Mãos meladas de sobremesa, não queria sujar o mouse e o teclado, mas ao mesmo tempo estou com preguiça de me levantar e lavar as mãos, porque aí eu não iria mais querer voltar para o computador.
Preciso ir até a auto-escola fazer burocracia e acabei de descobrir que tive aula ontem à noite. Será que tem hoje também? Que droga, ninguém consegue me dar uma porcaria de informação certa. Sonho muito com aquele momento das pessoas se apresentando na classe (estilo reunião de narcóticos anônimos, com a diferença de que nos narcóticos seu passado nem sempre é uma coisa boa a ponto de ser revelada), mas parece que vou ter que manter essa idéia só no pensamento.
Sempre penso na Paula contando como foi a primeira aula dela na História (talvez porque ela já tenha me contado milhões de vezes), o professor perguntou porque as pessoas tinham decidido fazer História; "Mas não venham me dizer que é porque vocês gostam de História".
Se me perguntassem o motivo pelo qual eu escolhi fazer design, eu não saberia muito bem o que responder. Eu teria que citar editoração, letras e frustração e, claro, NY, o Buckminster e mais uns dois caras que eu não sei bem o nome mas que até seria interessante pesquisar (o arquiteto japonês do New Museum e o designer daquela mesa branca dos anos 50, sabe?), o meu relógio do Andy Warhol e, por falar em Andy Warhol, o meu medo em me tornar uma pessoa conservadora e obsoleta. A minha vontade de ajudar as pessoas com arte, apesar de a palavra arte não soar tão bem nessa frase para muita gente.
Enfim, não vou entrar nessa discussão - e quem vai?
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Quanto mais tempo eu tenho, menos tenho vontade de fazer as coisas. Agora que eu posso ler livros, ouvir música... Não consigo ficar sem obrigações. Se elas não forem milhares, dá pra fazer o tempo render bem mais, organizando e dividindo as horas em intervalos regulares de aproveitamento quase integral.
Ao invés de aumentar a minha cultura (não estou assistindo aos filmes que planejei, as idas ao cinema nem tem sido tão constantes assim, nem abri os dois livros sobre design/arquitetura que a minha mãe me mandou ler, a Ana Karênina tem ido devagar quase parando), praticar um esporte, escrever, designar, conversar com as pessoas, o que eu mais tenho feito é descansar e jogar tetris. Infeliz assim.
Bom, até consigo fazer uma ou outra coisa de vez em quando, mas sinto falta de ter horários determinados, de chegar ao final de um dia e me sentir cansada, de achar que eu realmente mereço comer ou dormir. É bom não ter planos nem hora para voltar para casa, é claro, só que não por muito tempo. Na primeira semana de férias - depois de um ano ininterrupto de cursinho - isso foi mais emocionante do que nunca; agora, deixa as minhas pernas flácidas.
Se não fosse tão tarde, eu arrumava um emprego de verão, me matriculava em um curso intensivo de línguas, me inscrevia como monitora de colônia de férias, qualquer coisa. Ai, que tédio.
Ao invés de aumentar a minha cultura (não estou assistindo aos filmes que planejei, as idas ao cinema nem tem sido tão constantes assim, nem abri os dois livros sobre design/arquitetura que a minha mãe me mandou ler, a Ana Karênina tem ido devagar quase parando), praticar um esporte, escrever, designar, conversar com as pessoas, o que eu mais tenho feito é descansar e jogar tetris. Infeliz assim.
Bom, até consigo fazer uma ou outra coisa de vez em quando, mas sinto falta de ter horários determinados, de chegar ao final de um dia e me sentir cansada, de achar que eu realmente mereço comer ou dormir. É bom não ter planos nem hora para voltar para casa, é claro, só que não por muito tempo. Na primeira semana de férias - depois de um ano ininterrupto de cursinho - isso foi mais emocionante do que nunca; agora, deixa as minhas pernas flácidas.
Se não fosse tão tarde, eu arrumava um emprego de verão, me matriculava em um curso intensivo de línguas, me inscrevia como monitora de colônia de férias, qualquer coisa. Ai, que tédio.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
CFC roots
O condutor de transporte coletivo tem o dever de:
a) Usar gravata
b) Ser amigo do cobrador
c) Cumprimentar os passageiros
d) Usar óculos escuros
e) Parar em todos os pontos obrigatórios
a) Usar gravata
b) Ser amigo do cobrador
c) Cumprimentar os passageiros
d) Usar óculos escuros
e) Parar em todos os pontos obrigatórios
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
O sono (ou fadiga, ou vontade de morrer) que eu sinto todos os dias a todos os momentos - talvez mais de manhã e mais ainda depois do almoço - foi diagnosticado pela minha mãe: tudo culpa do meu anti-histamínico.
Uma amiga dela começou a tomar esse mesmo remédio há muito pouco tempo e disse que tem sentido um cansaço alucinante. Minha avó concordou com a versão da moça, dizendo que só consegue tomá-lo logo antes de dormir.
Um passo adiante, enfim. E eu que achava que nunca mais ia conseguir correr, que nunca ia poder ter forças para ler à tarde outra vez...
Sinto raiva do desgraçado do médico, que jurou que "os anti-histamínicos modernos" não dão sono. É verdade que, tomando o remédio à noite ao invés de de manhã, talvez eu fique com coceiras e pãezinhos vermelhos por todo o corpo durante o dia, mas melhor do que fechar os olhos na cara das pessoas.
Só de pensar nos pãezinhos vermelhos já sinto uma coceira. Sei que, se eu começar a coçar, não vou parar nunca mais. A coceira inicial pode ser só psicológica, mas, depois do primeiro arranhão na pele, nada será como antes. Aprendi no sofrimento que não devo coçar. Eu tento, tento, e até consigo, só que, quando perco a atenção por um segundo e páro de pensar na coceira, minhas unhas já estão ali - às vezes até arrancando pedaços de mim mesma -, sem que eu pudesse me dar conta.
Parece uma ação de má fé, mas não é, juro. É mais forte do que eu, um instinto. Então é só esperar e os calombos começam a sugir, primeiro bolinhas pequenas, depois todas elas se juntam em placas enormes do tamanho dos membros que estão ocupando; elas crescem, formando saliências horríveis.
Antes eu passava Fenergan por empirismo (alergia, afinal) e funcionava. O médico proibiu porque não tinha "nada a ver com o problema", me receitou um remédio para dormir e ficou por isso mesmo.
Uma amiga dela começou a tomar esse mesmo remédio há muito pouco tempo e disse que tem sentido um cansaço alucinante. Minha avó concordou com a versão da moça, dizendo que só consegue tomá-lo logo antes de dormir.
Um passo adiante, enfim. E eu que achava que nunca mais ia conseguir correr, que nunca ia poder ter forças para ler à tarde outra vez...
Sinto raiva do desgraçado do médico, que jurou que "os anti-histamínicos modernos" não dão sono. É verdade que, tomando o remédio à noite ao invés de de manhã, talvez eu fique com coceiras e pãezinhos vermelhos por todo o corpo durante o dia, mas melhor do que fechar os olhos na cara das pessoas.
Só de pensar nos pãezinhos vermelhos já sinto uma coceira. Sei que, se eu começar a coçar, não vou parar nunca mais. A coceira inicial pode ser só psicológica, mas, depois do primeiro arranhão na pele, nada será como antes. Aprendi no sofrimento que não devo coçar. Eu tento, tento, e até consigo, só que, quando perco a atenção por um segundo e páro de pensar na coceira, minhas unhas já estão ali - às vezes até arrancando pedaços de mim mesma -, sem que eu pudesse me dar conta.
Parece uma ação de má fé, mas não é, juro. É mais forte do que eu, um instinto. Então é só esperar e os calombos começam a sugir, primeiro bolinhas pequenas, depois todas elas se juntam em placas enormes do tamanho dos membros que estão ocupando; elas crescem, formando saliências horríveis.
Antes eu passava Fenergan por empirismo (alergia, afinal) e funcionava. O médico proibiu porque não tinha "nada a ver com o problema", me receitou um remédio para dormir e ficou por isso mesmo.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Comecei a criar personagens quando tive a certeza de que nunca conseguiria me apaixonar por uma pessoa do mundo real.
Assim surgiu o Alex, um garoto de 17 anos que mais tarde se tornaria o marido da Anna, minha protagonista em primeira pessoa. Quando foi criado, ele era o meu namorado norte-americano. Tem um pouco do Alex Kapranos (o cabelo, a altura e o corpo skinny; o olhar verde piedoso) e, basicamente, os valores de personalidade que eu sempre busquei em um homem: bonito e bobo.
Conheci o Alex em uma viagem longa aos EUA, quando tinha 15 ou quase 16 anos. Seus amigos se tornaram os meus amigos, era bom poder pensar em inglês de vez em quando. Entre eles, havia uma garota da minha idade que namorava um amigo do Alex mas que, apesar disso, foi a minha primeira garota. Ela era o que eu imaginava da Meg adolescente: o cabelo como em De Stijl, mais magra do que hoje e bem mais baixa do que eu. Essa garota, que nunca teve um nome totalmente definido, serviu de base para a criação da Lisa, a namorada da Anna, assim como serviram traços da própria Meg adulta.
Os outros amigos do Alex não tinham características individuais: estavam sempre todos juntos e gostavam de muitas drogas e de brincar de strip Twister (funcionavam como figurantes). Esse tipo de grupo era exatamente como eu achava que os amigos da Meg deviam ser, só que estes eram mais velhos, é claro, e, por isso, ainda mais extravagantes. Os homens, lindos, cultivavam as suas barbas mal feitas; todos faziam sexo uns com os outros o tempo todo.
Em outras narrativas, eu namorava a Meg; ou seja, estava sujeita a essa vida desgovernada. O nosso relacionamento era - muito por causa disso - tão problemático quanto sincero. Eu costumava me sentir triste ao vê-la com outras pessoas, ela não podia apenas me amar? Mas ela tinha o dobro da minha idade e provavelmente sabia o que estava fazendo, e só o que eu sabia era que não podia me deixar abalar. Vivia para ela sempre, mesmo quando estava no Brasil e ela nos EUA. Por mais que eu sofresse, não podia me transformar em um mártir do meu amor por ela.
Parte dos figurantes antigos, entretanto, precisarão se tornar coadjuvantes. Tenho algumas cenas ainda na memória, e posso utilizá-las para construir características. Preciso de um Thomas, melhor amigo do Alex, para namorar a Lisa; preciso de amigas para a Anna.
Assim surgiu o Alex, um garoto de 17 anos que mais tarde se tornaria o marido da Anna, minha protagonista em primeira pessoa. Quando foi criado, ele era o meu namorado norte-americano. Tem um pouco do Alex Kapranos (o cabelo, a altura e o corpo skinny; o olhar verde piedoso) e, basicamente, os valores de personalidade que eu sempre busquei em um homem: bonito e bobo.
Conheci o Alex em uma viagem longa aos EUA, quando tinha 15 ou quase 16 anos. Seus amigos se tornaram os meus amigos, era bom poder pensar em inglês de vez em quando. Entre eles, havia uma garota da minha idade que namorava um amigo do Alex mas que, apesar disso, foi a minha primeira garota. Ela era o que eu imaginava da Meg adolescente: o cabelo como em De Stijl, mais magra do que hoje e bem mais baixa do que eu. Essa garota, que nunca teve um nome totalmente definido, serviu de base para a criação da Lisa, a namorada da Anna, assim como serviram traços da própria Meg adulta.
Os outros amigos do Alex não tinham características individuais: estavam sempre todos juntos e gostavam de muitas drogas e de brincar de strip Twister (funcionavam como figurantes). Esse tipo de grupo era exatamente como eu achava que os amigos da Meg deviam ser, só que estes eram mais velhos, é claro, e, por isso, ainda mais extravagantes. Os homens, lindos, cultivavam as suas barbas mal feitas; todos faziam sexo uns com os outros o tempo todo.
Em outras narrativas, eu namorava a Meg; ou seja, estava sujeita a essa vida desgovernada. O nosso relacionamento era - muito por causa disso - tão problemático quanto sincero. Eu costumava me sentir triste ao vê-la com outras pessoas, ela não podia apenas me amar? Mas ela tinha o dobro da minha idade e provavelmente sabia o que estava fazendo, e só o que eu sabia era que não podia me deixar abalar. Vivia para ela sempre, mesmo quando estava no Brasil e ela nos EUA. Por mais que eu sofresse, não podia me transformar em um mártir do meu amor por ela.
Parte dos figurantes antigos, entretanto, precisarão se tornar coadjuvantes. Tenho algumas cenas ainda na memória, e posso utilizá-las para construir características. Preciso de um Thomas, melhor amigo do Alex, para namorar a Lisa; preciso de amigas para a Anna.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Inveja não é sempre um sentimento substitutivo, do tipo querer que o outro morra só para você poder ser ele, com todos os seus atributos, realizações e dinheiro. Talvez você nem quisesse roubar nada dele, só queria poder ser o que ele é, se sentir bem daquele jeito, nem que por muito pouco tempo, por motivos muito específicos em situações cruciais.
Ciúme tem posse e egoísmo, repare nos seus dentes cerrando quando você pensa em ciúme. Mas tem uma tristeza intrínseca, também, já que tudo o que você queria era estar no lugar de outra pessoa, com a diferença de que você não precisaria ser a outra pessoa.
Ciúme e inveja fazem com que você se sinta mais fraco. No meu caso, pelo menos.
Olho em volta e penso em tudo o que as pessoas têm e eu não, de sapatos a namorados, e isso me diminui ao tamanho de uma lágrima. Essa é a minha inveja, e ela faz não com que eu deseje o mal dos outros, e sim o meu próprio mal.
O meu ciúme também me derruba. É uma conseqüência da minha inveja: se eu não tenho nada, como posso me sentir responsável por qualquer coisa? A vida de ninguém me importa, eu não posso ter opiniões sobre isso. Se lembrarem de mim, eu não vou achar ruim, nem vou ficar amargurada se lembrarem mais dos outros do que de mim.
Sinto uma raiva de EU VI PRIMEIRO!, então me obrigo a pensar em outro assunto e engulo a minha dor, cada uma das palavras que nunca, nunca sairão de dentro de mim mas que insistem em tentar ultrapassar a barreira dos meus dentes, cerrados.
Ciúme tem posse e egoísmo, repare nos seus dentes cerrando quando você pensa em ciúme. Mas tem uma tristeza intrínseca, também, já que tudo o que você queria era estar no lugar de outra pessoa, com a diferença de que você não precisaria ser a outra pessoa.
Ciúme e inveja fazem com que você se sinta mais fraco. No meu caso, pelo menos.
Olho em volta e penso em tudo o que as pessoas têm e eu não, de sapatos a namorados, e isso me diminui ao tamanho de uma lágrima. Essa é a minha inveja, e ela faz não com que eu deseje o mal dos outros, e sim o meu próprio mal.
O meu ciúme também me derruba. É uma conseqüência da minha inveja: se eu não tenho nada, como posso me sentir responsável por qualquer coisa? A vida de ninguém me importa, eu não posso ter opiniões sobre isso. Se lembrarem de mim, eu não vou achar ruim, nem vou ficar amargurada se lembrarem mais dos outros do que de mim.
Sinto uma raiva de EU VI PRIMEIRO!, então me obrigo a pensar em outro assunto e engulo a minha dor, cada uma das palavras que nunca, nunca sairão de dentro de mim mas que insistem em tentar ultrapassar a barreira dos meus dentes, cerrados.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Você acredita em destino? (Essa pergunta soou quase como 'Você acredita em amor à primeira vista?')
Sempre que me acontece alguma coisa ruim, lembro da minha professora de matemática da oitava série dizendo que 'tudo que acontece acontece para o bem', depois dos resultados do teste do Santa terem saído, consolando os que não tinham passado.
Se um raio cai duas vezes no mesmo lugar, é um sinal de que as coisas não podem ser como a gente quer que elas sejam. Talvez até o mesmo raio, no mesmo lugar. Algo (não necessariamente uma força quântica ou até divina) insistindo para que você siga um certo caminho, fazendo o possível para que você não se deixe levar para direções que, por algum motivo nebuloso, tornariam a sua vida um inferno - ou até colocariam fim a ela.
Na metáfora da minha vida, os raios caindo duas vezes no mesmo lugar seriam as duas vezes consecutivas em que eu fiquei em primeiro lugar da lista de espera da usp. Pode ser só coincidência ou azar, mas duvido que alguém não pense em nada além disso ao ouvir essa história.
As más direções, portanto, seriam a própria usp - afinal, estou sendo impedida (não necessariamente por uma força quântica ou divina) de estudar na usp, o que pode ser só azar ou coincidência, mas, de novo, não deixa de ser estranho.
Não passar na usp tendo prestado, em cada ano, dois cursos diferentes, dois cursos escolhidos em cima da hora, só para decidir. Fico pensando por onde é que anda o meu futuro a uma hora dessas, queria poder abraçá-lo com força.
Cenas nostálgicas na minha cabeça, às vezes é estranho pensar no passado e não poder pensar no futuro com a mesma propriedade. Fico com medo de que as coisas que já passaram ainda possam ser mudadas um dia, e, então, de repente, a minha vida se tornaria outra. Meio o que eles falam em Benjamin Button quando a Daisy é atropelada, eu sempre pensei no tempo como uma convergência de fatores que faz com que absolutamente tudo aconteça de um determinado jeito, simultaneamente e com muita sincronia.
Depois de terminar as provas da Fuvest, ficava pensando de tempos em tempos que, naquele exato momento, alguém podia estar corrigindo as minhas provas. E essa pessoa poderia, no meio do processo, sentir vontade de ir ao banheiro, por exemplo, ou resolver tomar um café. Cada segundo faria diferença, talvez ela se olhasse no espelho e ficasse triste ao perceber algo que nunca tivesse notado antes, ou se sentisse melhor depois do café, e assim, depois dessa pequena pausa, a minha correção sofreria abalos sísmicos. Nas provas dissertativas a chance disso acontecer, na verdade, é pequena, não só por causa do treinamento intenso dos corretores (e do seu raciocínio que acaba adquirindo uma precisão milimétrica), mas também pela correção ser feita por duas pessoas diferentes - e até por uma terceira, caso a discrepância entre as notas dadas pelas duas primeiras (que corrigem separadamente e nem sabem uma da existência da outra) seja maior que meio ponto. No entanto, isso pode perfeitamente ter acontecido na correção da prova específica, mesmo porque, caso a panelinha de arquitetos não vá com a cara do seu traço, você vai ficar de fora, não importa quão bem tenha ido nas outras provas.
Mas, se os raios caem duas vezes na minha cabeça, pode ser que dois corretores de português ou história ou física tenham pegado a minha prova para corrigir durante um mesmo intervalo de tempo, e tenham parado no mesmo instante para fazer outra coisa, e tenham sentido algo (uma punhalada do meu destino) que os tenha tornado pessoas diferentes durante a correção das minhas provas.
Ou pode ser só coincidência ou azar, assim como a desatenção me fez esquecer de colocar o título na redação, ou como a sorte ou o azar ou a coincidência me fez acertar com chutes alguns testes de matemática e errar outros de física.
Na oitava série, passei no teste do Santa e não sei como seria a minha vida hoje (o meu humor, as minhas roupas, meu peso e tantos traços marcantes da minha personalidade) se tivesse estudado durante os meus três últimos anos de escola em outro lugar. Eu queria entrar quando passei no teste, depois me decepcionei quando as aulas começaram, e só no ano seguinte passei a dar valor ao que estava me acontecendo.
Sinto medo de um dia acordar e lembrar não desse passado, mas de outro passado, lembrar de experiências diferentes, com outras pessoas em outros lugares. Eu acordaria com outra aparência e, se o tempo continuasse correndo normalmente, eu não saberia que havia acontecido algo de errado: aceitaria o meu passado artificial sem nenhum questinamento.
Lugar certo, hora errada? Talvez a usp seja o meu lugar errado na hora certa.
Sempre que me acontece alguma coisa ruim, lembro da minha professora de matemática da oitava série dizendo que 'tudo que acontece acontece para o bem', depois dos resultados do teste do Santa terem saído, consolando os que não tinham passado.
Se um raio cai duas vezes no mesmo lugar, é um sinal de que as coisas não podem ser como a gente quer que elas sejam. Talvez até o mesmo raio, no mesmo lugar. Algo (não necessariamente uma força quântica ou até divina) insistindo para que você siga um certo caminho, fazendo o possível para que você não se deixe levar para direções que, por algum motivo nebuloso, tornariam a sua vida um inferno - ou até colocariam fim a ela.
Na metáfora da minha vida, os raios caindo duas vezes no mesmo lugar seriam as duas vezes consecutivas em que eu fiquei em primeiro lugar da lista de espera da usp. Pode ser só coincidência ou azar, mas duvido que alguém não pense em nada além disso ao ouvir essa história.
As más direções, portanto, seriam a própria usp - afinal, estou sendo impedida (não necessariamente por uma força quântica ou divina) de estudar na usp, o que pode ser só azar ou coincidência, mas, de novo, não deixa de ser estranho.
Não passar na usp tendo prestado, em cada ano, dois cursos diferentes, dois cursos escolhidos em cima da hora, só para decidir. Fico pensando por onde é que anda o meu futuro a uma hora dessas, queria poder abraçá-lo com força.
Cenas nostálgicas na minha cabeça, às vezes é estranho pensar no passado e não poder pensar no futuro com a mesma propriedade. Fico com medo de que as coisas que já passaram ainda possam ser mudadas um dia, e, então, de repente, a minha vida se tornaria outra. Meio o que eles falam em Benjamin Button quando a Daisy é atropelada, eu sempre pensei no tempo como uma convergência de fatores que faz com que absolutamente tudo aconteça de um determinado jeito, simultaneamente e com muita sincronia.
Depois de terminar as provas da Fuvest, ficava pensando de tempos em tempos que, naquele exato momento, alguém podia estar corrigindo as minhas provas. E essa pessoa poderia, no meio do processo, sentir vontade de ir ao banheiro, por exemplo, ou resolver tomar um café. Cada segundo faria diferença, talvez ela se olhasse no espelho e ficasse triste ao perceber algo que nunca tivesse notado antes, ou se sentisse melhor depois do café, e assim, depois dessa pequena pausa, a minha correção sofreria abalos sísmicos. Nas provas dissertativas a chance disso acontecer, na verdade, é pequena, não só por causa do treinamento intenso dos corretores (e do seu raciocínio que acaba adquirindo uma precisão milimétrica), mas também pela correção ser feita por duas pessoas diferentes - e até por uma terceira, caso a discrepância entre as notas dadas pelas duas primeiras (que corrigem separadamente e nem sabem uma da existência da outra) seja maior que meio ponto. No entanto, isso pode perfeitamente ter acontecido na correção da prova específica, mesmo porque, caso a panelinha de arquitetos não vá com a cara do seu traço, você vai ficar de fora, não importa quão bem tenha ido nas outras provas.
Mas, se os raios caem duas vezes na minha cabeça, pode ser que dois corretores de português ou história ou física tenham pegado a minha prova para corrigir durante um mesmo intervalo de tempo, e tenham parado no mesmo instante para fazer outra coisa, e tenham sentido algo (uma punhalada do meu destino) que os tenha tornado pessoas diferentes durante a correção das minhas provas.
Ou pode ser só coincidência ou azar, assim como a desatenção me fez esquecer de colocar o título na redação, ou como a sorte ou o azar ou a coincidência me fez acertar com chutes alguns testes de matemática e errar outros de física.
Na oitava série, passei no teste do Santa e não sei como seria a minha vida hoje (o meu humor, as minhas roupas, meu peso e tantos traços marcantes da minha personalidade) se tivesse estudado durante os meus três últimos anos de escola em outro lugar. Eu queria entrar quando passei no teste, depois me decepcionei quando as aulas começaram, e só no ano seguinte passei a dar valor ao que estava me acontecendo.
Sinto medo de um dia acordar e lembrar não desse passado, mas de outro passado, lembrar de experiências diferentes, com outras pessoas em outros lugares. Eu acordaria com outra aparência e, se o tempo continuasse correndo normalmente, eu não saberia que havia acontecido algo de errado: aceitaria o meu passado artificial sem nenhum questinamento.
Lugar certo, hora errada? Talvez a usp seja o meu lugar errado na hora certa.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
(...)
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer
(...)
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
(...)
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
(...)
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
(...)
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
(...)
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
(...)
Crer em mim? Não, nem em nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
(...)
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer
(...)
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
(...)
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
(...)
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
(...)
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
(...)
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
(...)
Crer em mim? Não, nem em nada.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Sabe quando você se sente desconfortável dentro do seu próprio corpo? Eu sinto isso o tempo todo, é só surgir um problema que eu não saiba resolver.
Minhas pernas querem encostar uma na outra, meus braços ficam mais compridos e a minha barriga faz questão de provar que existe. Meu cabelo ganha vida própria, desafiando elásticos e grampos, não consigo determinar se sinto frio ou calor, minhas unhas me incomodam e os meus dedos querem sair pulando das minhas mãos.
Minhas sobrancelhas se curvam involuntariamete, elas exigem o fechamento dos dois olhos de uma vez.
Não sei se eu fico em pé, sentada ou deitada: não existe posição confortável. Todas oferecem desvantagens, algumas partes de mim querem começar a correr e outras querem sonhar dormindo, meu corpo parece precisar de milhares de banhos por dia (posso sentir a sujeira descolando aos poucos).
A ansiedade faz vergões vermelhos na minha pele branca, meu estômago suspira em resposta a cada batida do meu coração. Ouço o som dos líquidos circulando pelas minhas veias, às vezes eu tenho vontade de arrancá-las com uma faca, só para ter certeza de que elas são realmente verdes (depois eu poderia costurará-las de volta, sem trauma).
Me sinto estranha esperando, imagino a minha vida e tudo o que eu consigo pensar é em um momento imediatamente posterior a agora (do tipo amanhã) e, em seguida, de repente eu sou uma senhora de oitenta anos, lamentando-se de tudo o que queria ter feito mas não teve tempo.
Estou me acostumando, aos poucos, com a idéia de que eu não vou ter tempo para fazer tudo o que eu quero ao longo da minha vida. É triste, mas é o que é. Então tento preencher todos os momentos de agonia de espera com coisas úteis (leituras, desenhos, escritas), só que a ansiedade tem se mostrado um ponto de resistência. Uma coisa é ter tempo livre, a outra é ter tempo enquanto se espera. O tempo da espera não é livre, pelo contrário, é uma prisão de tédio desconfortável, extremamente claustrofóbica, que dificilmente pode ser deixada.
Para deixá-la, perseverança, acho, e uma vontade forte de não pensar no futuro. Não pensar no futuro. Ainda tenho sessenta anos antes de me tornar uma senhora arrependida.
Minhas pernas querem encostar uma na outra, meus braços ficam mais compridos e a minha barriga faz questão de provar que existe. Meu cabelo ganha vida própria, desafiando elásticos e grampos, não consigo determinar se sinto frio ou calor, minhas unhas me incomodam e os meus dedos querem sair pulando das minhas mãos.
Minhas sobrancelhas se curvam involuntariamete, elas exigem o fechamento dos dois olhos de uma vez.
Não sei se eu fico em pé, sentada ou deitada: não existe posição confortável. Todas oferecem desvantagens, algumas partes de mim querem começar a correr e outras querem sonhar dormindo, meu corpo parece precisar de milhares de banhos por dia (posso sentir a sujeira descolando aos poucos).
A ansiedade faz vergões vermelhos na minha pele branca, meu estômago suspira em resposta a cada batida do meu coração. Ouço o som dos líquidos circulando pelas minhas veias, às vezes eu tenho vontade de arrancá-las com uma faca, só para ter certeza de que elas são realmente verdes (depois eu poderia costurará-las de volta, sem trauma).
Me sinto estranha esperando, imagino a minha vida e tudo o que eu consigo pensar é em um momento imediatamente posterior a agora (do tipo amanhã) e, em seguida, de repente eu sou uma senhora de oitenta anos, lamentando-se de tudo o que queria ter feito mas não teve tempo.
Estou me acostumando, aos poucos, com a idéia de que eu não vou ter tempo para fazer tudo o que eu quero ao longo da minha vida. É triste, mas é o que é. Então tento preencher todos os momentos de agonia de espera com coisas úteis (leituras, desenhos, escritas), só que a ansiedade tem se mostrado um ponto de resistência. Uma coisa é ter tempo livre, a outra é ter tempo enquanto se espera. O tempo da espera não é livre, pelo contrário, é uma prisão de tédio desconfortável, extremamente claustrofóbica, que dificilmente pode ser deixada.
Para deixá-la, perseverança, acho, e uma vontade forte de não pensar no futuro. Não pensar no futuro. Ainda tenho sessenta anos antes de me tornar uma senhora arrependida.
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