sábado, 21 de agosto de 2010

Se eu pudesse abraçar alguém enquanto pedisse por favor, eu agiria como uma pessoa simpática por cinco minutos, implorando, com a voz arrastada.

"Você sabe quanto tempo eu ainda tenho? [beijo no rosto] Muito pouco, na verdade."

Eu diria isso se soubesse quanto tempo de vida ainda me restaria. Eu contaria à pessoa em questão: dois meses. Ou talvez um ano, ou 18 dias, não importa.

Seria possível que a pessoa se comovesse e aceitasse a minha proposta.

"Sabe, [sorriso] a gente nem vai precisar fingir que a gente não se conhece da próxima vez que nos virmos, porque não haverá uma próxima vez."

Não seria algo estranho. Qualquer um poderia ter acesso a essa informação. Todo o mundo se programaria da maneira mais conveniente para o dia da sua morte. E, então, quando ele finalmente chegasse, as pessoas cuidariam para que tudo acontecesse da melhor forma possível - embora quase nunca isso fosse uma opção.

Testamentos seriam melhor elaborados, ninguém nunca seria pego de surpresa com uma notícia desagradável e, o mais importante, tenderíamos a dar mais valor aos nossos momentos vividos.

Aqueles que fossem destinados a morrer jovens seriam os mais felizes. Viveriam seus poucos anos de vida de forma despreocupada - jamais teriam que se sustentar, saberiam que nunca passariam por uma forma de solidão tão comum na velhice e poderiam atentar aos seus próprios corpos sem nenhum peso na consciência. Eles passariam noites em claro na intenção de não deixar que nada lhes escapasse.

Quem fosse morrer dentro de pouco tempo provavelmente estaria sempre se perguntando o que viria a causar aquilo, caso estivesse vivendo uma vida totalmente normal naquele momento. Acidente, infarto, doença infecto-contagiosa gravíssima?

Dependendo da idade da morte, nem valeria a pena fazer planos a longo prazo. Então as pessoas seriam felizes assim, e essa seria uma boa justificativa para qualquer coisa. Um bom motivo para gastar todo o salário em besteiras, ou para magoar alguém, talvez para matar alguém (será que o destino do assassinado também estaria previsto?), um motivo bom o suficiente para fazer uma viagem infinita - morrer em um lugar escolhido com calma.

Mas, com certeza, haveria aqueles que prefeririam ser silenciosamente levados da vida.

"E então, quando é que vai ser, hein?" "Não faço idéia."

Como as grávidas que preferem não saber o sexo dos seus bebês. Não é que elas não tenham curiosidade. Talvez gostem de esperar a hora certa (sejam pacientes). Ou desanimadas. Afinal, um dia a hora vai ter que chegar.

Muitos tentariam explicar o seu destino através de coincidências de fatos ligados ao dia da sua morte. Obcecados por números analisariam o horário exato de partida e teriam hora, minuto e segundo fixos em suas memórias, para que tudo o que apresentasse alguma semelhança remota fosse tomado como importante. Placas de carros desconhecidos, números de telefone - para citar obviedades. Eles se aproximariam de pessoas cujo número de RG fosse de alguma forma correspondente à marcação do relógio no instante do seu último suspiro, por exemplo.

Finalmente, o instante tão esperado. Um pescoço quabrando em uma batida de carro. A dor de um punhal rasgando o estômago. Morrer dormindo. Morrer no hospital. Com uma pessoa importante ao lado. Com um cano de revólver enfiado na boca.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

razões pelas quais eu quero ter uma arma

- ela é linda;
- o bebê do andar de cima definitivamente não merece viver;
- ela é linda, brilhante e geladinha;
- eu preciso me proteger (ok, nunca aceitei essa desculpa, não acho que uma pessoa tão pouco destemida como eu esteja mais protegida com uma arma);
- eu quero;
- a minha mãe ficaria possessa;
- eu poderia simular seqüestros, assaltos e muitos outros crimes (poderia, sim);
- eu poderia atirar em alvos e me considerar capaz caso conseguisse acertar o centro.


(A brisa que eu tive ontem à noite, na primeira das várias vezes em que tentei dormir.)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Você está com vontade de desenhar, não sente vontade de sair de casa mas não acha ruim quando sai, pensa que ninguém gosta de você, gosta de pensar que você não gosta de ninguém, tem medo de nunca conseguir gostar de alguém de verdade.

Você tem medo de um monte de coisas. Sempre teve. Talvez já tenha tido mais do que hoje - já teve, com certeza. Você não se sente mais tão mal na frente dos outros. Mas, hoje, tudo é muito mais sem graça do que já foi. Você não se sente melhor do que ninguém, mesmo quando tem motivos para isso.

Você não se acha bonita nem feia, acha as pessoas que você não conhece bonitas e todas as que você conhece, feias. Você não quer ninguém que você conhece. Nem quer se esforçar para conhecer pessoas novas.

Você tem medo de pensar nas coisas que você quer, porque isso é uma garantia de que elas nunca vão acontecer. Você queria, mais do que tudo, que as suas histórias - seus personagens e seus lugares, os problemas inventados e as suas soluções divertidas - fossem reais. Que elas fossem você.

Você provavelmente não quer mais criar histórias. Você quer viver - pela primeira vez na vida. Quer abrir os olhos e sentir as coisas que existem. Que pedaços de papel, tecidos rasgando, marcar encontros, cumprir promessas.

Mas você nunca vai deixar de querer um vício. Falo isso porque eu conheço você. Nunca, nunca mesmo. Nem adianta tentar. Você gosta de se estragar, e tem que ser sozinha. Você nunca deixaria alguém ir tão longe. Ouvir as coisas que você murmura antes de dormir, observar os seus pensamentos passando pelas paredes de um quarto escuro.

Você tem medo de ter medo para sempre. E do sempre. Sempre te incomoda muito. Você odeia não conseguir prever, quer evitar criar vínculos para que, um dia, quando finalmente for a hora certa, você não se sinta culpada.

A verdade é que você não se sente bem. E, se alguém te perguntasse o que você tem de errado, você diria isso, que não se sente bem. E que não tem a menor idéia do que poderia fazer para se sentir melhor. Talvez não propriamente bem, só melhor.

Você costuma achar que está se sentindo bem, quando acontece alguma coisa idiota e você percebe que não é bem assim, que não pode ser bem assim. A coisa idiota acontece e, de repente, você se se dá conta de tudo. Começa a te faltar ar, te faltam palavras - você diz qualquer coisa, para ninguém perceber -, sua garganta fica molhada de lágrimas, você engole em seco e ri. Ri de você.

Depois, você chora de você. Sozinha.

As coisas ruins estão presas dentro de você. Elas nem são mais problemas, são coisas com as quais você se acostumou a viver; você aprendeu a lidar com elas. Você se conformou com muito do que já foi um absurdo para você.

Então, se alguém estapeasse o seu rosto, você nem piscaria. Como já aconteceu muitas vezes. Você não se importa, e acha ridículo que as pessoas se importem. Como você consegue não sentir dor, quando deveria doer?

sábado, 7 de agosto de 2010

Em um dos começos de noite claros (sem crepúsculo, mas com anoitecer), quase o último, imaginei como seria se eu não estivesse mais aqui. Tudo do que eu teria, antes, que tomar providência. Sinais que eu deixaria, mensagens escritas em lugares obscuros, para serem encontrados muito tempo depois.

O que eu deveria dizer às minhas pessoas importantes. Começou com uma carta única, destinada a todos que me conheceram. Acabei adicionando mensagens pessoais, que rapidamente se transformaram em cartas exclusivas, lotadas de detalhes - muitas vezes, explicações que vêm da época do meu primeiro contato com o destinatário. Mentalmente, escrevi cartas a pessoas de quem nunca fui tão próxima, mas que significaram muito para mim.

Concluí que, se eu tivesse que morrer, levaria anos até ter todo esse material pronto. Ou deveria começar antes de estar com a decisão plenamente tomada. Seriam muitas palavras. Coisas que eu nunca disse a ninguém - nem pretendo, de outro modo.

No começo de noite seguinte (oficialmente, o último, que eu me lembre), desisti da comunicação individual para passar a outro patamar: orientações sobre o que fazer com os meus restos. Uma listagem complexa de cada um dos meus atributos físicos, cada pedacinho de mim; eles deveriam se tornar pingentes de colares, material para desenho, talvez até mesmo comida (em segredo, senão ninguém iria querer comer), utensílios dos mais diversos usos.

Imaginei alguém arrancando a minha pele, depois tirando a carne dos meus ossos. Depois alguém distribuindo tudo entre as pessoas certas (citadas na carta de orientação), ou as coisas se distribuindo sozinhas, aparecendo jogadas em meio às bagunças das pessoas. Engraçado imaginar o meu corpo não sendo mais eu. (Estranhamente, eu assistiria ao meu próprio esquartejamento.)