segunda-feira, 6 de julho de 2009

Passei o dia inteiro com a sensação horrível de não ter o que fazer com a música que estava na minha cabeça (e que eu devo ter ouvido mais de vinte vezes ao longo do dia).

Costumo me emocionar muito com todas as formas de arte. (É idiota dizer isso, eu sei, e eu digo porque sinto que tenho mais tendência a me sentir sentimentalmente abalada frente a uma obra de arte do que a maioria das pessoas que eu conheço, os olhos ardendo e os lábios diminuindo de tamanho). Mas com música isso é bem mais forte (o que não quer dizer que seja mais legítimo) - algo do que os românticos já sabiam.

A segunda guitarra entra e eu demoro alguns segundos até ter certeza de que consegui permanecer de pé, sem cair desvanecida.

Se eu pudesse, engoliria cada um daqueles acordes. Não sei se isso resolveria a minha aflição, mas provavelmente faria com que eu, enquanto matéria, participasse de todas aquelas vibrações sonoras.

Seria um problema físico, um som bem forte correndo por dentro do meu aparelho digestório, será que as paredes dos meus órgãos seriam capazes de barrá-lo, e então eu seria jogada de um lado para o outro até que a música terminasse? Ou o som simplesmente entraria no meu corpo e sairia pelos meus poros, por difusão, estragando cada nota da minha música?

Não vejo com bons olhos a idéia do meu corpo como um grande aspirador de barulho. Talvez esse fosse um recurso para ser usado uma, duas ou três vezes na vida. O certo é que a sensação seria excepcional, do tipo experiência de quase-morte - aliás, seria até interessante que a situação proporcionasse risco de vida. Afinal, as condições seriam sempre adversas, um processo desconhecidíssimo, como engolir uma música?

Também seria bom para que isso não se banalizasse, para que se desse valor a cada um dos segundos de êxtase musical; seria perfeito se bastante gente já tivesse morrido tentando, e se os que tivessem vivido para contar tivessem ficado loucos depois de descobrir que o mundo nunca poderia ter graça outra vez. Seria obviamente uma história mal contada, aquilo que sabemos que existe mas preferimos não acreditar, ou que não acreditamos simplesmente por saber que existe.

Talvez a sensação fosse parecida com a de entrar em uma pintura: dividir refeições com parisienses ou participar de uma homenagem ao menino Jesus. Eu poderia fazer parte da narrativa de um livro sem que ninguém percebesse, só para estar ao lado dos meus personagens preferidos - você não odeia terminar de ler um livro, e saber que aquelas pessoas nunca mais irão se reportar a você?

Eu me moveria junto com a música - e isso não quer dizer dançar: eu estaria dentro da música, como se tentasse cruzar um buraco de minhoca do Einstein (uma brecha no espaço-tempo), por isso toda a emoção, o perigo de nunca mais conseguir voltar, eu poderia ser uma palavra pronunciada que nunca mais voltaria a ser uma palavra pronunciada porque já teria sido uma palavra pronunciada que nunca mais seria aquela mesma palavra pronunciada.

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