Era eu, de novo, sentada em uma cadeira grande demais sem coneguir relaxar, pensando no que iria fazer dali em diante. Era eu com rugas na testa, o bloco de papel e a caneta que eu deveria ter levado comigo.
Eram idéias surgindo que foram parar em algum lugar qualquer, frases prontas que poderiam ser refrões de músicas sem instrumentos, poemas.
Era ela, com as suas mãos quentes (sempre muito mais quentes do que as minhas), soluçando com discrição. Quantas vezes já tínhamos compartilhado soluços, mãos quentes, quantas vezes eu já tinha pensado em abraçá-la tendo desistido no meio do caminho - e quantas vezes isso continuaria a acontecer, as botas pesando do mesmo jeito, a tristeza vindo como um gancho que nos unia pela parte de cima das costas - eu não seria capaz de responder.
Todos vinham agasalhados; muito mais bonitos, naturalmente, eu me sentia bonita e essa era a minha maior punição: o mundo estava acabando e eu me sentia bonita.
Dentre as coisas que eu não disse para ele, está quase tudo o que eu penso sobre o mundo. A visão que ele tinha de mim provavelmente é de uma criança de onze anos que gosta de chocolate, ou de uma menina ingênua que não consegue aprender as coisas que é ensinada na escola. Ele não me conhecia de verdade. Não como eu sou hoje, meus gostos e cada uma das minhas preferências.
Ele sabia o que eu queria da minha vida? Ele se preocupava - tenho certeza -, ele queria o meu bem e eu nunca quis o seu mal, éramos pessoas distantes há alguns anos, e ele sabia como fazer piada com isso. Nunca duvidei de que ele se sentisse triste. Era ele quem se sentia pior, o nosso sofrimento nunca poderia compensar o dele, nós sempre soubemos disso e nunca pensamos em como seria se não estivéssemos mais disponíveis.
Ele se destruía todos os dias, e parecia não poder se sentir tranqüilo até que destruísse tudo ao seu redor. Nesse ponto, ele era eu, os motivos que me fizeram tentar acabar comigo mesma, minha mãe disse que ele se cobrava muito, 'Nisso vocês são muito parecidos'.
E, enfim, eu tenho a chance de mostrar que posso dar certo. Tenho uma desculpa para olhar para frente e nunca mais querer olhar para trás, a Paula costuma dizer que o futuro está muito mais perto porque o passado nunca mais poderá ser tocado, fecho os olhos e imagino uma piscina azul infinita, sou eu debaixo d'água nadando com dificuldade, a água que está perto de mim é azul clara e às vezes eu até consigo perceber o fundo da piscina, a água que está longe de mim é azul bem escura e vai se tornando clara conforme persisto me movimentando.
Há muita água em cima de mim: se eu quisesse voltar para respirar, não saberia como, porque não daria tempo.
Meio parecido com a expansão do universo. Se o seu tamanho não tem fim, como eu poderia dizer se estamos parados desde que chegamos ao ponto onde começamos a existir? (Ou talvez não seja muito parecido.)
Talvez não seja o fim de uma etapa. Pode ser só a continuação de um processo longo e difícil, mais antigo do que a minha própria vida. E que perdurará por muito mais tempo, aquelas pessoas têm histórias diferentes, contam versões para fatos encarados sob inúmeros pontos de vista.
Mas é a minha vez e o meu tempo, penso no que eu quero fazer da memória dele, da minha memória, meus gestos podem ser decisivos. Nunca mais pensar em jogar o carro da ponte (embora isso só tenha acontecido uma vez), sem opção de misturar remédios para esquizofrenia com gim tônica, eu não vou mais abaixar a cabeça, nem quando o mundo estiver apoiado em cima de mim - nem antes e provavelmente nem depois dos 22 anos.
Descobri muitas coisas sozinha, tive ajuda de muitas pessoas que se importam comigo e para as quais eu sei que sou importante, e aos poucos reparei que posso ser fria se for necessário.
Encarar o mundo sem deixar cair uma lágrima, e ainda assim ser a pessoa mais sensível de todas. Sou um escudo e posso ser usada por quem quer que precise ser protegido, eu queria poder ajudar todos aqueles que eu considero especiais, sua dor se transformaria na minha dor, porque eu sei como lidar com isso, sei enfrentar o que for preciso, nunca mais tenha receio em pedir ajuda, nem pense que eu fico triste quando deixam de me perguntar como eu me sinto.
Eu simplesmente não me sinto, e isso é muito mais forte do que eu. Não nessa vida.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
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