Imagina você na sua própria casa, daí seria tipo domingo e você estaria meio acordando, meio com sono ainda, meio não querendo olhar as horas porque seria muito, muito tarde e você estaria de pijama ainda. Estaria chovendo e você estaria de saco cheio, como você sempre está (e nos domingos as coisas ficam ainda piores). Daí você não teria muito o que fazer, ou não quereria muito fazer nada do que se existe para se fazer no mundo, então você ligaria o computador, porque é o que você faz quando tem preguiça. E aí estaria lá, a notícia da sua vida, você ia rir e ficar imaginando como foi que isso foi acontecer, as pessoas faziam piada mas ninguém nunca achou que realmente fosse acontecer. Você ia ver as fotos das ruínas, um pedacinho da sua vida que ruiu (mais um outro pedacinho), talvez a primeira ruína literal (se você resolver não contar as pessoas que se desfizeram).
Você ia ler tudo o que estivessem dizendo sobre a notícia da sua vida, em todos os lugares possíveis. Depois disso, ia ligar para os seus amigos rindo, e eles não estariam rindo. Você ia argumentar, dizendo que ninguém se machucou nem nada, e que esse seria um bom motivo para alguém tomar alguma providência; as pessoas te achariam maluca.
Também iam te ligar e perguntar como era ser você naquele momento (as pessoas que não conhecessem outras pessoas que estudassem lá), você ia dizer que tinha achado tudo engraçado, mas, depois, provavelmente ia se arrepender e achar que ficou tudo trágico. Daí iam querer fazer documentários, entrevistar gente que esteve lá na inauguração, iam chamar o diretor para falar sobre aquilo, ele não ia fazer piada mas ia fazer ironia, afinal, qualquer um poderia supor que algum problema sério aconteceria um dia.
Você ia querer ir até lá com a sua câmera, a área estaria toda cercada, talvez a universidade inteira ficasse fechada por alguns dias. Você chegaria bem perto pedindo muito por favor com toda a sua boa vontade, ou simplesmente entraria escondida. Só assim você teria noção do estrago. Você chegaria bem perto e pensaria nos momentos que passou ali dentro, por baixo daquelas ruínas quando elas não eram ruínas, nem foi tanto tempo assim, mas, com certeza, te doeria.
De qualquer forma, seria um bom jeito de colocar fim a uma etapa da sua vida, não sei o que você faria depois disso, mas pelo menos teria um impedimento físico, já que você não consegue se impor uma barreira mental.
E, bom, não sei o que eles fariam com todos os outros alunos, afinal, a vida te deu uma chance de desistir dessa parte de você, só que os outros talvez estivessem querendo continuar, e precisariam de um espaço para continuar. Eles poderiam espalhar os alunos que nem formigas, distribuir grupos de alunos pelas outras faculdades, o que talvez não fosse dar muito certo, porque quase ninguém faz as mesmas matérias e, também, as pessoas com certeza não achariam bom se fossem assim separadas.
Eles - os estudantes remanescentes - fariam protestos, talvez piquetes, enfim, ao menos passeatas com cartazes escritos com tinta guache, a imprensa iria noticiar isso como um grande absurdo, surgiriam manchetes se referindo a eles como "órfãos" ou até "sem-teto", junto com um monte de sarcasmo daquele tipo que só deve ser feito com a própria desgraça.
A essa altura, você já estaria conformada em ter a sua vida de volta só para você, sem ter que se deslocar todos os dias até aquela faculdade, talvez você até acabasse achando ruim e, então, junto com os seus amigos bêbados, você falaria melancolias em alguma pista de dança.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
sábado, 25 de setembro de 2010
Fico com aflição de não escrever sobre as coisas que eu vivi, porque acho que elas vão se perder na minha memória. No fundo, esse blog não é propriamente sobre "coisas que aconteceram comigo". Mas diz muito sobre mim. E dá pistas sobre coisas que aconteceram comigo.
Comecei a escrever literatura porque eu queria que algumas coisas, de alguma forma, realmente acontecessem na minha vida. Então é isso que escrever é para mim: um jeito de tornar real o que eu não posso viver - ainda que seja mentira.
Bom, não; não acho que seja mentira - ainda que não seja verdade. (É só que a palavra mentira não soa bem.)
São reflexões sobre coisas plausíveis. O maior prazer da minha vida é imaginar. Me perder nos meus próprios pensamentos. E me surpreende me lembrar, quando alguém me pergunta algo como "O que você fez hoje?", que eu não fiz as coisas que eu imaginei.
Não acho que eu viva uma vida interessante. Talvez até emocionante, mas não muito divertida. Eu poderia, sim, escrever romances (vários) sobre a minha vida, mas eu poderia escrever romances sobre qualquer coisa. Milhares de páginas sobre três segundos. As situações mais triviais do mundo.
São reflexões sobre coisas plausíveis. O maior prazer da minha vida é imaginar. Me perder nos meus próprios pensamentos. E me surpreende me lembrar, quando alguém me pergunta algo como "O que você fez hoje?", que eu não fiz as coisas que eu imaginei.
Não acho que eu viva uma vida interessante. Talvez até emocionante, mas não muito divertida. Eu poderia, sim, escrever romances (vários) sobre a minha vida, mas eu poderia escrever romances sobre qualquer coisa. Milhares de páginas sobre três segundos. As situações mais triviais do mundo.
No mais, tenho medo de escrever sobre coisas que aconteceram comigo porque tenho medo de que alguém as encontre. Eu não gostaria que as pessoas lessem a minha vida. Não do jeito como eu gostaria de escrevê-la.
Além disso, é muito difícil escrever sobre o que eu mais gostaria de escrever. Situações despedaçadas, mal-resolvidas são sempre as mais interessantes. E me dói muito ter que verificar a coesão de cada frase, prestar atenção demais à gramática e todas essas coisas que precisam estar presentes em um texto.
Em geral, eu só preciso de um assunto para escrever. Mas, quando o assunto sou eu e o meu passado, não consigo ser minha própria editora. Ou até consigo, com um sacrefício enorme.
Enfim, de um jeito ou de outro, a minha vida se reflete no que eu escrevo. Eu só queria ter mais coragem e transformar todas as sensações que eu vivi em palavras. E presentear as pessoas com o meu ponto de vista. Isso é o que você foi para mim, eu diria a elas, entregando manuscritos.
O que me incomodaria é que elas provavelmente ficariam tentando interpretar demais, ou se sentiriam honradas demais por estarem recebendo relatórios meus sobre a nossa convivência. Eu só não quereria ser mal-compreendida. Afinal, eu não estou apaixonada. Nunca estive.
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