para tentar gostar menos ainda de alguém. Muito disso vem de tentar evitar situações de sofrimento, constantes na minha vida nos últimos anos.
Nunca mantive um relacionamento. Nunca gostei de ficar com alguém. Só beijei duas pessoas enquanto estava sóbria. Ninguém nunca se apaixonou por mim.
Não acho que eu mereça um relacionamento. Não acho que eu, um dia, vá gostar de ficar com alguém, porque eu sei que nunca vou conseguir as pessoas que eu quero. Não vou ficar com alguém só porque a minha primeira opção não está nem aí para a minha existência - prefiro permanecer sozinha para sempre, o que não deixa de ser uma escolha, mesmo que opressora.
Mas, como a grande maioria das outras pessoas, eu gostaria de conseguir fazer concessões. De me apaixonar por pessoas que pudessem oferecer vantagens, mesmo que a médio prazo. Eu gostaria de pensar no amor como uma coisa normal ou até banal.
Odeio a idéia de colocar as pessoas em um pedestal e de me sentir na obrigação de admirá-las muito mais do que elas merecem. Ao mesmo tempo, não acho que seja justo pensar no amor como algo que poderia acontecer a qualquer instante, bastasse um estímulo qualquer.
Não acho que existam muitas pessoas no mundo capazes de sentir amor. É um sentimento nobre, afinal. Escrevi uma vez alguma coisa sobre a inexistência do amor recíproco - achei um papel amassado no meio de muitos outros -, e ainda acredito nisso. Seria ótimo se fosse verdade, mas a maioria dos relacionamentos já está tão desgastada no instante em que começa a acontecer que nem valeria a pena ser tentada.
Se existisse alguém com sentimentos ou intenções amorosas parecidas com as minhas, provavelmente seria um ultra-romântico. E provavelmente seríamos tão irritantes um com o outro que não agüentaríamos ficar juntos por muito tempo, e teríamos, previsivelmente, finais como suicídio ou manicômio.
Em Milk, o Harvey Milk diz que teve quatro relacionamentos em toda a sua vida. Fiquei pensando que quatro é um número bom, eu morreria feliz se tivesse passado por quatro relacionamentos durante a vida. Dois entre 20 e 30 anos, um entre 30 e 40 e outro entre 40 e 50 (não sei se teria capacidade para morrer muito depois disso), parece ideal. Mas duvido que eles seriam ininterruptos (um seguido do outro), acho que cada um não duraria mais de dois anos, na verdade, e isso talvez não seja de todo mal, pensando na proporção de anos em que eu estaria e em que eu não estaria namorando.
No mais, eu não me sinto apaixonada. Tenho conseguido evitar que isso aconteça com louvor, eu realmente deveria me sentir orgulhosa. Ao invés disso, me sinto feia, estranha e extremamente desinteressante. Sinto que eu afasto as pessoas; não consigo trazer ninguém para perto de mim. Além disso, acho horrível a idéia de alguém interessado em mim, isso me torna inversamente interessada. Tenho medo de que os outros também se sintam assim, então, quando me interesso por alguém, procuro não demonstrar (embora nem sempre obtenha sucesso); às vezes até acho que demosntro odiar as pessoas por quem estou interessada, não me aproximo delas nem dou bom dia, encaro-as com olhos apertados de raiva.
Por isso eu acho que a minha abordagem afetiva é péssima. Como eu posso dar a entender que estou interessada em alguém? Bom, talvez seja até melhor não dar a entender, porque assim não corro o risco de cair de um precipício quando souber que a pessoa por quem eu estou apaixonada não dá a mínima para mim, ou que até me acha ridícula.
Tenho medo do que as pessoas pensam de mim, queria saber a opinião de cada um sobre cada uma das minhas características - físicas, psicológicas, comportamentais. Poderia ser por meio de um questionário, não importa, as pessoas marcariam o que elas acham de pior em mim, dariam notas em escala de 1 a 5 sobre todos os meus aspectos. Dependendo do resultado, eu poderia tentar mudar. Perceberia o que os outros desejam de mim, como em uma pesquisa de mercado, e, se os resultados fossem muito estranhos, eu é que teria que mudar de público-alvo.
O público-alvo, aliás, é uma questão central. Porque quando se é heterossexual, a abordagem afetiva é muito mais simples. Em um ambiente noturno, então, a aproximação significa quase o mesmo do que carregar plaquinhas no pescoço com os dizeres VAMO AÍ?. Fora o fato de os heterrossexuais dominarem o mundo, ou seja, é muito mais provável (acho que provável chega a ser até uma palavra fraca) que um homossexual se apaixone por um heterossexual do que o contrário.
Talvez eu esteja andando com as pessoas erradas, talvez fosse melhor para mim encontrar as pessoas certas, melhor para a minha busca pelos meus quatro relacionamentos da vida. Mas onde elas estão? Quem são as pessoas certas? Nem sei se elas existem. E estou feliz com as minhas amigas, mesmo sabendo que não se trata de uma situação de exclusão.
domingo, 10 de maio de 2009
Quase sempre que eu tenho que mexer em uma tomada, parece que aqueles serão os meus últimos momentos de vida. Respiro fundo com o equipamento eletrônico que estiver na minha mão e idealizo como seria o resto da minha vida precipitadamente não vivida. Eu com 20 anos. Eu com 30, eu com 40 (em geral a minha imaginação não costuma me levar muito além dos 40). Quem ainda estaria na minha vida?
Eu nunca teria constituído uma família - isso é tão óbvio que nem tem graça imaginar o contrário -, passaria anos buscando um sucesso profissional que nunca teria chegado ao seu ápice. Como sempre, estaria insatisfeita com a minha vida. Sentaria em uma mesa de madeira escura e amassaria folhas de papel durante a madrugada, sozinha, destruindo idéias que não teriam dado certo.
Provavelmente eu não teria mais amigos, e por isso rasgaria os meus pensamentos sem hesitar. A cena traria alguma bebida destilada e o piso de madeira gelado.
Mais ou menos nessa hora eu costumo me dar conta de que não, não morri; não só estou viva como até consegui colocar o celular para carregar sem criar nenhum problema maior que o meu susto especulativo.
Por falar em medos, a minha paranóia de deixar pedaços de mim nos lugares tem aumentado de um jeito vertiginoso. Quando percebo que um fio de cabelo meu caiu, coloco-o rápido dentro da bolsa. Em lugares que não sejam a minha casa, uma lasquinha de dna qualquer pode ser uma grande pista.
Não que eu esteja planejando cometer um crime, nem que eu ache que cientistas andem atrás de mim por algum motivo específico. Eu só não me sinto bem estando espalhada por todos os lugares que freqüento. Não sei bem por que; na verdade, acho que seria até legal se eu pudesse ficar guardada nos lugares que mais me agradam - mas o medo de que alguma coisa (o quê?) possa acontecer se descobrirem onde eu estava em um dia qualquer é maior, mesmo se forem lugares extremamente previsíveis e inevitáveis, que nem sequer serviriam como pistas.
Acho que muita gente pensa o contrário. Afinal, não é esse o princípio que leva a espalhar as cinzas do avô morto por todos os lugares com os quais ele pode ser identificado? Não identificações boas ou ruins, apenas relações que podem ser construídas entre ele e os lugares em que esteve.
Talvez o pior problema seja a mistura aflitiva de dnas. Cada um deles prova que alguém esteve naquele lugar (não importa quem, e sim quantos). As marcas - mesmo que microscópicas - ficam registradas, talvez para sempre. Esse é um jeito de construir memórias, não a memória das pessoas, mas a memória dos objetos. Quando eu era pequena não entendia como as coisas ficavam gastas. Na verdade entendia, mas preferia pensar que isso não tinha a menor lógica.
Por que as faixas de pedestres vão perdendo a tinta? Eu visualizava a primeira pessoa atravessando a rua, assim que a tinta tinha sido passada, e não havia nenhuma mudança evidente de que alguém tivesse pisado ali. A segunda pessoa e, de novo, nenhuma modificação aparente. Outras dez pessoas, outras cem, milhares, milhões. Quantas pessoas são necessárias para gastar uma faixa de pedestres? Quantos dnas diferentes? Você está em todas aquelas esquinas, e a tinta da faixa de pedestres, onde foi parar?
Eu nunca teria constituído uma família - isso é tão óbvio que nem tem graça imaginar o contrário -, passaria anos buscando um sucesso profissional que nunca teria chegado ao seu ápice. Como sempre, estaria insatisfeita com a minha vida. Sentaria em uma mesa de madeira escura e amassaria folhas de papel durante a madrugada, sozinha, destruindo idéias que não teriam dado certo.
Provavelmente eu não teria mais amigos, e por isso rasgaria os meus pensamentos sem hesitar. A cena traria alguma bebida destilada e o piso de madeira gelado.
Mais ou menos nessa hora eu costumo me dar conta de que não, não morri; não só estou viva como até consegui colocar o celular para carregar sem criar nenhum problema maior que o meu susto especulativo.
Por falar em medos, a minha paranóia de deixar pedaços de mim nos lugares tem aumentado de um jeito vertiginoso. Quando percebo que um fio de cabelo meu caiu, coloco-o rápido dentro da bolsa. Em lugares que não sejam a minha casa, uma lasquinha de dna qualquer pode ser uma grande pista.
Não que eu esteja planejando cometer um crime, nem que eu ache que cientistas andem atrás de mim por algum motivo específico. Eu só não me sinto bem estando espalhada por todos os lugares que freqüento. Não sei bem por que; na verdade, acho que seria até legal se eu pudesse ficar guardada nos lugares que mais me agradam - mas o medo de que alguma coisa (o quê?) possa acontecer se descobrirem onde eu estava em um dia qualquer é maior, mesmo se forem lugares extremamente previsíveis e inevitáveis, que nem sequer serviriam como pistas.
Acho que muita gente pensa o contrário. Afinal, não é esse o princípio que leva a espalhar as cinzas do avô morto por todos os lugares com os quais ele pode ser identificado? Não identificações boas ou ruins, apenas relações que podem ser construídas entre ele e os lugares em que esteve.
Talvez o pior problema seja a mistura aflitiva de dnas. Cada um deles prova que alguém esteve naquele lugar (não importa quem, e sim quantos). As marcas - mesmo que microscópicas - ficam registradas, talvez para sempre. Esse é um jeito de construir memórias, não a memória das pessoas, mas a memória dos objetos. Quando eu era pequena não entendia como as coisas ficavam gastas. Na verdade entendia, mas preferia pensar que isso não tinha a menor lógica.
Por que as faixas de pedestres vão perdendo a tinta? Eu visualizava a primeira pessoa atravessando a rua, assim que a tinta tinha sido passada, e não havia nenhuma mudança evidente de que alguém tivesse pisado ali. A segunda pessoa e, de novo, nenhuma modificação aparente. Outras dez pessoas, outras cem, milhares, milhões. Quantas pessoas são necessárias para gastar uma faixa de pedestres? Quantos dnas diferentes? Você está em todas aquelas esquinas, e a tinta da faixa de pedestres, onde foi parar?
sábado, 25 de abril de 2009
reportando Hannah
Um amor platônico é jogar na mega sena; um amor real é investir na bolsa. Qual a chance de ganhar na mega sena? E qual a chance de ganhar jogando na bolsa? Aí você me diz 'Joguei na mega sena duas vezes, três vezes e nunca ganhei'. Mas você já jogou na bolsa? Tem gente que passa a vida inteira jogando na mega sena e nunca ganha. Agora você vai deixar de jogar na bolsa porque nunca ganhou na mega sena? Isso não tem sentido.
Ter um amor platônico é como concorrer na mega sena com um número inventado, por exemplo, escrever em um papel o número 300 e achar que está concorrendo. Qual é a chance de ganhar? Bom, não é impossível, afinal, alguém pode enfiar uma bola com o número 300 na roleta. É só improvável.
Você deixaria de se apaixonar por uma pessoa só porque ela mora na Granja Viana? Quando você está interessado em alguém, nada é esforço. Emocionalmente. Ou, se alguém estiver interessado em você e você não for encontrar com essa pessoa na Barra Funda, ela não vai deixar de continuar interessada em você. Você pode até não querer se esforçar, mas, se a outra pessoa quiser, as coisas vão acontecer.
Ter um amor platônico é como concorrer na mega sena com um número inventado, por exemplo, escrever em um papel o número 300 e achar que está concorrendo. Qual é a chance de ganhar? Bom, não é impossível, afinal, alguém pode enfiar uma bola com o número 300 na roleta. É só improvável.
Você deixaria de se apaixonar por uma pessoa só porque ela mora na Granja Viana? Quando você está interessado em alguém, nada é esforço. Emocionalmente. Ou, se alguém estiver interessado em você e você não for encontrar com essa pessoa na Barra Funda, ela não vai deixar de continuar interessada em você. Você pode até não querer se esforçar, mas, se a outra pessoa quiser, as coisas vão acontecer.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Muitos trabalhos acumulados, a chuva e a vontade ininfinita de sair de casa.
Apesar de tudo, eu continuo apaixonada. Essa é exatamente a hora em que tomar um porre seria um presente merecido, cada segundo de tontura - da boa e da até da ruim, no dia seguinte - me fazendo uma pessoa melhor.
Chorar, talvez. Encostar em alguém, mesmo que para ser empurrada depois. Deixar de ter sonhos ruins por alguns dias (ou mesmo sonhos bons, porque eles viram problemas quando terminam).
Eu continuo apaixonada por coisas que não existem e pessoas que eu criei, sinto saudades de situações inventadas que confundem as minhas lembranças. Vejo o futuro como uma grade de horários, o que é preocupante quando se tem mais atividades do que tempo para realizá-las - alguém poderia me contar quando eu vou morrer, assim eu me programaria melhor até o meu último dia.
As sensações reais são tijolos caindo sobre cabeças; os meus pensamentos são travesseiros de pluma que nunca saem de uma cama grande com lençóis cor de creme. Minhas idéias são imagens inalcansáveis e extremamente bem elaboradas, fico pensando no que os outros sentiriam se pudessem ver com os meus olhos.
Andar com os meus pés, mastigar com os meus dentes e dormir com os meus sonhos. Se alguém sobreviveria se extivesse apaixonado por tudo o que me comove, fico pensando se alguém tivesse que ser eu, se chegaria ao final do dia.
Não porque seja ruim ser eu, mas só porque às vezes me sinto tão diferente das outras pessoas que acho que elas não se acostumariam em ser eu.
As imagens que existem dentro de mim são lindas, e eu queria poder compartilhá-las com alguém. Isso incluiria ter uma pessoa ocupando o mesmo corpo que eu por alguns instantes - o que eu estaria fazendo, então? Estaríamos assistindo juntos? Ou eu estaria em outro lugar, fora do meu corpo, morta enquanto não pudesse voltar para dentro de mim?
Minhas imagens são minhas não só porque pertencem a mim, mas porque foram criadas por mim. Eu as desenvolvi durante anos, aperfeiçoei detalhes, trabalhei nelas mais do que jamais me dediquei a qualquer outra coisa. Elas estão na minha biblioteca pessoal; são perfeitas para quando eu estou triste ou inspirada demais. E em geral acabo sempre fazendo mudanças, é como assistir a um filme em que se pudessse trocar as cenas de ordem, alterar o comportamento das personagens, os cenários e quase todo o resto.
Apesar de tudo, eu continuo apaixonada. Essa é exatamente a hora em que tomar um porre seria um presente merecido, cada segundo de tontura - da boa e da até da ruim, no dia seguinte - me fazendo uma pessoa melhor.
Chorar, talvez. Encostar em alguém, mesmo que para ser empurrada depois. Deixar de ter sonhos ruins por alguns dias (ou mesmo sonhos bons, porque eles viram problemas quando terminam).
Eu continuo apaixonada por coisas que não existem e pessoas que eu criei, sinto saudades de situações inventadas que confundem as minhas lembranças. Vejo o futuro como uma grade de horários, o que é preocupante quando se tem mais atividades do que tempo para realizá-las - alguém poderia me contar quando eu vou morrer, assim eu me programaria melhor até o meu último dia.
As sensações reais são tijolos caindo sobre cabeças; os meus pensamentos são travesseiros de pluma que nunca saem de uma cama grande com lençóis cor de creme. Minhas idéias são imagens inalcansáveis e extremamente bem elaboradas, fico pensando no que os outros sentiriam se pudessem ver com os meus olhos.
Andar com os meus pés, mastigar com os meus dentes e dormir com os meus sonhos. Se alguém sobreviveria se extivesse apaixonado por tudo o que me comove, fico pensando se alguém tivesse que ser eu, se chegaria ao final do dia.
Não porque seja ruim ser eu, mas só porque às vezes me sinto tão diferente das outras pessoas que acho que elas não se acostumariam em ser eu.
As imagens que existem dentro de mim são lindas, e eu queria poder compartilhá-las com alguém. Isso incluiria ter uma pessoa ocupando o mesmo corpo que eu por alguns instantes - o que eu estaria fazendo, então? Estaríamos assistindo juntos? Ou eu estaria em outro lugar, fora do meu corpo, morta enquanto não pudesse voltar para dentro de mim?
Minhas imagens são minhas não só porque pertencem a mim, mas porque foram criadas por mim. Eu as desenvolvi durante anos, aperfeiçoei detalhes, trabalhei nelas mais do que jamais me dediquei a qualquer outra coisa. Elas estão na minha biblioteca pessoal; são perfeitas para quando eu estou triste ou inspirada demais. E em geral acabo sempre fazendo mudanças, é como assistir a um filme em que se pudessse trocar as cenas de ordem, alterar o comportamento das personagens, os cenários e quase todo o resto.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Outro dia, no final da tarde, andando até o ponto de ônibus, reparei que todos os motoristas dos carros que vinham da Sumaré, quando faziam a curva para entrar na Henrique Schaumann, abaixavam a aba de proteção solar em direção ao pára-brisas. Fiquei achando isso engraçado enquanto esperava para atravessar a rua - por que todos eles faziam o mesmo gesto exatamente no mesmo ponto do percurso? Até que eu reparei que, bem ali, vinha um sol laranja do lado oposto (se tudo faz sentido, de noroeste), ofuscando os olhos de cada um deles: primeiro eles franziam a testa e fechavam os olhos, depois abaixavam a aba.
Achei chato quando eu descobri o motivo; seria muito mais legal que, sem nenhuma explicação, as pessoas decidissem abaixar a aba de proteção solar no mesmo lugar.
Imaginei um filme daquela situação, carro por carro, aba por aba, o sol laranja batendo nos pára-brisas, ficaria bonito. Ainda mais porque aquela parte da rua é uma subida em curva aberta, o que dá um movimento suave para os carros, que têm de vir com uma velocidade menor do que a com que andavam na Sumaré mas mais rápido do que eles precisam para percorrer o final da Henrique Schaumann - em uma palavra, desacelerando.
Podiam ser só slides da cena, ou um filme bem antigo (embora colorido) daqueles em que os movimentos saem entrecortados.
Achei chato quando eu descobri o motivo; seria muito mais legal que, sem nenhuma explicação, as pessoas decidissem abaixar a aba de proteção solar no mesmo lugar.
Imaginei um filme daquela situação, carro por carro, aba por aba, o sol laranja batendo nos pára-brisas, ficaria bonito. Ainda mais porque aquela parte da rua é uma subida em curva aberta, o que dá um movimento suave para os carros, que têm de vir com uma velocidade menor do que a com que andavam na Sumaré mas mais rápido do que eles precisam para percorrer o final da Henrique Schaumann - em uma palavra, desacelerando.
Podiam ser só slides da cena, ou um filme bem antigo (embora colorido) daqueles em que os movimentos saem entrecortados.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Chega a ser engraçado como eu acho que eu sou uma pessoa calma, centrada, objetiva, metódica, e ao mesmo tempo posso ser tão facilmente abalada. Me vejo em pé, parada, e, de repente, é como uma rajada de vento me empurasse de leve. Eu não cairia se não estivesse bem em cima de um precipício (sobre uma plataforma circular do tamanho dos meus pés, que estaria flutuando no ar).
No começo, me assusto e percebo que não vai ser possível evitar a queda - aqueles dois milésimos de segundo em que conseguimos pensar em dez milhões de coisas. Minha cabeça enquenta, talvez a minha última sensação da vida. Logo depois, quando eu já estou caindo, não acho mais a idéia tão ruim. Sinto o vento corroendo as minhas bochechas, minhas roupas congelam por causa da velocidade da queda.
Percebo que eu estou viva. Eu estou viva, caindo, mas viva. Apesar de tudo, muito melhor do que antes, no pedestal; eu não sentia nada, nem mesmo sabia que tinha um precipício debaixo de mim.
Continuo caindo, começo a achar engraçado, fico rindo até não poder mais. Às vezes a queda existe durante horas, às vezes só por alguns instantes vazios. O tempo certo é enquanto eu estiver rindo. Quando terminar de rir, o ideal é que eu comece a descair de volta para o pedestal; senão, começo a chorar e, na maioria das vezes, acabo chegando até o chão.
No começo, me assusto e percebo que não vai ser possível evitar a queda - aqueles dois milésimos de segundo em que conseguimos pensar em dez milhões de coisas. Minha cabeça enquenta, talvez a minha última sensação da vida. Logo depois, quando eu já estou caindo, não acho mais a idéia tão ruim. Sinto o vento corroendo as minhas bochechas, minhas roupas congelam por causa da velocidade da queda.
Percebo que eu estou viva. Eu estou viva, caindo, mas viva. Apesar de tudo, muito melhor do que antes, no pedestal; eu não sentia nada, nem mesmo sabia que tinha um precipício debaixo de mim.
Continuo caindo, começo a achar engraçado, fico rindo até não poder mais. Às vezes a queda existe durante horas, às vezes só por alguns instantes vazios. O tempo certo é enquanto eu estiver rindo. Quando terminar de rir, o ideal é que eu comece a descair de volta para o pedestal; senão, começo a chorar e, na maioria das vezes, acabo chegando até o chão.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Eu tinha alguma coisa para falar que não tinha nada a ver com a minha melancolia dos últimos dias, nem com a sensação horrível de protetor solar depois de ter tomado sol que tem estado constantemente impregnada no meu corpo.
Eu não queria falar que eu não agüentava mais fazer aula de autoescola e que finalmente elas terminaram hoje, também não queria dizer que a minha prova prática cai justo no dia 13.
Não teria a menor utilidade dizer que eu pretendo ler A era dos extremos durante a semana santa, nem que eu sonhei que eu tinha terminado de ler Ana Karênina, nem que eu preciso passar no xerox hoje antes da aula, nem que a usp me deu um cano e eu preciso ligar pra eles e mandar alguém arrumar o meu bilhete único (que ainda nem existe).
Eu não queria falar sobre a minha dor de cabeça, porque ninguém mais deve agüentar me ouvir falando disso, e eu também não agüento mais a dor de cabeça, então, quanto menos eu falar dela, mais longe de mim ela vai ficar.
Não queria falar nenhuma dessas coisas, e não tenho melhores para falar (a não ser aquela que eu não lembro qual é).
O que vocês estão planejando para a Páscoa? Eu queria chocolates artesanais ou chiques, amanhã vou providenciar isso com a Denise. Não queria gastar todo o dinheiro do mundo e ao mesmo tempo não queria comer chocolate com gosto de parafina - fiquei meio maníaca depois que li ontem no caderno Paladar sobre a maior degustadora de chocolate of all times (Chloe Doutre-Roussel). Chocolate é a minha comida preferida e, de acordo com a matéria, eu nunca comi um chcolate de primeira qualidade. Então entrei google atrás das melhores marcas, indicadas por ela. Alguns não são caros, acreditem, tem uma loja lindinha americana com barras de tamanho razoável por 8 dólares. Mas, em compensação, vi uma francesa que vendia 250g de chocolate por 24 euros.
Resolvi que, se é para sustentar um vício, que seja com elegância. Quando eu ganhar meu próprio dinheiro, também vou querer ser uma verdadeira apreciadora (não uma especialista, é claro, porque isso definitivamente não é o que eu quero da minha vida, e provavelmente um trabalho assim desbalancearia toda a minha alimentação). Isso exige muito dinheiro, é claro, porque aqui no Brasil a gente não encontra nada muito melhor do que Lindt (o marco zero na escala da moça).
Guardei o pedaço de jornal e fiquei sonhando com uma Páscoa de primeira qualidade. Depois lembrei dos chocolates maravilhosos que a Nina e a Maia trouxeram de Paris. Eram realmente deliciosos, preciso perguntar qual era o nome da marca, vai ver eu já comi um chocolate de excelência e nem estava sabendo.
Tudo isso acabou de me lembrar que outro dia me deu a maior vontade de fazer um bate-volta em algum país da América Latina só para passar pelo free-shop. Chocolates, seria mais um bom motivo. Fora a maquiagem e os óculos que já estavam nos meus planos. E a viagem em si também seria uma boa idéia. Uns quatro dias longe daqui seriam suficientes.
Eu não queria falar que eu não agüentava mais fazer aula de autoescola e que finalmente elas terminaram hoje, também não queria dizer que a minha prova prática cai justo no dia 13.
Não teria a menor utilidade dizer que eu pretendo ler A era dos extremos durante a semana santa, nem que eu sonhei que eu tinha terminado de ler Ana Karênina, nem que eu preciso passar no xerox hoje antes da aula, nem que a usp me deu um cano e eu preciso ligar pra eles e mandar alguém arrumar o meu bilhete único (que ainda nem existe).
Eu não queria falar sobre a minha dor de cabeça, porque ninguém mais deve agüentar me ouvir falando disso, e eu também não agüento mais a dor de cabeça, então, quanto menos eu falar dela, mais longe de mim ela vai ficar.
Não queria falar nenhuma dessas coisas, e não tenho melhores para falar (a não ser aquela que eu não lembro qual é).
O que vocês estão planejando para a Páscoa? Eu queria chocolates artesanais ou chiques, amanhã vou providenciar isso com a Denise. Não queria gastar todo o dinheiro do mundo e ao mesmo tempo não queria comer chocolate com gosto de parafina - fiquei meio maníaca depois que li ontem no caderno Paladar sobre a maior degustadora de chocolate of all times (Chloe Doutre-Roussel). Chocolate é a minha comida preferida e, de acordo com a matéria, eu nunca comi um chcolate de primeira qualidade. Então entrei google atrás das melhores marcas, indicadas por ela. Alguns não são caros, acreditem, tem uma loja lindinha americana com barras de tamanho razoável por 8 dólares. Mas, em compensação, vi uma francesa que vendia 250g de chocolate por 24 euros.
Resolvi que, se é para sustentar um vício, que seja com elegância. Quando eu ganhar meu próprio dinheiro, também vou querer ser uma verdadeira apreciadora (não uma especialista, é claro, porque isso definitivamente não é o que eu quero da minha vida, e provavelmente um trabalho assim desbalancearia toda a minha alimentação). Isso exige muito dinheiro, é claro, porque aqui no Brasil a gente não encontra nada muito melhor do que Lindt (o marco zero na escala da moça).
Guardei o pedaço de jornal e fiquei sonhando com uma Páscoa de primeira qualidade. Depois lembrei dos chocolates maravilhosos que a Nina e a Maia trouxeram de Paris. Eram realmente deliciosos, preciso perguntar qual era o nome da marca, vai ver eu já comi um chocolate de excelência e nem estava sabendo.
Tudo isso acabou de me lembrar que outro dia me deu a maior vontade de fazer um bate-volta em algum país da América Latina só para passar pelo free-shop. Chocolates, seria mais um bom motivo. Fora a maquiagem e os óculos que já estavam nos meus planos. E a viagem em si também seria uma boa idéia. Uns quatro dias longe daqui seriam suficientes.
domingo, 29 de março de 2009
Resolvi conferir o cronograma da matéria para a qual vou entregar um trabalho amanhã e descobri que, logo amanhã, vou ter que desenhar um modelo vivo. Na verdade eu já devia estar suspeitando disso, porque mandaram a gente levar um bloco de papel A2 e cinco grafites diferentes e, além disso, eu já tinha lido esse cronograma outras vezes antes - só não estava lembrando da seqüência certa das datas.
Quando eu li modelo vivo fiquei meio desesperada. Lembrei do David Sedaris contando em um conto sobre uma situação igual a essa que aconteceu com ele, assim que ele entrou na faculdade. Mas, ele, ao contrário de mim, contava os dias para que chegasse o momento de, finalmente, desenhar um homem pelado. Toda essa empolgação porque ele era gay; não sei se ele nunca tinha visto um homem pelado antes, bom, ele é um homem mas é óbvio que não é a mesma coisa. Acho que o maior problema era ter que desenhar aquilo tudo enquanto só o que ele queria era ficar olhando, talvez ele nem conseguisse parar para desenhar.
Enfim, não sei quanto ao David, mas eu não acho legal ter que desenhar uma pessoa sem roupas. Com roupas já é constrangedor, tenho sempre que fingir que eu não estou nem aí para o desenho, e dar aquela boa desviada de olhar de tempos em tempos. Além do mais, eu não sou artista, aprendi a desenhar há um semestre: não, eu não sei ser profissional, nem quero aprender a ser.
Não que eu ache tão absurdo assim uma pessoa pelada na minha frente, não sou daquele tipo que faria piadinhas ou daria risadas constrangedoras depois de sussurar no ouvido do colega ao lado. Eu só não sei desenhar, realmente, e acho que seria melhor se começássemos desenhando um boneco ou até uma casa com todos os seus pontos de fuga, uma rua, um carro, um cachorro, que tal?
E, depois, ainda tem toda a situação de o seu desenho ter ficado um lixo. Você lá, olho no olho com um modelo nu e vivo, e de repente a moça olha e percebe que os peitos dela estão muito mais assimétricos do que deveriam, ou vai ver você faz ela mais magra só pra não ficar chato, e o que acontece é que essa não era bem a proposta da atividade de observação... Imagina se você tivesse que realçar uma celulite com hachuras? E deve ter alguma coisa perdida no corpo da pessoa em que todo o mundo reparou e ela nunca tinha notado antes; pior, todo o mundo desenhou enquanto ela nem sabia que aquilo existia.
Quando eu li modelo vivo fiquei meio desesperada. Lembrei do David Sedaris contando em um conto sobre uma situação igual a essa que aconteceu com ele, assim que ele entrou na faculdade. Mas, ele, ao contrário de mim, contava os dias para que chegasse o momento de, finalmente, desenhar um homem pelado. Toda essa empolgação porque ele era gay; não sei se ele nunca tinha visto um homem pelado antes, bom, ele é um homem mas é óbvio que não é a mesma coisa. Acho que o maior problema era ter que desenhar aquilo tudo enquanto só o que ele queria era ficar olhando, talvez ele nem conseguisse parar para desenhar.
Enfim, não sei quanto ao David, mas eu não acho legal ter que desenhar uma pessoa sem roupas. Com roupas já é constrangedor, tenho sempre que fingir que eu não estou nem aí para o desenho, e dar aquela boa desviada de olhar de tempos em tempos. Além do mais, eu não sou artista, aprendi a desenhar há um semestre: não, eu não sei ser profissional, nem quero aprender a ser.
Não que eu ache tão absurdo assim uma pessoa pelada na minha frente, não sou daquele tipo que faria piadinhas ou daria risadas constrangedoras depois de sussurar no ouvido do colega ao lado. Eu só não sei desenhar, realmente, e acho que seria melhor se começássemos desenhando um boneco ou até uma casa com todos os seus pontos de fuga, uma rua, um carro, um cachorro, que tal?
E, depois, ainda tem toda a situação de o seu desenho ter ficado um lixo. Você lá, olho no olho com um modelo nu e vivo, e de repente a moça olha e percebe que os peitos dela estão muito mais assimétricos do que deveriam, ou vai ver você faz ela mais magra só pra não ficar chato, e o que acontece é que essa não era bem a proposta da atividade de observação... Imagina se você tivesse que realçar uma celulite com hachuras? E deve ter alguma coisa perdida no corpo da pessoa em que todo o mundo reparou e ela nunca tinha notado antes; pior, todo o mundo desenhou enquanto ela nem sabia que aquilo existia.
quinta-feira, 26 de março de 2009
inventos
I
Tenho pensado em como seria bom poder dormir com um olho só. Quando eu sinto sono em público, durante alguma situação em que preciso estar acordada, costumo fechar um dos meus olhos (em geral o esquerdo) e garanto que, ao abri-lo outra vez, me sinto mais disposta.
Na verdade essa é uma ação reflexa trazida pelo meu sono e pelo meu bom senso ao mesmo tempo: o sono me faz querer dormir; o bom senso me faz ficar acordada. Juntos, os dois concordam que o melhor a se fazer é fechar um olho só.
A idéia seria que o meu corpo concordasse em me deixar dormir pela metade (já que, para dormir por inteiro, eu precisaria dos dois olhos fechados). Funcionaria como um modo de espera: eu estaria prestando atenção ao que acontece ao meu redor mas não 100% de atenção, e teria metade de mim trabalhando na minha recomposição. Poderia parecer um pouco estranho ver alguém com um olho aberto e outro fechado, na maior naturalidade; além disso, seria impossível agir normalmente dormindo pela metade. Isso só seria útil quando a minha presença física - e não a psicológica - fosse necessária: em uma aula pouco estimulante, ao esperar em filas ou no ponto de ônibus.
Mas bastaria um único estímulo externo referido diretamente a mim e o meu modo de espera se desativaria. Não como um monitor de computador, que simplesmente se acende quando tocamos o mouse (depois de alguns minutos sem atividade), completamente escandaloso e denunciador, do tipo acordar atrasado por causa do despertador que não tocou - e sim uma ação despercebidamente natural, para que ninguém suspeitasse do meu médio sono.
II
Sabe quando você está subindo uma ladeira - especialmente em São Paulo, onde elas são inclinadas e infinitas demais - e já não está mais agüentando, e então você percebe alguém que está lá em cima, bem onde você quer chegar, mas fazendo o movimento contrário, ou seja, descendo?
E se vocês pudessem trocar de lugar? De repente, você estaria lá em cima e o sujeito, bem no ponto onde você teria parado.
Ainda não decidi como seria feita essa troca, talvez por teletransporte ou até por meio de um pulo gigante que nunca te cansaria. Mas uma coisa é certa: vocês teriam que concordar em mudar de lugar. Deveria haver uma troca de olhares seguida de confirmações de cabeça, ou sinais positivos com as mãos ou outras partes do corpo. Tudo dependeria da boa vontade da pessoa que estaria em cima, afinal, talvez ela não precisasse ir até o lugar onde você estaria, talvez ela virasse uma rua antes daquilo...
III
Sempre que eu estou presa no trânsito, parece que os carros, ônibus e caminhões que estão na minha frente seguem em linha até o litoral do país, e que eu é que sou a última pessoa da fila. Ou quando estou esperando, parece sempre que, assim que eu resolvo começar a esperar, passo a ser a última que está esperando. A última senha do balcão de atendimento, a última a passar pela porta, a última de todos, sempre.
Correndo atrasada como tenho feito ultimamente (a usp é bem mais longe da minha casa do que eu imaginava), concluí que eu preciso - não posso mais viver sem - de uma palavra que indique a minha ansiedade em ser a última pessoa.
E foram tantas as caminhadas casa-escola que eu decidi que preciso da palavra anti-vanguarda. É uma síntese específica, porque nem tudo que não é vanguarda é anti-vanguarda. Anti-vanguarda é a criança baixinha que chega afobada porque errou o caminho na escola nova, sou eu com sete anos fazendo aula de natação. (Tem muito disso em esportes, é verdade, me dá a maior aflição quando algumas pessoas páram de correr no meio uma maratona, e nunca mais terminam. Até hoje, elas ainda não terminaram a maratona. Talvez já tenham morrido, e morreram sem terminar. O tempo da corrida está contando até hoje, e para sempre.)
Anti-vanguarda pode até ser, em alguns casos, o contrário de uma vanguarda. Se o Marx era uma pessoa de vanguarda em relação ao pensamento comunista, então ele era uma anti-vanguarda capitalista. Não, acho que não foi um bom exemplo, funcionaria melhor com arte.
Tenho pensado em como seria bom poder dormir com um olho só. Quando eu sinto sono em público, durante alguma situação em que preciso estar acordada, costumo fechar um dos meus olhos (em geral o esquerdo) e garanto que, ao abri-lo outra vez, me sinto mais disposta.
Na verdade essa é uma ação reflexa trazida pelo meu sono e pelo meu bom senso ao mesmo tempo: o sono me faz querer dormir; o bom senso me faz ficar acordada. Juntos, os dois concordam que o melhor a se fazer é fechar um olho só.
A idéia seria que o meu corpo concordasse em me deixar dormir pela metade (já que, para dormir por inteiro, eu precisaria dos dois olhos fechados). Funcionaria como um modo de espera: eu estaria prestando atenção ao que acontece ao meu redor mas não 100% de atenção, e teria metade de mim trabalhando na minha recomposição. Poderia parecer um pouco estranho ver alguém com um olho aberto e outro fechado, na maior naturalidade; além disso, seria impossível agir normalmente dormindo pela metade. Isso só seria útil quando a minha presença física - e não a psicológica - fosse necessária: em uma aula pouco estimulante, ao esperar em filas ou no ponto de ônibus.
Mas bastaria um único estímulo externo referido diretamente a mim e o meu modo de espera se desativaria. Não como um monitor de computador, que simplesmente se acende quando tocamos o mouse (depois de alguns minutos sem atividade), completamente escandaloso e denunciador, do tipo acordar atrasado por causa do despertador que não tocou - e sim uma ação despercebidamente natural, para que ninguém suspeitasse do meu médio sono.
II
Sabe quando você está subindo uma ladeira - especialmente em São Paulo, onde elas são inclinadas e infinitas demais - e já não está mais agüentando, e então você percebe alguém que está lá em cima, bem onde você quer chegar, mas fazendo o movimento contrário, ou seja, descendo?
E se vocês pudessem trocar de lugar? De repente, você estaria lá em cima e o sujeito, bem no ponto onde você teria parado.
Ainda não decidi como seria feita essa troca, talvez por teletransporte ou até por meio de um pulo gigante que nunca te cansaria. Mas uma coisa é certa: vocês teriam que concordar em mudar de lugar. Deveria haver uma troca de olhares seguida de confirmações de cabeça, ou sinais positivos com as mãos ou outras partes do corpo. Tudo dependeria da boa vontade da pessoa que estaria em cima, afinal, talvez ela não precisasse ir até o lugar onde você estaria, talvez ela virasse uma rua antes daquilo...
III
Sempre que eu estou presa no trânsito, parece que os carros, ônibus e caminhões que estão na minha frente seguem em linha até o litoral do país, e que eu é que sou a última pessoa da fila. Ou quando estou esperando, parece sempre que, assim que eu resolvo começar a esperar, passo a ser a última que está esperando. A última senha do balcão de atendimento, a última a passar pela porta, a última de todos, sempre.
Correndo atrasada como tenho feito ultimamente (a usp é bem mais longe da minha casa do que eu imaginava), concluí que eu preciso - não posso mais viver sem - de uma palavra que indique a minha ansiedade em ser a última pessoa.
E foram tantas as caminhadas casa-escola que eu decidi que preciso da palavra anti-vanguarda. É uma síntese específica, porque nem tudo que não é vanguarda é anti-vanguarda. Anti-vanguarda é a criança baixinha que chega afobada porque errou o caminho na escola nova, sou eu com sete anos fazendo aula de natação. (Tem muito disso em esportes, é verdade, me dá a maior aflição quando algumas pessoas páram de correr no meio uma maratona, e nunca mais terminam. Até hoje, elas ainda não terminaram a maratona. Talvez já tenham morrido, e morreram sem terminar. O tempo da corrida está contando até hoje, e para sempre.)
Anti-vanguarda pode até ser, em alguns casos, o contrário de uma vanguarda. Se o Marx era uma pessoa de vanguarda em relação ao pensamento comunista, então ele era uma anti-vanguarda capitalista. Não, acho que não foi um bom exemplo, funcionaria melhor com arte.
sexta-feira, 20 de março de 2009
O quarto da minha irmã está cheirando àquelas canetas tóxicas de desenho profissional (acabei de conseguir me familiarizar com o cheiro, a Paula insistia em dizer que era culpa da acetona que ela usou agora há pouco).
Digitando com dificuldade por causa do band-aid que eu coloquei no indicador esquerdo. O desenho do band-aid é by Alexandre Herchcovitch, e eu tive que colocá-lo porque fiz um movimento brusco para amarrar o cadarço do meu tênis e então a minha unha começou a descolar.
Voltei não faz muito tempo de uma palestra ou debate no Centro Cultural São Paulo com três dos meus professores (e mais dois designers), que serviu, acima de tudo, como uma percepção precisa de que eu estou na festa errada. Eu gosto de design, gosto de artes plásticas e tudo, mas não quero nunca ter a palavra designer antes do meu nome - ou então esse aposto terrível contextualizando o leitor ou ouvinte sobre a pessoa de quem se está tratando.
Acho que eu posso ser mais do que isso. Talvez seja melhor até não ter apostos. Ou ter outros mais neutros. Mais engrandecedores, seria bom.
Eu gosto de escrever mais do que de olhar, gosto mais de ler e menos de desenhar. Sou o contrário de cada pessoa naquela classe. Sei que design é um bom conjunto de tudo e não me imagino fazendo nenhum outro curso. Pelo menos não agora.
Mas, às vezes, queria estar lendo ou pensando e errando palavras ao invés de estar ocupada com o autocad. Tudo bem, a parte chata existe sempre, talvez se eu estivesse estudando estudos literários não agüentasse mais ver um livro na minha frente.
Sinto que eu perdi o domínio das palavras por estar em volta de pessoas tão despreocupadas com isso.
Se tem uma coisa que eu gosto de estar na fau é história da arte. Muita história da arte, e muita história também, toda a história tem me fascinado muito ultimamente. As histórias mais distantes, principalmente, nem sempre para entender mas só para saber o que aconteceu, como a maioria das coisas que a gente quer saber, só quer saber por saber.
Este post são idéias jogadas e desconexas. Mas, depois de uma semana sem postar, fiquei assim. Tenho rascunhos de quase todos os dias em que eu não postei, talvez um dia eles ainda cheguem a se tornar posts, mas provavelmente ninguém nunca vai lê-los, porque eles estarão nas páginas anteriores.
Tenho ficado muito sozinha em casa durante o dia e pensado muito. Não só em mim ou na minha faculdade; nos meus personagens, nas minhas pessoas. As pessoas da minha vida, onde elas estão? Por que parece que o meu tempo é sempre livre?
O Giulio Carlo Argan usa muito bem o ponto e vírgula (tem hífen?). Queria ser assim, e conhecer tudo o que ele conhece. Aparentemente vou ter que procurar ajuda em outros livros para conseguir ler o livro dele.
Fazer uma opinião, como é possível ser uma pessoa absoluta? Como ele (o Argan), o Hobsbawn, o Machado de Assis ou o Roberto Schwarz. Gente que você simplesmente senta e ouve. Se tivesse que falar com uma pessoa absoluta, não conseguiria. Não conseguiria perguntar as horas, nem pedir desculpas se esbarrasse no ombro de alguma delas.
Acho que vale estudar e tentar aprender o quanto antes. Talvez dê tempo, eu poderia ser uma velhinha de opinião.
Digitando com dificuldade por causa do band-aid que eu coloquei no indicador esquerdo. O desenho do band-aid é by Alexandre Herchcovitch, e eu tive que colocá-lo porque fiz um movimento brusco para amarrar o cadarço do meu tênis e então a minha unha começou a descolar.
Voltei não faz muito tempo de uma palestra ou debate no Centro Cultural São Paulo com três dos meus professores (e mais dois designers), que serviu, acima de tudo, como uma percepção precisa de que eu estou na festa errada. Eu gosto de design, gosto de artes plásticas e tudo, mas não quero nunca ter a palavra designer antes do meu nome - ou então esse aposto terrível contextualizando o leitor ou ouvinte sobre a pessoa de quem se está tratando.
Acho que eu posso ser mais do que isso. Talvez seja melhor até não ter apostos. Ou ter outros mais neutros. Mais engrandecedores, seria bom.
Eu gosto de escrever mais do que de olhar, gosto mais de ler e menos de desenhar. Sou o contrário de cada pessoa naquela classe. Sei que design é um bom conjunto de tudo e não me imagino fazendo nenhum outro curso. Pelo menos não agora.
Mas, às vezes, queria estar lendo ou pensando e errando palavras ao invés de estar ocupada com o autocad. Tudo bem, a parte chata existe sempre, talvez se eu estivesse estudando estudos literários não agüentasse mais ver um livro na minha frente.
Sinto que eu perdi o domínio das palavras por estar em volta de pessoas tão despreocupadas com isso.
Se tem uma coisa que eu gosto de estar na fau é história da arte. Muita história da arte, e muita história também, toda a história tem me fascinado muito ultimamente. As histórias mais distantes, principalmente, nem sempre para entender mas só para saber o que aconteceu, como a maioria das coisas que a gente quer saber, só quer saber por saber.
Este post são idéias jogadas e desconexas. Mas, depois de uma semana sem postar, fiquei assim. Tenho rascunhos de quase todos os dias em que eu não postei, talvez um dia eles ainda cheguem a se tornar posts, mas provavelmente ninguém nunca vai lê-los, porque eles estarão nas páginas anteriores.
Tenho ficado muito sozinha em casa durante o dia e pensado muito. Não só em mim ou na minha faculdade; nos meus personagens, nas minhas pessoas. As pessoas da minha vida, onde elas estão? Por que parece que o meu tempo é sempre livre?
O Giulio Carlo Argan usa muito bem o ponto e vírgula (tem hífen?). Queria ser assim, e conhecer tudo o que ele conhece. Aparentemente vou ter que procurar ajuda em outros livros para conseguir ler o livro dele.
Fazer uma opinião, como é possível ser uma pessoa absoluta? Como ele (o Argan), o Hobsbawn, o Machado de Assis ou o Roberto Schwarz. Gente que você simplesmente senta e ouve. Se tivesse que falar com uma pessoa absoluta, não conseguiria. Não conseguiria perguntar as horas, nem pedir desculpas se esbarrasse no ombro de alguma delas.
Acho que vale estudar e tentar aprender o quanto antes. Talvez dê tempo, eu poderia ser uma velhinha de opinião.
quinta-feira, 12 de março de 2009
Acho que já ficou tarde demais, então eu posso, oficialmente, dizer que dei um jaiminho no autocad.
Agora ler textos e concluir - pela décima oitava vez só nessa semana - que os designers brasileiros (or those who claim to be) são analfabetos. Nunca vi gente que gosta tanto de usar "onde" em lugar errado, eles assassinam a compreensão das frases a cada três linhas.
É tudo muito mal escrito e, como eu sou uma iniciante, não há nada que eu possa fazer a respeito. Na verdade, nunca vai existir nada que eu possa fazer a respeito, porque, embora eu até me interesse pelo assunto, não quero ser escritora de qualquer coisa que não seja romances.
Desculpe, mundo do design, vocês vão ter que me conquistar.
Talvez esse mal venha da arquitetura, já viu arquiteto preocupado em escrever direito? Eles não usam acentos e insistem na vírgula antes do verbo, um horror.
Ontem a moça escreveu MASCARA na lousa, isso, esqueceu da única regra que ninguém esquece: todas as proparaxítonas são acentuadas.
Pelo menos eu tenho os meus livros e a minha poesia para me proteger (SIMON et GARFUNKEL, 1966).
Estava olhando o caderno de viagens do jornal do dia 10 e tinha uma propaganda de agência de turismo com preços absurdos, do tipo Disney, 7 noites, pacote incluindo hospedagem, passagem aérea e ingressos para parques por apenar 791 reais por pessoa. REAIS! Bom, mesmo se fossem dólares... Ou euros, ou até libras...
Deu vontade de ir pra Disney, é claro. Não necessariamente para a Disney, acho, eles também tinham ofertas magníficas para o Canadá, para a Península Ibérica e para o Oeste dos Estados Unidos.
Depois fiquei com vontade de ter a minha própria máquina fotográfica.
Agora ler textos e concluir - pela décima oitava vez só nessa semana - que os designers brasileiros (or those who claim to be) são analfabetos. Nunca vi gente que gosta tanto de usar "onde" em lugar errado, eles assassinam a compreensão das frases a cada três linhas.
É tudo muito mal escrito e, como eu sou uma iniciante, não há nada que eu possa fazer a respeito. Na verdade, nunca vai existir nada que eu possa fazer a respeito, porque, embora eu até me interesse pelo assunto, não quero ser escritora de qualquer coisa que não seja romances.
Desculpe, mundo do design, vocês vão ter que me conquistar.
Talvez esse mal venha da arquitetura, já viu arquiteto preocupado em escrever direito? Eles não usam acentos e insistem na vírgula antes do verbo, um horror.
Ontem a moça escreveu MASCARA na lousa, isso, esqueceu da única regra que ninguém esquece: todas as proparaxítonas são acentuadas.
Pelo menos eu tenho os meus livros e a minha poesia para me proteger (SIMON et GARFUNKEL, 1966).
Estava olhando o caderno de viagens do jornal do dia 10 e tinha uma propaganda de agência de turismo com preços absurdos, do tipo Disney, 7 noites, pacote incluindo hospedagem, passagem aérea e ingressos para parques por apenar 791 reais por pessoa. REAIS! Bom, mesmo se fossem dólares... Ou euros, ou até libras...
Deu vontade de ir pra Disney, é claro. Não necessariamente para a Disney, acho, eles também tinham ofertas magníficas para o Canadá, para a Península Ibérica e para o Oeste dos Estados Unidos.
Depois fiquei com vontade de ter a minha própria máquina fotográfica.
Tanta coisa para escrever, mas a minha cabeça não deixa. Antagônico, pensando bem. É que eu venho sentindo com freqüência a minha alma subindo pelo meu esôfago. Tudo fica confuso, confuso, girando.
Atrapalha a fluência do pensamento. Estou há alguns dias sem conseguir ouvir música. Preciso de um diagnóstico.
Atrapalha a fluência do pensamento. Estou há alguns dias sem conseguir ouvir música. Preciso de um diagnóstico.
quarta-feira, 4 de março de 2009
O professor não perguntou por que a gente tinha decidido fazer design, só o que a gente achava que era design. "É um conceito polêmico." As pessoas falaram coisas óbvias mas pertinentes, idéias mais ou menos próximas do que o que eu falaria. "Ninguém tem uma idéia deturpada do que é design?"
Ele explicou como foi difícil consolidar a profissão de designer no Brasil, principalmente porque, em português, não existia um termo correspondente para design. Em inglês ou espanhol, por exemplo, existe uma palavra para desenho (draw, dibujo) e outra para design (design, deseño). Então adicionaram design ao nosso dicionário.
Ele disse que a gente vai ter que fazer seminários, era difícil decidir entre um dos temas porque todos eram muito legais (o que me deixou muito emocionada, mil coisas interessantes em um só segundo). Peguei o que era sobre um livro do Sevchenko, A corrida para o século XXI, que me lembrou as aulas do Renan sobre Crise de 29 - os exerícios sempre traziam um trecho desse livro.
Acho que, enfim, talvez eu tenha encontrado uma raison d'être.
Ele explicou como foi difícil consolidar a profissão de designer no Brasil, principalmente porque, em português, não existia um termo correspondente para design. Em inglês ou espanhol, por exemplo, existe uma palavra para desenho (draw, dibujo) e outra para design (design, deseño). Então adicionaram design ao nosso dicionário.
Ele disse que a gente vai ter que fazer seminários, era difícil decidir entre um dos temas porque todos eram muito legais (o que me deixou muito emocionada, mil coisas interessantes em um só segundo). Peguei o que era sobre um livro do Sevchenko, A corrida para o século XXI, que me lembrou as aulas do Renan sobre Crise de 29 - os exerícios sempre traziam um trecho desse livro.
Acho que, enfim, talvez eu tenha encontrado uma raison d'être.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Ana Karênina
- ...O amor é como a escarlatina, todos têm de passar por ela.
- Então, seria bem melhor que se arranjasse maneira de inoculá-lo artificialmente, como se faz com a varíola.
- ...sou de opinião que, para conhecermos o amor, temos, primeiro, que nos enganarmos para depois corrigirmos o erro.
(...)
- Eu acho - disse Ana, brincando com uma das luvas - que, se é verdade que cada cabeça cada sentença, há de haver tantas maneiras de amar quantos os corações.
L. N. Tolstói
- Então, seria bem melhor que se arranjasse maneira de inoculá-lo artificialmente, como se faz com a varíola.
- ...sou de opinião que, para conhecermos o amor, temos, primeiro, que nos enganarmos para depois corrigirmos o erro.
(...)
- Eu acho - disse Ana, brincando com uma das luvas - que, se é verdade que cada cabeça cada sentença, há de haver tantas maneiras de amar quantos os corações.
L. N. Tolstói
domingo, 1 de março de 2009
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Mãos meladas de sobremesa, não queria sujar o mouse e o teclado, mas ao mesmo tempo estou com preguiça de me levantar e lavar as mãos, porque aí eu não iria mais querer voltar para o computador.
Preciso ir até a auto-escola fazer burocracia e acabei de descobrir que tive aula ontem à noite. Será que tem hoje também? Que droga, ninguém consegue me dar uma porcaria de informação certa. Sonho muito com aquele momento das pessoas se apresentando na classe (estilo reunião de narcóticos anônimos, com a diferença de que nos narcóticos seu passado nem sempre é uma coisa boa a ponto de ser revelada), mas parece que vou ter que manter essa idéia só no pensamento.
Sempre penso na Paula contando como foi a primeira aula dela na História (talvez porque ela já tenha me contado milhões de vezes), o professor perguntou porque as pessoas tinham decidido fazer História; "Mas não venham me dizer que é porque vocês gostam de História".
Se me perguntassem o motivo pelo qual eu escolhi fazer design, eu não saberia muito bem o que responder. Eu teria que citar editoração, letras e frustração e, claro, NY, o Buckminster e mais uns dois caras que eu não sei bem o nome mas que até seria interessante pesquisar (o arquiteto japonês do New Museum e o designer daquela mesa branca dos anos 50, sabe?), o meu relógio do Andy Warhol e, por falar em Andy Warhol, o meu medo em me tornar uma pessoa conservadora e obsoleta. A minha vontade de ajudar as pessoas com arte, apesar de a palavra arte não soar tão bem nessa frase para muita gente.
Enfim, não vou entrar nessa discussão - e quem vai?
Preciso ir até a auto-escola fazer burocracia e acabei de descobrir que tive aula ontem à noite. Será que tem hoje também? Que droga, ninguém consegue me dar uma porcaria de informação certa. Sonho muito com aquele momento das pessoas se apresentando na classe (estilo reunião de narcóticos anônimos, com a diferença de que nos narcóticos seu passado nem sempre é uma coisa boa a ponto de ser revelada), mas parece que vou ter que manter essa idéia só no pensamento.
Sempre penso na Paula contando como foi a primeira aula dela na História (talvez porque ela já tenha me contado milhões de vezes), o professor perguntou porque as pessoas tinham decidido fazer História; "Mas não venham me dizer que é porque vocês gostam de História".
Se me perguntassem o motivo pelo qual eu escolhi fazer design, eu não saberia muito bem o que responder. Eu teria que citar editoração, letras e frustração e, claro, NY, o Buckminster e mais uns dois caras que eu não sei bem o nome mas que até seria interessante pesquisar (o arquiteto japonês do New Museum e o designer daquela mesa branca dos anos 50, sabe?), o meu relógio do Andy Warhol e, por falar em Andy Warhol, o meu medo em me tornar uma pessoa conservadora e obsoleta. A minha vontade de ajudar as pessoas com arte, apesar de a palavra arte não soar tão bem nessa frase para muita gente.
Enfim, não vou entrar nessa discussão - e quem vai?
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Quanto mais tempo eu tenho, menos tenho vontade de fazer as coisas. Agora que eu posso ler livros, ouvir música... Não consigo ficar sem obrigações. Se elas não forem milhares, dá pra fazer o tempo render bem mais, organizando e dividindo as horas em intervalos regulares de aproveitamento quase integral.
Ao invés de aumentar a minha cultura (não estou assistindo aos filmes que planejei, as idas ao cinema nem tem sido tão constantes assim, nem abri os dois livros sobre design/arquitetura que a minha mãe me mandou ler, a Ana Karênina tem ido devagar quase parando), praticar um esporte, escrever, designar, conversar com as pessoas, o que eu mais tenho feito é descansar e jogar tetris. Infeliz assim.
Bom, até consigo fazer uma ou outra coisa de vez em quando, mas sinto falta de ter horários determinados, de chegar ao final de um dia e me sentir cansada, de achar que eu realmente mereço comer ou dormir. É bom não ter planos nem hora para voltar para casa, é claro, só que não por muito tempo. Na primeira semana de férias - depois de um ano ininterrupto de cursinho - isso foi mais emocionante do que nunca; agora, deixa as minhas pernas flácidas.
Se não fosse tão tarde, eu arrumava um emprego de verão, me matriculava em um curso intensivo de línguas, me inscrevia como monitora de colônia de férias, qualquer coisa. Ai, que tédio.
Ao invés de aumentar a minha cultura (não estou assistindo aos filmes que planejei, as idas ao cinema nem tem sido tão constantes assim, nem abri os dois livros sobre design/arquitetura que a minha mãe me mandou ler, a Ana Karênina tem ido devagar quase parando), praticar um esporte, escrever, designar, conversar com as pessoas, o que eu mais tenho feito é descansar e jogar tetris. Infeliz assim.
Bom, até consigo fazer uma ou outra coisa de vez em quando, mas sinto falta de ter horários determinados, de chegar ao final de um dia e me sentir cansada, de achar que eu realmente mereço comer ou dormir. É bom não ter planos nem hora para voltar para casa, é claro, só que não por muito tempo. Na primeira semana de férias - depois de um ano ininterrupto de cursinho - isso foi mais emocionante do que nunca; agora, deixa as minhas pernas flácidas.
Se não fosse tão tarde, eu arrumava um emprego de verão, me matriculava em um curso intensivo de línguas, me inscrevia como monitora de colônia de férias, qualquer coisa. Ai, que tédio.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
CFC roots
O condutor de transporte coletivo tem o dever de:
a) Usar gravata
b) Ser amigo do cobrador
c) Cumprimentar os passageiros
d) Usar óculos escuros
e) Parar em todos os pontos obrigatórios
a) Usar gravata
b) Ser amigo do cobrador
c) Cumprimentar os passageiros
d) Usar óculos escuros
e) Parar em todos os pontos obrigatórios
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
O sono (ou fadiga, ou vontade de morrer) que eu sinto todos os dias a todos os momentos - talvez mais de manhã e mais ainda depois do almoço - foi diagnosticado pela minha mãe: tudo culpa do meu anti-histamínico.
Uma amiga dela começou a tomar esse mesmo remédio há muito pouco tempo e disse que tem sentido um cansaço alucinante. Minha avó concordou com a versão da moça, dizendo que só consegue tomá-lo logo antes de dormir.
Um passo adiante, enfim. E eu que achava que nunca mais ia conseguir correr, que nunca ia poder ter forças para ler à tarde outra vez...
Sinto raiva do desgraçado do médico, que jurou que "os anti-histamínicos modernos" não dão sono. É verdade que, tomando o remédio à noite ao invés de de manhã, talvez eu fique com coceiras e pãezinhos vermelhos por todo o corpo durante o dia, mas melhor do que fechar os olhos na cara das pessoas.
Só de pensar nos pãezinhos vermelhos já sinto uma coceira. Sei que, se eu começar a coçar, não vou parar nunca mais. A coceira inicial pode ser só psicológica, mas, depois do primeiro arranhão na pele, nada será como antes. Aprendi no sofrimento que não devo coçar. Eu tento, tento, e até consigo, só que, quando perco a atenção por um segundo e páro de pensar na coceira, minhas unhas já estão ali - às vezes até arrancando pedaços de mim mesma -, sem que eu pudesse me dar conta.
Parece uma ação de má fé, mas não é, juro. É mais forte do que eu, um instinto. Então é só esperar e os calombos começam a sugir, primeiro bolinhas pequenas, depois todas elas se juntam em placas enormes do tamanho dos membros que estão ocupando; elas crescem, formando saliências horríveis.
Antes eu passava Fenergan por empirismo (alergia, afinal) e funcionava. O médico proibiu porque não tinha "nada a ver com o problema", me receitou um remédio para dormir e ficou por isso mesmo.
Uma amiga dela começou a tomar esse mesmo remédio há muito pouco tempo e disse que tem sentido um cansaço alucinante. Minha avó concordou com a versão da moça, dizendo que só consegue tomá-lo logo antes de dormir.
Um passo adiante, enfim. E eu que achava que nunca mais ia conseguir correr, que nunca ia poder ter forças para ler à tarde outra vez...
Sinto raiva do desgraçado do médico, que jurou que "os anti-histamínicos modernos" não dão sono. É verdade que, tomando o remédio à noite ao invés de de manhã, talvez eu fique com coceiras e pãezinhos vermelhos por todo o corpo durante o dia, mas melhor do que fechar os olhos na cara das pessoas.
Só de pensar nos pãezinhos vermelhos já sinto uma coceira. Sei que, se eu começar a coçar, não vou parar nunca mais. A coceira inicial pode ser só psicológica, mas, depois do primeiro arranhão na pele, nada será como antes. Aprendi no sofrimento que não devo coçar. Eu tento, tento, e até consigo, só que, quando perco a atenção por um segundo e páro de pensar na coceira, minhas unhas já estão ali - às vezes até arrancando pedaços de mim mesma -, sem que eu pudesse me dar conta.
Parece uma ação de má fé, mas não é, juro. É mais forte do que eu, um instinto. Então é só esperar e os calombos começam a sugir, primeiro bolinhas pequenas, depois todas elas se juntam em placas enormes do tamanho dos membros que estão ocupando; elas crescem, formando saliências horríveis.
Antes eu passava Fenergan por empirismo (alergia, afinal) e funcionava. O médico proibiu porque não tinha "nada a ver com o problema", me receitou um remédio para dormir e ficou por isso mesmo.
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