domingo, 14 de outubro de 2012

Imagina se a sua cabeça nunca mais doesse, se a sua testa nunca mais ficasse quente. Imagina se você conseguisse encontrar situações estimulantes, pessoas interessantes. Coisas que te fizessem bem.

Sonhei com um protesto, eram muitas pessoas carregando bandeiras. Eu tentava chegar, no contrafluxo, ao aeroporto, junto com outras tantas pessoas. Os protestantes não sabiam, mas sua ação terminaria em um cerco fechado, uma suposta festa em uma casa tomada pela polícia. Ali eles seriam torturados e, depois, detidos. O caminho era difícil, tínhamos que subir em árvores e pular em prédios para avançar na contrapartida da multidão mobilizada. Tínhamos pressa, não podíamos perder o voo. Mas o cenário era apocalíptico, muito provavelmente o avião não decolaria. Além disso, meu corpo estava todo cheio de machucados, eu tinha caído diversas vezes em um espinheiro enquanto tentava aprender a esquiar, no dia anterior. Os espinhos eram muitos, e ainda estavam embaixo da minha pele, inflamando.

Imagina um quarto, e imagina uma vida. Imagina o futuro. Não dá. A sua vida pára hoje? A sua vida pára quando? Só porque você não consegue imaginar não quer dizer que não vai conseguir viver.

Quando finalmente chegamos ao aeroporto, me pediram meu passaporte. Comecei a procurá-lo na sacola de papel que eu carregava. Tudo o que eu encontrei foram as minhas coisas submersas em um monte de maconha. Tirei o passaporte da sacola, torcendo para que a moça da companhia aérea não percebesse a maconha, embora isso fosse quase impossível. Consegui enfiar um baseado e um monte de maconha no bolso e respirei fundo antes de me adiantar para colocar a sacola na esteira do raio x. De repente, um aviso: Vocês não vão poder embarcar. Fiquei aliviada, eu teria tempo de me livrar de toda aquela maconha. O aviso, que podia ser ouvido pelo autofalante, continuava dizendo que não poderíamos voltar ao Brasil, mas que havia um voo para o México. Eu precisava muito voltar ao Brasil, mas, de repente, o voo para o México parecia ser uma boa ideia. Eu ficava feliz e começava a gritar.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Aconteceu mais uma vez. A sensação de perda de sentido. Ela esquenta a parte de trás do pescoço, sobe pela cabeça e quer sair pelos olhos.

Você não se sentia assim faz algum tempo, não é verdade? Não, não é verdade. Você se sentiu assim há pouquíssimo tempo. (Você se lembra e ri de você mesma, mas logo volta a se preocupar.)

Por que tinha que ser assim? Essa é uma pergunta recorrente para os mais diferentes assuntos, mas que, aparentemente, vai continuar surgindo sempre, durante toda a sua vida.

Me incomoda um pouco isso - eu falando comigo mesma e me tratando por você -, mas sinto que não sou eu que estou falando comigo mesma. É uma outra pessoa, mais esperta, muito mais emocionalmente estável e feliz.

Chega. Você precisa se livrar de algumas coisas e aprender a manter o que te faz bem.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

diário de viagem

Faltava alguma coisa amável naquilo tudo. Não, não que eu quisesse amor - eu já tinha decidido que eu não queria. Mas também não queria deixar de me sentir como uma pessoa. E isso me levou a pensar no que realmente é o amor, e por que precisamos que ele exista.

Quer dizer, precisamos? Eu acredito que sim. E acho que isso faz de mim humana (não essa crença, mas a necessidade do amor). Então, se não existisse amor - ou se simplesmente não fôssemos (ou se não pudéssemos) ser capazes de senti-lo -, seríamos menos humanos. Menos sentimentais; mais objetivos, mais práticos e mecânicos.

Fico pensando em tudo o que eu arrancaria da minha vida que pudesse ser guardado dentro de uma caixa que trouxesse a palavra AMOR gravada na tampa, e cada uma delas perpassa por emoções muito fortes, que me abalam muito.

Odeio a sensação de estar misturando sexo com amor. Mas, mais ainda, de confundir amor com vitória. Amor não é uma conquista; não é ruim não ser amado por ninguém, assim como não é necessariamente bom ser amado por alguém. Na minha cabeça, sexo é uma conquista. E, se as pessoas não misturassem sexo com amor, poderiam ter vidas amorosas mais tranquilas e vidas sexuais mais agitadas.

Sexo é instintivo. Uma atração é inexplicável; conseguir fazer atrair é animal. Mas nem sempre nos deixamos atrair porque costumamos querer enxergar algo que se relacione a amor – ou à falta dele.


diário de viagem

Muitos pensamentos correndo. É uma sala grande, um pátio, e eles tropeçam uns nos outros tentando se mexer. Não pedem desculpas, nem se importam em exigir desculpas. Atropelam-se. Uns caem no chão e outros passam por cima. Todos parecem ser iguais, mas, não se sabe por que, nem todos caem. E nem todos passam por cima. Quase nenhum oferece ajuda para levantar.

***

Odeio as frases que ficam presas na minha cabeça. Gosto mais das imagens, que aparecem para mim de repente. Um quarto escuro na madrugada de Berlin, ela sentada sobre as minhas costelas me olhando e sorrindo.

O calor de um corpo quente e

"Oh fuck."

"Are you in a relationship?"

Uma cabeça deitada no meu colo. No táxi, é de manhã mas o sol ainda vai demorar para surgir no horizonte. Coloco as minhas mãos sobre o rosto dela. Melhor: uma das mãos. A outra fica no seu cabelo. Eu gosto de cabelos.

"You've got such an amazing kiss!" (...) "I have the perfect amount of fat. Look. I'll show you."

Abaixo a minha cabeça para chegar perto da dela, dobrando as minhas costas. Isso provavelmente machuca a minha coluna, mas eu não estou sentindo. Um beijo no rosto. As mãos dela por trás da minha cabeça. A boca dela cheira a cigarros. Eu adoro isso. Todas as garotas mais especiais, elas foram sempre fumantes? Pensando agora, acho que sim. Não; tenho certeza de que sim.

O cheiro do cigarro traz uma lembrança boa. É uma sinestesia, eu acho. Minha cabeça associou o cheiro a uma sensação agradável. O cheiro e o gosto. Gosto de sentir gosto de cerveja na boca dos outros.

***

terça-feira, 22 de maio de 2012

diário de viagem

O último contato delas foi um aperto de mão. (Contato físico - que é o que, no fundo, conta.) E então tinham sido xícaras de chá, shots de vodka, suco de maçã e batata. Conversas sinceras sobre pessoas próximas, verdades sendo ditas sem que consequências fossem temidas, já que, de fato, não haveria consequências. Estados de espírito revelados um a um, ou todos de uma vez, já que o estado de espírito é sempre um só a cada momento. Afinal, lembranças.

O primeiro contato delas foi um aperto de mão. Cada uma dizendo seu próprio nome em voz alta, sorrisos sendo trocados. Conversaram sobre banalidades (da onde, por que aqui, por que agora, quando e em que lugar) por não muito tempo. Sentadas com alguma distância entre si, elas jamais imaginariam que, dentro de alguns dias, estariam tão próximas uma da outra.