sexta-feira, 20 de maio de 2011

Eu queria tirar alguns dias do calendário.

Se eu pudesse tirar do calendário os dias que me trazem memórias tristes, eu certamente não precisaria mais viver.

(Odeio como as datas me fazem lembrar.)

(E isso porque eu nem vivi muito.)

Eu queria apagar algumas lembranças da minha cabeça. Apagar algumas pessoas que passaram pela minha vida, e deixaram marcas desagradáveis. Em geral, porque foram embora. (Pessoas que ficam não deixam saudades, nem a sensação do que poderia ter acontecido.)

Eu queria viver sem ter que ficar me lembrando o tempo todo.

(Quase nunca estou vivendo o meu presente. Ou estou vivendo lembranças, ou estou vivendo situações inventadas, que não são a minha vida de verdade. Estranhamente, inventar faz com que eu me sinta muito bem. São alguns segundos de uma vida perfeita para horas, dias, semanas da minha vida sem graça, cheia de defeitos.

Fico me perguntando o que eu seria sem a minha imaginação. Nada além de nada, talvez eu nem existisse fisicamente.

O problema é que eu tenho uma tendência particularmente grande de transformar as maiores trivialidades do mundo em paranóia. Numero tudo o que for quantificável. E exijo de mim mesma uma explicação lógica para o que quer que os números possam representar.

Me descubro propondo desafios a mim mesma, me cobrando situações e metas que eu mesma me impus.)

Eu queria que alguém se sentisse como eu me sinto. Não porque eu quisesse a compaixão de alguém, mas porque eu queria conversar com alguém sobre os meus sentimentos. (Como só eu sou capaz de senti-los, ninguém nunca vai conseguir realmente entender como eu me sinto.)

É que eu acho que isso tem sido uma coisa importante para mim - como eu me sinto -, e não vejo a maioria das pessoas dando tanto valor a isso.

Eu queria não ter vergonha de me sentir como eu me sinto. Porque, se eu não tivesse vergonha, eu poderia contar para alguém o que se passa dentro da minha cabeça. Por mais que as pessoas não entendessem, acho que eu me sentiria mais leve por sentir que eu poderia falar.

(Mas deve existir mais gente no mundo com a mente atormentada que não tem coragem de falar como se sente.)

(Eu queria que as pessoas pudessem contar aos outros como se sentem.)

Eu queria poder contar como eu me sinto. Se eu pudesse, talvez não precisasse tirar alguns dias do calendário. (Porque, talvez, eu não tivesse memórias tão tristes. Talvez existam pessoas com memórias parecidas com as minhas.) Se as pessoas escutassem umas às outras, talvez pudéssemos viver todos os dias do calendário sem sofrer pelo passado, viver cada um dos dias sem pensar em como, nos próximos anos, eles serão lembrados pelas tristezas que os deixarão marcados para sempre.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Quando eu me sinto muito muito triste, sei que eu preciso começar a criar. Invento pessoas para a minha vida ou para a vida dos outros (como se eu fosse os outros), pessoas que interajam comigo ou entre si e, por isso, fazem com que eu me sinta melhor.

Pessoas que coloquem palavras na minha boca e em quem eu possa influenciar nas ações - algo que eu não posso fazer na minha vida real.

Essa é a função dos meus personagens: viver. Eles vivem por mim. Tudo o que eu queria que acontecesse comigo, ainda que não as melhores coisas do mundo, podem ser vividas pelos meus personagens. Às vezes, também faço com que eles vivam as situações que eu vivi. Mas eles nem sempre tomam as decisões que eu realmente tomei. Na verdade, quase sempre, conseguem agir melhor, porque eu já pensei sobre tudo o que eles têm que fazer muito antes de que eles tenham que fazer.

Eles representam as coisas em que eu acredito. São metáforas da minha existência. Ou negações de problemas que eu queria que não existissem. Eles são reflexivos, complexos, embora aparentem sempre ser pessoas vazias, planas. Que é o que eu acho que eu aparento ser, para o mundo. E o que eu tenho mais medo de ser, no mundo.

Penso muito sobre tudo, e isso me destrói ao mesmo tempo que me faz uma pessoa melhor e maior do que qualquer coisa que eu ambicionaria ser. Criei uma antipatia por pessoas que não pensam. Passei a odiar diálogos vazios, embora eu saiba que eu precise deles, de vez em quando.

Posso aceitar diálogos vazios mas não opiniões vazias, ou a falta delas. (Estranho, porque eu sempre me considerei uma pessoa sem opinião, e nunca senti vergonha por isso.) Mas não quero ser maniqueísta, e rotular as pessoas entre inteligentes e burras, interessantes e desinteressantes, opinadoras e não-opinadoras. Mas preciso de pessoas que queiram discutir. Isso é algo importante. Não sei o que pensar sobre muitas coisas antes de discuti-las com alguém, ou de ouvir alguém falando sobre algo.

Ouvir. Sempre foi mais importante do que falar, para mim. Às vezes mudo de opinião enquanto estou falando. E não falo se não tiver certeza do resultado que eu esteja buscando. Acho difícil falar, sempre achei, mas acho que fui melhorando ao longo do anos; sempre achei mais fácil escrever (preciso de tempo para encontrar as palavras certas, e para ter certeza do que eu quero que seja entendido como uma opinião minha), mesmo sabendo que as palavras escritas ficam, enquanto as palavras faladas existem por um único momento, até se tornarem distorções das memórias alheias.

Mas eu falava sobre os meus personagens. Descobri que eu tenho conversado comigo mesma. Na verdade, os meus personagens é que têm conversado comigo; o grande problema é que eles falam com a minha boca, com a minha voz - ou seja, eu falo por eles. Eu dou conselhos para mim mesma. Eu me enfrento, me critico. Em voz alta.

Sempre tive medo de me perder nas minhas histórias. De chegar a um ponto em que eu não soubesse mais quem eu sou, ou de começar a incorporar outras personalidades (as dos meus personagens), ou até de passar a agir como se os meus personagens estivessem, o tempo todo, ao meu redor. Antes eu só ouvia vozes, agora respondo.

É difícil ouvir a minha própria voz me enfrentando. Me fazendo perguntas complicadas e sem resposta, às vezes perguntas retóricas, me mandando fazer muitas coisas, enfim, me obrigando a viver uma realidade que não parece querer ser vivida por mim. No fundo, eu não consigo entender, e ela não me ajuda a esclarecer nada. Parece que eu procuro problemas. Remexo caixas com papéis velhos, abro armários de pessoas que já morreram, revisto tudo o que for preciso para encontrá-los. De tanto procurar soluções, acabo encontrando problemas, e adotando-os como se fossem meus filhos, problemas de pessoas que nem ligam para eles, problemas que as pessoas já superaram, problemas que nem mesmo existem, mas poderiam existir.

Um jeito particularmente simples que a minha mente me ensinou para me fazer sofrer é me forçar a imaginar como as coisas poderiam ser bem ruins. Através da perda de pessoas especiais, ou da quebra de situações estáveis demais. Da mesma maneira que a minha imaginação traz para mim imagens coloridas, alegres e estonteantemente perfeitas para me fazer melhor, ela também sabe como me deixar triste. E nada é mais triste do que a tristeza que eu invento para mim, assim como nada é mais feliz do que a felicidade falsa que eu me imagino vivendo - e que não poderia ser vivida por ninguém, e não será.