domingo, 22 de novembro de 2009

como ser trash sem redondilha nenhuma

Eu te superestimei
Você me subestimou -
Acho que podemos nos encontrar
No meio do caminho.

Não me chame de querida
Não serei sua amiga
Mas você podia pelo menos
Me pagar uma bebida.

Minhas rimas são pobres
Mas o meu caráter
É precioso (eu juro).

Estou escrevendo um soneto
Para dizer que
Eu te odeio.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ontem aconteceu de novo: inventei uma pessoa. Já deve ser a quarta ou a quinta, fora as personalidades que eu invento para pessoas que já existem.

Pela manhã, ela ainda não tinha uma forma física definida. No começo da tarde, tinha a altura de uma pessoa pequena e, no final, já era loira. À noite, ganhou um corte de cabelo específico; mas, mesmo hoje, ainda não tem nome.

Desde o começo, tinha olhos azuis e me puxava pelo braço, mandava mensagens de texto quase sem pontuação, me fazia sorrir quando estava sorrindo.

Finjo para mim mesma que eu não gosto dela e, se alguém visse a situação de um ponto de vista que não o meu, diria que ela gosta muito mais de mim do que o contrário. Mentira.

Nosso amor é perigosamente mútuo, mas sem adjetivos carregados. Ela aparece na minha casa sem ser convidada e, entretanto, sempre nos momentos certos.

Enquanto estou pensando sobre tudo isso, me sinto a melhor pessoa do mundo. Minhas idéias andam de um lado para o outro da minha cabeça enquanto faço alguma coisa qualquer; não consigo pensar em mais nada.

Com 14 anos, desenvolvi um método particular para lidar com os meus amores platônicos: criar situações-modelo de coisas que poderiam acontecer e as imaginar até que elas fiquem cinematograficamente perfeitas. A pior parte chega sempre quando não tenho mais o que corrigir. Então todo o trabalho começa outra vez, tenho que inventar uma nova cena e, com o enredo criado, a parte boa - de aprimoração mental de diálogos, gestos e contextos - volta novamente.

É um ciclo perigoso, de ápices brilhantes e vales extremamente cruéis de tão profundos. Desgasta muito o meu cérebro criar todas essas siatuções, ao mesmo tempo que elas formam a parte mais importante da minha razão de ser.

E, nisso tudo, o que mais me dói é que, embora eu as considere como parte da minha vida, elas não são. No sentido de que não podem ser compartilhadas com mais ninguém, de que qualquer um me acharia maluca se eu começasse a falar da última vez em que encontrei um dos meus personagens, como quem fala do namorado ou do melhor amigo - nesse grau de intimidade.

Desde os 14, tenho tido problemas com isso, fecho a minha cabeça dentro de si mesma e às vezes chego tão perto de contar para alguém sobre as coisas que imagino que alguma força maior - uma imagem minha em tamanho real, de frente para mim e rindo da minha própria cara - tem que me coibir gritando.

Uma pena, porque as histórias são realmente incríveis (e tão incrivelmente normais que poderiam mesmo ter acontecido), eu pareceria mais interessante e me sentiria melhor amada.

Meu maior medo? Começar a acreditar em tudo o que eu invento. Não uma esquizofrenia de verdade, talvez só uma grande confusão mental e uma solidão cada vez maior. Porque, se eu tenho os meus personagens sempre disponíveis para mim a todo momento, sempre aptos a fazer tudo o que eu quiser, não existe motivo algum para que eu me importe com as pessoas do mundo real. Elas têm, aliás, muito menos graça. Assim como eu fora do meu mundo ideal.

Queria muito da banalidade que só parece alcançar as outras pessoas - que, para mim, portanto, nunca será banal. Na minha imaginação, nem tudo é extraordinário; pelo contrário, as coisas que imagino estão lotadas de trivialidade, mas são momentos melhor vividos que os que eu realmente vivo. Em termos de custo-benefício, obviamente. (Quantos minutos tenho que viver para conseguir ao menos um minuto que valha a pena?)

Ainda me pergunto se eu já vivi momentos que tivessem valido a pena. Todo o mundo já viveu momentos que valem a pena... Nem que tenha sido um único segundo. Ou será mais fácil viver horas ou dias que valem a pena do que um só segundo? Talvez a grande maioria de todas as pessoas que eu conheço simplesmente não consiga admitir que nunca teve nenhum prazer. Nem um único. E que vive fingindo, só para continuar vivendo. Ou, na verdade, nem se importa com o que vive, mas finge para si mesma que se importa sem nunca ter pensado sobre isso. E eu ainda acho que é melhor fingir conscientemente; por pior que seja, é voluntário.

Preciso de mais café, de mais ataraxia, talvez de um coma e de menos chocolate. Preciso de um abraço uma vez por dia mas não gosto de admitir.

Não é pessimismo, é só o jeito como o mundo me trata e como eu, sem crises de não inteligência, chuto o mundo de volta.

Ontem à noite, lembrei que só tenho mais três anos de vida. E não vou vivê-los da melhor maneira possível, com certeza. Não só porque eu não saiba que maneira é essa, mas porque, mesmo que me dissessem Você vai morrer amanhã, nem assim eu teria forças para levantar da cama.

Quero um mundo de pessoas que enxerguem o que eu tenho de bom para oferecer, mas é claro que eu não quero as pessoas que existem. Não espero pessoas perfeitas, só espero defeitos menos idiotas e mais compreensíveis. Não conheço ninguém que esteja ligeiramente perto do que eu considere uma pessoa próxima de algo que desejo para mim, isto é, alguém que eu realmente quisesse que estivesse perto de mim.

Gosto de muitas pessoas que conheço e que eu sei que gostam de mim, mas não vejo nenhuma delas preocupada em ser importante para mim. Queria um exclusivismo uma vez na vida, tanta gente têm tantos exclusivismos e eu não posso ter nenhum, sei que é egoísta mas eu não acho errado, sei que eu não sou estúpida nem tão desinteressante assim.

Quer dizer, tenho gostos bons e até um bom humor quando me esforço bastante, penso nas pessoas que já se interessaram por mim e o saldo é devedor, quem eu ainda estou tentando conquistar? Queria a amizade de muitos, o amor de quase nenhum e a devoção de todos. Sei que é egoísta, mas eu não acho errado.

Por isso só mais três anos, foi o que combinei comigo mesma, o tempo que as coisas têm para começar a funcionar, já se passaram dois anos e eu continuo viva, por quanto tempo por quanto tempo por quanto tempo. Tudo fica bagunçado e nebuloso, não sei onde estou nem consigo determinar algo que eu esteja com vontade de fazer, qualquer coisa, ficar deitada parada, eu gostaria de conseguir ouvir uma música, eu queria chorar mas está tudo dentro da minha garganta, me peça para falar sobre qualquer coisa e eu colocarei nisso todo o meu amor na minha voz embaçada.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Perco muito tempo parada, pensando. Não sei se é realmente uma perda, mas o fato é que gasto muito tempo com isso. Às vezes me deixa angustiada, às vezes não. Hoje me deixou muito angustiada. Não só o fato de passar tanto tempo pensando ao invés de estar fazendo alguma coisa - qualquer coisa -, mas principalmente de ter tido noção da dimensão de todo esse tempo.

Se eu não tenho coisas obrigatórias para fazer, pelo menos poderia estar lendo um livro ou vendo um filme ou escrevendo ou tentando desenhar ou estudando qualquer porcaria, estar praticando um esporte, conversando com alguém.

Talvez doa mais do que precisasse doer (precisa doer, é claro). E não saber qual é o problema me incomoda ainda mais. Não ter a solução é completamente normal, mas não poder nem conseguir poder buscá-la é extremamente desgastante.

Sinto falta da raiva quase patológica que eu cultivava dentro de mim há alguns meses: minha vida já foi muito mais vazia do que é hoje, mas eu tinha uma maneira, embora péssima, para tentar lidar com isso.

Dói perceber que o problema talvez não seja eu, mas as minhas escolhas e as escolhas dos outros - eu ainda me considero maior do que as minhas escolhas. No fim, tenho que escolher os caminhos menos piores para os piores problemas, e caminhos agradáveis para situações nem tão ruins assim.

Gostava da minha auto-mutilação, um jeito próprio para me resolver comigo mesma. Como eu é que me punia, nenhum outro tipo de punição poderia ser mais provocativo. Tenho me tornado mais tolerante em relação a mim, e isso é horrível. Ao mesmo tempo que abre espaço para que mais gente se sinta à vontade para entrar na minha vida, suprime todo o controle que eu tenho sobre o que os outros estão fazendo comigo.

Sobre o que estão fazendo com a minha vida; eu não sei até que ponto poderei me deixar levar. Ou até quando vou abaixar a cabeça e pensar Um dia melhora - não que eu gostaria que melhorasse muito. (Em todos os sentidos, nunca.)

Procurando referências para ensinar Realismo, encontrei o poema do Drummond sobre o Machado de Assis (A um bruxo, com amor):

Olhas para a guerra, o murro, a facada como uma simples quebra da monotonia universal

Na folha de papel que a Antonietta entregou para a gente no segundo ano, desenhei uma flexa ao lado desses versos e escrevi Senão o mundo seria muito chato, que é provavelmente uma fala dela (combina com a sua risadinha irônica) mas, lido hoje, soa bonito e condiz com a linearidade de tudo o que eu estou falando.

Fico pensando, pensando, e talvez seja bom gastar tempo pensando, mas não sei se tanto. Citando Jonathan Safran Foer pela milésima vez - e, pela milésima vez, o mesmo conto, que parece descrever a minha vida em pedacinhos quebrados que se caixam precisamente em momentos variados -, A gente tem todas essas idéias de coisas que quer ver feitas. Acho que não pensava o suficiente sobre o fazer.