quarta-feira, 27 de outubro de 2010

drafts

Queria você bem triste
Queria te ver no chão
Queria tão machucada
Tão mal, tão ruim (tão linda).

Queria você chorando
Debaixo de um guarda-chuva.
Minha câmera fotografando
As lágrimas da sua chuva.

Queria você bem perto
Na frente do meu viewfinder.

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Queria você bem perto
Na frente do meu viewfinder.
Queria você chorando
Debaixo de um guarda-chuva.

Queria você bem triste
Queria te ver no chão.
Minha câmera fotografando
Suas lágrimas e não a chuva.

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Queria você bem triste
Queria te ver no chão
Queria você chorando
Na frente do meu viewfinder.

Queria você bem perto
Debaixo de um guarda-chuva.
Minha câmera fotografando
Suas lágrimas, mas não a chuva.

Queria você caída
Suplicando, linda, derretida
Em uma poça de chuva.

Queria te ter bem perto...
Minha câmera fotografando
Suas lágrimas; mas não a chuva.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Alguém já percebeu que quase tudo o que eu escrevo começa com "Fiquei imaginando..."? Mas é porque é verdade. Estou o tempo todo imaginando. Freqüentemente, imagino situações impossíveis - o que não me impressiona; me impressiona que as outras pessoas não percam tanto tempo quanto eu imaginando absurdos.

Fiquei imaginando como seria quando eu quisesse terminar. Fiquei me imaginando em um carro, a madrugada do dia que eu já escolhi, garrafas de bebidas caras (seriam as últimas, afinal), uma estrada infinita - porque ela vai e volta, eu poderia dirigir nela para sempre, se eu quisesse - muito escura, as minhas lágrimas e a minha música tocando bem alto. Fiquei imaginando a minha breve despedida (um recado em código, uma mensagem de texto enviada para a lista), que não seria breve por descaso, mas por incapacidade.

Nunca estive tão curiosa para saber se eu vou estar viva daqui a um período de tempo bem curto. Soa tudo muito perfeito. O dia que eu escolhi é perfeito. Tudo vai estar bem mais calmo até lá, eu provavelmente já terei recebido mais umas vinte ou trinta provas de que não deveria estar no mundo e de que a minha vida não pode dar certo; tudo soa perfeito.

Eu não queria estar sorrindo no meu último dia, mas queria que as pessoas se lembrassem de mim com um amor feliz.

Não queria causar aflição. Queria que fosse simplesmente um fato que as pessoas tivessem que aceitar. De repente. Estarei aqui e, no segundo seguinte, não estarei mais. Sem muita dor, mas com muito sofrimento.

Depois, minha imaginação me levou a outros rumos. Afinal, contra o que eu teria que colidir o meu carro em uma estrada deserta? (Imaginei uma daquelas que têm duas mãos na mesma pista.) Contra outro carro seria injusto. Contra uma árvore ou um cercado de acostamento teria grandes chances de dar errado - ou seja, não morrer . Me jogar de um barranco seria difícil, e também não seria garantido.

Pensei em pulsos e sangue, um partido que eu nunca achei que fosse o melhor. Se eu sobrevivesse, poderia ficar em estado vegetativo por décadas. Descobri como se faz o corte da melhor maneira. Mesmo assim, seria doloroso. O que eu não acho que seja um agravante, porque essa seria a minha última dor. Tenho pena de quem me encontraria mergulhada em uma poça de sangue, sem cor no rosto e de olhos virados, sem roupa, jogada no chão do meu quarto. Isso também seria injusto.

É que às vezes eu me sinto tão triste que tenho vontade de me machucar muito. E acho que, pela primeira vez na vida, sinto que eu não tenho nada a perder.

Quando eu era mais nova, tinha esperanças em relação ao meu futuro. Vivi momentos bons desde então, talvez os meus melhores momentos. (Então, se tiver que acabar, que não seja na decadência.)

sábado, 23 de outubro de 2010

injustiça

Se apaixonar por alguém é algo que pode acontecer ao longo de cinco segundos. Mas se desapaixonar pode levar anos.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Fiquei lendo aquele bilhete mil vezes, apertei o papel e o amassei e quase estraguei tudo, a tinta da caneta ficou impressa na minha mão. Eu não conseguia sorrir, porque era lindo demais, nem conseguia tirar as rugas da minha testa (porque era lindo demais). Era tão lindo que uma das minhas sobrancelhas não conseguia mais ficar na altura certa. Meus dentes batiam de amor.

Pensei por horas no que eu poderia responder. Escrevi centenas de tentativas. Tinha que ser casual, como o bilhete dela. Muito papel foi se amontoando à minha frente. Primeiro, guardanapos. Depois, folhas de papel, que eu achei que seria mais adequado. Mais tinta sujando as minhas mãos. Não podia ser impreciso. Nem longo demais. Eu escrevia em mim em vez de escrever nos papéis. Eu escrevia na mesa, na xícara do café que eu já tinha tomado, no pires da minha xícara, em livros que não eram meus e por cima das matérias de um jornal abandonado, eu escreveria na caneta se fosse possível.

É claro que o bilhete dela tinha sido uma resposta, não é como se ela tivesse me escrito com a sua própria espontaneidade. Ainda assim, era um bilhete que ela tinha escrito para mim, palavras em que ela tinha pensado para me escrever; ela tinha pensado em mim por alguns instantes (alguns minutos, talvez), aquilo não tinha tomado todo o dia dela como havia tomado o meu, tenho certeza, mas, de toda forma, ela tinha pensado em mim.

No meu primeiro bilhete, eu disse que naquele dia tinha lembrado dela. Me perguntei se ela saberia que eu penso nela o tempo todo.

Me perguntei se eu estaria sendo incoveniente, talvez eu não devesse ter ido atrás dela só porque havia lembrado dela por um motivo besta; só então percebi que a gente só havia se falado umas cinco vezes na vida. Bom, talvez um pouco mais. Mas não mais que dez. É que acho que eu achava que ela podia entender como eu andava me sentido, que ela podia ver os meus pensamentos sobre ela o tempo todo.

Se ela pudesse, ou me amaria ou me odiaria. Como ela não podia, provavelmente devia achar que eu nem estava ligando. Que aquilo tudo tinha sido normal para mim. Bom, não tinha. Foi bem melhor do que normal. E bem pior do que normal.

(É a minha história e pronto: está ouvindo? Eu me apaixonei. Caí de quatro. Me derrubou. Fiquei feliz, depois fiquei um farrapo. Fazer o quê?)

Eu queria escrever alguma coisa óbvia, para tentar não mostrar os meus sentimentos, ao mesmo tempo que queria que ela percebesse que eu me importava. E que eu poderia estar esperando. (Eu estou esperando.)

Não sei muito bem o que eu queria no final (do mundo, da minha vida, da vida dela). Só consigo pensar em situações pontuais. E, se não houver mais ninguém, nunca mais, capaz de olhar para mim, que não haja.

(Quando me fez cair de quatro ela também me deixou invisível.)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Que tal dormir que tal ossos não doendo que tal não sentir frio que tal idéias e que tal cabeça que tal alguém que tal você que tal eu que tal uma névoa e que tal sair de perto de toda essa gente que tal um dia assim um dia que tal um dia se você me olhasse assim não hoje que tal um dia que tal se eu fosse muito muito grande e você fosse legal legal que tal sapatos e tirar sapatos que tal imagens passando bem rápido dentro da cabeça que tal se essas imagens não fossem só minhas que tal se a gente dividisse um drink e que tal se você nunca me dissesse mentiras que tal ficar aqui deitada para sempre que tal observar as pessoas passando ao longo dos anos que tal aquele cara que a gente odeia ficando velho que tal ser jovem para sempre que tal verdade e que tal amor que tal não ter mais que impressionar as pessoas que tal parar de fingir que tal isso que tal tudo que tal um dia que tal um dia parar de fingir que tal se tudo estivesse bem que tal não ter mais que fingir que está tudo bem que tal levantar desse chão de concreto que tal poder escolher entre ele e uma caminha quentinha que tal um abracinho quentinho que tal uma mãozinha maciazinha que tal um amorzinho que tal se você fechasse os seus olhos agora que tal se eu fechasse os meus olhos agora que tal o quê que tal tantas coisas que tal se eu te escrevesse uma carta e nessa carta que tal se eu te escrevesse como eu me sinto daí que tal se você me respondesse só com um sorriso que tal se eu te escrevesse cartas sempre e que tal se você me respondesse sempre com um sorriso que tal se você gostasse das minhas cartas e que tal se você sorrisse com sinceridade que tal se você não dissesse mentiras que tal se não falássemos nada que tal seria seria que tal um pouco e que tal um muito