quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O eterno marido

"Ultimamente, algumas vezes, de noite, os seus pensamentos e sensações transformavam-se quase tão completamente em comparação com os habituais que, em grande parte, não tinham nenhuma semelhança com os que tivera na primeira metade do dia."

F. M. Dostoiévski

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Queria viajar só para poder fazer uma mala. Também tem a ver com o que eu disse no post passado (agora que eu finalmente terminei de arrumar o meu quarto, estou me sentindo órfã - preciso de alguma coisa que precise ser arrumada), mas acho que o principal é a minha imensa vontade de usar a mala vermelha de bolinhas brancas e rosas que a gente comprou nos EUA em julho.

Desde então, não fiz nenhuma outra viagem. Posso imaginar a mala dentro do armário, tomando poeira, pedindo para ser lotada de coisas e depois surrada em um porta-malas qualquer (de avião, ônibus, carro, o que for). Ela tem muita expressão. De longe, na esteira do aeroporto, podemos apontá-la, e ela sorri em resposta. Conhece alguma outra mala que pode ser tão fácil e calorosamente identificada?

Com a sua lona resistente sei que ela nunca irá me abandonar, o que a torna diferente de outras bolsas por aí, que, com o menor arranhão, rasgam seus tecidos baratos e se despedem da minha meticulosa companhia.

A mala a que eu me refiro é pequena (conquistou a Denise pela possibilidade de ser levada como bagagem de mão no avião), mas ela veio em um conjunto de três peças. Portanto, tem duas irmãs maiores que ela. A do meio é uma mala de tamanho normal, para uma viagem de duas ou três semanas, enquanto a maior é digna de uma volta ao mundo. Juntas, as três se completam. Mesmo assim, ao voltar dos EUA, eu, a Denise e a Paula não só enchemos todas elas como também uma de tamanho parecido com o da média e duas outras que, somadas, equivaleriam em volume à média. Não é à toa que os homens da alfândega pediram que a gente passasse todos os nossos pertences pelo raio-x.

Bom, isso não importa, porque não pediram para a gente declarar nada, afinal, não estávamos fazendo contrabando nem carregando compras ilícitas. Importa que fiquei meio preocupada ao virgular o parágrafo anterior, acho que porque eu estou lendo um livro de tradução agoniante (O casaco de Marx). Tenho medo de ser contaminada. Até agora nada, espero.

Estou lendo também outras coisas, porque ando muito ansiosa. Depois quero começar a ler livros que tenham a ver com História. Na fila: Maria Antonietta (o que deu origem ao filme da Sofia Coppola; eu já tinha começado antes mas fiquei doente e parei), O apogeu da cidade medieval (Le Goff; se eu tiver competência), A História do medo no Ocidente (Jean Jacques Delumeau; não soa interessante?), A filha da Revolução (John Reed; depois pretendo ir para Os dez dias que abalaram o mundo).

Tudo isso porque eu fiquei um ano sem ler nada de intelectualmente enriquecedor. Por falar nisso, agora que eu já vi todos os filmes do Tarantino, queria ver todos os do Coppola, depois todos do Kubrick e assim por diante; aos poucos, tentar consertar algumas das minhas milhões de lacunas cinematográficas. Devagar. Vai dar certo.

Estou contando com o aumento do meu tempo livre neste ano, quero que ele seja extremamente bem aproveitado. Além disso, como eu já disse, quero começar a aprender alemão e, como tudo o que diz respeito a melhorar, quero levar isso a sério.

Já que a minha mente está bem encaminhada, preciso começar a cuidar do meu corpo. Dependendo do que acontecer, posso até tentar investir na minha vida social (mas isto fica por último, como de costume).

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

No momento, estou com uma Comuna de Paris no meu scrapbook. Não se trata de um conceito profundo - é só o final do número de scraps que eu tenho (71) que é o mesmo do ano em que ela aconteceu.

Gosto de ficar brincando com os números que eu vejo por aí.
- Que horas são?
- Queda do Império Turco Otomano.
Ou:
- Primavera dos Povos.

Ok, eu não falo isso quando me perguntam as horas. Eu só penso. Mas seria legal se eu pudesse conversar assim com as pessoas.
- O que, já são Congresso de Viena? Preciso ir, senão não chego lá antes do assassinato de Francisco Ferdinando!

Também é divertido pensar o que acontece, simultaneamente, na História do Brasil.
- Acho que a gente caiu no mesmo grupo! Espera, qual é o seu número de chamada?
- Convênio de Taubaté, e o seu?
- Ihh, posse do FDR.
- Droga.

Ou pensar em datas de aniversário, progressões, cálculos simples que podem valer a piada.
- Uau, a minha matrícula é uma série de Fibonacci!
E até:
- Como está o frango?
- Ainda não está bom...
- Coloca mais uns 'pi' minutos, então.

Li uma vez em um livro legal (O gene da matemática, de Keith Devlin) que ficar treinando fazer contas é bom para o cérebro - você começa a pensar mais rápido, alguma coisa assim. O doutor do Nintendo DS da Paula reiterou essa informação, então comecei a tentar realizar operações algébricas com os algarismos que eu via até que eles se transformassem em 1 (como recomendou o Professor Devlin).

A brincadeira é divertida e, realmente, deixa a mente mais dinâmica. Depois disso, até me viciei em Sudoku por um tempo. Mas alguma hora tudo isso perdeu a graça: acho que o meu negócio definitivamente não são os números. Devo me contentar com as datas históricas.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Às vezes odeio o jeito como eu sou metódica demais. Então eu digo para mim mesma Chega.

Arrumando o meu quarto nos últimos dias, por exemplo, tive que colocar os casacos no armário em uma ordem especificamente trabalhosa (primeiro os casacos de inverno, depois as capas com tecidos semelhantes, então as jaquetas com cortes parecidos aos do grupo anterior, as malhas que mais se parecessem com as jaquetas e aí sim os moletons, respeitando a uma ordem lógica que mistura auto-biografia com cores, texturas e capacidade térmica). Pensei: Como seria bom se eu tivesse todas as minhas roupas catalogadas em um programa de computador, como em uma biblioteca!

Mas falei Chega antes que fosse tarde demais, enganei a mim mesma com a desculpa de que eu não tenho tantas roupas assim, a ponto de elas precisarem ser catalogadas. Mas se um dia eu tiver um closet lotado...

Pensei o mesmo para os livros, infelizmente, e para todos os papéis que eu quero guardar mas não vou saber achar com facilidade. Que tal um arquivo imenso com pastas datadas, organizadas em seqüência alfabética?

Se um dia eu tiver a minha própria casa, sei que a organização vai chegar a ser irritante. Tenho pena daqueles que vierem a morar comigo (marido? filhos?), vão sofrer diariamente. Nada, jamais, ficará fora do seu lugar. A idéia da catalogação poderá se expandir para a casa inteira: cozinha, banheiro, sala. Será o ctrl+F da minha vida. E cada situação cotidiana exigirá novos catálogos eletrônicos, do tipo fazer uma mala, fazer uma lista de supermercado.

Me dá um pouco de agonia pensar nisso, mas me faz feliz pensar no trabalho que ia ser poupado em procurar e guardar coisas. Talvez eu termine com um caso de TOC agudo, mas por enquanto gritar Chega para dentro do meu cérebro ainda consegue me ajudar.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O calor me faz ficar sentada na frente do computador sem roupas e me deixa com a cabeça martelando constantemente.

Não tem tanto problema fazer calor na rua, à noite é até agradável, sair sem casaco e tudo, mas dentro de casa?

Fui olhar o calendário da Fuvest - just in case - e, no site, acabei encontrando a nova lista de livros para o vestibular de 2010. Saem Sagarana, Poesia completa de Alberto Caeiro e A rosa do povo para entrar O cortiço (que emoção!), Capitães da areia (essa eu confesso que não entendi) e Antologia poética do Vinícius de Moraes (interessante, né?).

Achei meio idiota eles continuarem com muita coisa igualzinha ao que está há três anos, tipo Iracema (alguém ainda agüenta?), A cidade e as serras (também já deu, meu príncipe) e O auto da barca do Inferno (esse é eterno), e eles podiam ter colocado, sei lá, um Quincas Borba ao invés de Dom Casmurro, algum outro do Graciliano Ramos, só pra mudar, mesmo. E, se precisa tanto assim do José de Alencar, podiam pelo menos arriscar O guarani...

Se vestibular só é do jeito que é porque existem os cursinhos, então fica fácil de entender. Afinal, imagina se aquele cara que está prestando medicina, há três anos no cursinho, tivesse que ler outros livros, e ter todo o trabalho de aprender tudo o que está por trás de várias outras obras? Isso privilegia quem está no cursinho, enfiado nessa indústria de pragmatismo que, por pior que seja, funciona. No fim, não entram os melhores alunos, mas os que têm mais conhecimento da prova, quem estudou mais ou já tem idéia do modelo de correção, das expectativas da banca examinadora.

Fico pensando até que ponto as faculdades têm os cursinhos como entraves burocráticos, e eu não duvidaria se alguém me dissesse que essa relação é uma verdadeira máfia, com troca de favores e gente sendo ameaçada de morte. Se uma instituição forte como a Fuvest resolvesse, de uma hora para outra, mudar o sistema de ingresso na faculdade (no caso, na USP, a melhor universidade do país), os cursinhos acabariam, e isso, com certeza, traria muitos problemas, não só econômicos, mas também sociais, já que o Brasil tem o vestibular como algo muito consolidado.

Como será que vai ser na geração dos meus filhos? Se a população continuar crescendo até 2050 (ou 2030, não importa) e o número de vagas não aumentar (e não vai mesmo, todo o mundo sabe), a concorrência vai fazer com que o comércio de almas se torne uma prática comum. Não gosto de pensar nisso, não gosto de pensar em problemas grandes e sem solução, e acho que esse é o ponto de vista da maioria das pessoas - senão, alguém com certeza já teria feito alguma coisa. Enquanto isso, continuamos fingindo que está tudo bem.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Em pouco menos de 7 horas, estará tudo terminado.

Quando o fiscal disser "Fechem os cadernos", poderei me levantar da cadeira e, mesmo com as costas arruinadas, sairei correndo em direção à porta, onde duas garotas de top e mini-saia estarão segurando uma fita vermelha e comprida, uma em cada ponta, como nas linhas de chegada de corridas de longa distância.

Cruzarei a faixa eufórica, e elas a reerguerão para que o próximo a sair da prova também dê o seu grito de independência.

E assim sucessivamente, invadiremos a cidade um a um, no calor brasileiro horrível, os olhos brilhando de emoção, a estafa nos levando a bradar FÉRIAS! e destruir tudo o que aparecer pela frente. Carros, vitrines, pessoas - toda a felicidade alheia se transformando na minha felicidade.

Vagarei pelo meio das ruas em um protesto por nada, apenas pela emoção de ter eu mesma para mim outra vez, um ano e será a primeira vez que serei minha, o que eu quiser fazer, a qualquer hora, tempo sem desculpa, até o dia 04 de fevereiro.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Dois momentos muito diferentes ontem e hoje.

Ontem a epifania FAU, pessoas simpáticas, legais e bonitas, um espaço agradável, interesses confluentes (de skates e câmeras fotográficas, arte nas paredes e humor inteligente).

Hoje a realidade trágica de A bela Junie, realidade estranha, na verdade, mas extremamente real.

Uma prova de que, quando se é linda, a vida só é difícil se você quer que ela seja. O Werther de casaco quase mostarda, ele se chamava Otto, e acho que o casal Otto et Junie é o que eu chamaria de relacionamento ideal. Um manda, o outro obedece. Mas os dois sofrem, e não sabem como lidar com essa situação. Falam pouco, falta compreensão mútua. Estética impecável.

No fim, quando o Werther morre fica mesmo óbvio que ele é o único que vai amar a Charlotte para sempre. Boa, Junie. "Por que ela não se apaixonou por mim no momento em que me viu?" - como diria a sua amiga ao telefone, você e o seu romantismo, Otto.

O herói romântico, a heroína romântica. A pele branca e os olhos azuis; o dentinho separado para dar o tom. O grotesco e o sublime. Se o cabelo dele não é loiro, pode ser pintado de loiro.

Quanto pior a situação das personagens, mais deprimente a natureza parece. Por isso o inverno francês, a chuva caindo bem na hora da música reflexiva. Todos páram para ouvi-la, e logo depois aquele que consumiu tempo de reflexão aparece em cena, refletindo sobre o mesmo assunto.

Um momento da vida burguesa, com seus costumes e singularidades revelados. A vida na escola, polígonos amorosos, intrigas ou polêmica, homossexualidade, relacionamentos problemáticos, literatura e fotografia, dor, mal-entendido.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Notícia 100%: o baby escândalo vai morar por um ano na Argentina! Daí ele vai voltar crescidinho e disciplinado, estou confiante. Imagina? Um ano de sono ininterrupto!

Estou morta de cansaço, que pica de vestibular que não acaba mais. Amanhã é a alforria de quase todo o mundo FAU, mas não a minha. Eu devia é confiar no Quiroga de hoje ("o que parecia ser tão complicado acabou sendo mais fácil") e dar um cano na Unicamp.

Ahh meus olhos estão degringolando. Eles querem que eu durma logo, o sono machuca as minhas idéias umas nas outras.

Amanhã e depois, descanso temporário. A moça da Telefônica vai me acordar por 20 centavos (justo agora que a Paula estava lamentando pela vida das mulheres do Bradesco, que tem atendimento 24h. Ainda bem que a mocinha da Telefônica não dorme nunca).

A Paula disse que precisamos tomar três copos de leite por dia. Eu disse que eu tomo cálcio efervescente. Ela disse que não é só o cálcio que importa. Mentira.

Sono desgraça, meus olhos estão degringolando, e ainda preciso de banho. Ok, última coisa, que é uma citação de uma plaquinha que um veterano da FAU estava carregando hoje durante o horário de almoço: "SEU FILHO VAI VIRAR GAY (manifesto da minoria hétero da FAU) - design".

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Estou me sentindo suja, as mãos, a boca com gosto ruim, o estômago cheio demais. Não é uma delícia dormir com fome? As pernas diminuem de tamanho quando você se deita, e você se sente ainda melhor se acaba sentindo frio. É uma sensação ótima, você sabe que é.

Diga o que quiser, mas as minhas pernas finas arrasavam. O shorts jeans caindo, e também os meus braços, pendurados nos meus ombros, os cotovelos eram a sua parte mais grossa, assim como os joelhos eram o que distoava nas minhas pernas.

Eu não era feliz, eu sei eu sei eu não quero fazer tudo isso de novo. Mas o começo, o começo, vocês não têm idéia de como era maravilhoso. A economia maravilhosa, cada pedaço e cada sinal de que você existe indo embora de você. Seu corpo pedindo ajuda para a sua consciência, você pode mas não vai ajudá-lo. Nunca. Nem quando o seu último osso quebrar, a sua última gota de sangue cair para fora da sua boca.

Um sentimento talvez niilista invadindo todas as suas outras idéias, e ele te sorri, ele te ama, é o único que ainda te ama. Ele te faz mais forte e te induz a continuar até o final. Quando você perceber que ele não ama só você, mas milhares de outras garotas, bom, pode ser tarde demais. E, em pouco tempo, ele te troca e te abandona, toda a endorfina que ele te dava todos os dias vai embora de você, e então você não está mais sentindo nada.

Alguma coisa pior do que não sentir nada? Se você acha que existe é porque você nunca chegou a não sentir nada.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Inspiração indo embora para tudo. Quero responder a todas as perguntas retóricas, quero padronizar e esquematizar todas as frases que eu ouço.

Meu cérebro está pragmatizando todas as manifestações de contato que eu recebo. Ele tem trabalhado com ritmo e percepção dignos de um engenheiro, otimizando o tempo sempre pensando na relação custo-benefício.

Me lembrou a época em que eu estava estudando para o teste do Santa, eu lia qualquer texto e não conseguia deixar de classificar as orações sintaticamente.

Agora é diferente, estou meio viciada no jeito como as provas de história perguntam as coisas. Quero entender o porquê da informação mais idiota, sinto vontade de grifar as falas das pessoas, releio qualquer porcaria de propaganda até ter certeza de que aquilo estava mesmo certo.

Adquiri um jeito arrogante de avaliar a capacidade de comunicação dos redatores do jornal, na maioria das vezes eles não sairiam do 6,5 (a não ser as notícias e artigos importados, esses sim têm uma qualidade indiscutível).

É estranho ter aula amanhã, me sinto uma trabalhadora, que nunca tem férias e está sempre com tudo atrasado, reclama da vida, culpa a crise econômica e no fim não consegue dar conta nem da própria saúde.