quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Me desculpe. Me desculpe se eu estraguei todos os seus planos. Se eu não fui a pessoa que você esperava que eu fosse. Me desculpe. Me desculpe por ter feito da sua vida algo pior. Me desculpe se eu tenho opiniões que te desagradam, se eu tomei decisões que você considera desprezíveis. Me desculpe se eu não consegui ser tão parecida com você. Me desculpe se eu tenho idéias que falam alto demais, se eu tenho uma tendência niilista no que diz respeito à minha própria vida. Me desculpe se eu não consigo encontrar nada que me dê vontade de viver. Me desculpe. Me desculpe se eu não fui capaz de sentir amor, e poder fazer com que o amor fosse uma coisa boa para mim. Me desculpe se eu não fui capaz de te dar amor. Se eu me importei com muitas outras coisas em vez da sua felicidade. Se eu passei tempo demais chorando. Me desculpe por ter tentado acabar comigo mesma.

Se eu pudesse escolher, teria feito com que muita coisa fosse diferente. Você já me ouviu dizendo mas sei que você não concorda: o problema não sou eu; o problema é o mundo. Ele me impôs condutas deploráveis. Não estou querendo me livrar da culpa, nem quero racionalizar o meu sofrimento. Também sei que eu não estive aberta o suficiente para muitas oportunidades.

Mas, agora, nesse momento, só que eu tenho a fazer é pedir desculpas. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. 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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

'It hurts. It hurts so bad.'

'I like it.'

'Do you like your blood?'

'I like to watch it bleeding.'

'It's beautiful, isn't it?'

'It's so red.'

'It's bleeding.'

'I like it.'

'Maybe this time you got the point.'

'I wanna do that again.'

'Not so fast.'

'I really want to.'

'You gotta take your time.'

'I like it.'

'It's beautiful.'
Você já chorou por alguém que nem existe de verdade?

Ela virou o rosto na minha direção, tentando tampar os olhos enquanto me ouvia, como se se escondesse do sol.

Sei que, nos últimos tempos, tudo tem sido motivo para me deixar triste. A palavra mais bonita. O momento menos silencioso. Comecei a chorar.

Como você pode chorar por alguém que nem existe de verdade?, ela disse, quase rindo.

Eu imagino pessoas e me apaixono por elas.

Ela saiu andando pelo meu quarto e se jogou de costas na minha cama, ainda com as mãos sobre o rosto. Permaneci onde estava.

As lentes dos meus óculos começaram a embaçar. Tirei-os. Voltei a minha atenção a ela. Ela, que havia se tornado um borrão, agora me olhava sorrindo (eu ainda podia identificar o sorriso), esparramada na cama bagunçada, tentando alcançar um travesseiro.

Continuei pensando em mim mesma, no que teria me levado a chorar naquele momento. Ela nunca me entenderia: eu não encontraria meios para me explicar. Ficamos nos encarando por alguns segundos; eu, provavelmente, nítida - ela devia estar enxergando cada uma das minhas lágrimas caindo, as rugas da minha testa se formando e cada fio do meu cabelo se bagunçando enquanto eu abaixava a cabeça, tentando conter o choro.

Me admirava que ela não fizesse nada. Que não tentasse me fazer parar de chorar, ou que não me perguntasse o que havia de errado comigo. Ela só sorria. Sorria e me olhava.

Talvez ela só estivesse pensando em outra coisa qualquer. Talvez nem percebesse a minha presença. Então, eu não constituiria um corpo vivo, mas um objeto qualquer.

domingo, 12 de junho de 2011

Enquanto estou conversando com a minha mãe, sempre fico divagando, entre uma fala e outra. Sei que ela está fazendo o mesmo. Juntas, falamos pouco. Quando eu era pequena, me perguntava no que ela estaria pensando. Antes, eu achava que ela só não era uma pessoa atenta. Que estaria pensando sobre qualquer coisa. Mas cresci um pouco, comecei a criar uma realidade paralela dentro da minha cabeça, e me perguntei se ela faria o mesmo.

De toda forma, eu também não consigo responder direito quando me vejo comprometida a obrigações demais. Em qualquer meio segundo de brecha que encontro durante uma conversa com qualquer pessoa, minha cabeça começa, sem a minha autorização, a organizar uma lista de tarefas que devem ser cumpridas, estipulando metas, calculando possibilidades. Sou eu encarando uma parede, o céu, uma lousa, o rosto de alguém sem conseguir me concentrar em escutar o que estou ouvindo - o que também acontece quando estou fingindo viver outras vidas, na minha imaginação. Tento disfarçar, mas nem sempre consigo captar o sentido geral da conversa, a ponto de dar uma resposta que possa significar que eu realmente estava ouvindo. Às vezes, admito, rindo, a minha distração, e peço para a pessoa repetir - se é que o que ela estava falando fosse realmente interessante, ou se ela estivesse me cobrando uma opinião.

Minha mãe nunca foi tão habilidosa quanto eu. (Ainda que eu falhe algumas vezes, consigo obter uma porcentagem bastante satisfatória no que diz respeito a enganar o meu interlocutor. Isso acontece com professores, amigos, pessoas que dão informação na rua, enfim, qualquer um, mas também, claro, com a minha mãe.) Minha mãe nunca se importou em não conseguir disfarçar: milhões de vezes, tive de repetir a mesma pergunta até que ela percebesse que estava sendo interrogada - e, então, eu tinha de repetir a pergunta de novo. Me acostumei a agir assim com a minha mãe, mas devo reconhecer que isso atravanca demais a nossa comunicação. Talvez, por isso, eu tenha me disposto a conversar cada vez menos com a minha mãe.

Quando eu era pequena, reclamava Você não está prestando atenção! Ela dizia que estava, mas ainda assim me pedia para repetir o que eu havia acabado de falar. Com o tempo, passei a parar de repetir. Você não está interessada.

Esse processo foi eliminando a minha vontade de falar sobre mim. Se nem a minha mãe queria saber das coisas que eu queria falar, quem mais quereria?

Só fui perceber que eu não falava sobre mim - principalmente em conversas com muitas pessoas ao mesmo tempo, daquelas que não levam a nada, em mesas de bar ou de restaurante, mas em que cada um quer contar a sua história a qualquer custo - quando eu tinha 17 anos. Foi uma constatação da Yasmin (não em uma conversa com muitas pessoas envolvidas, em mesas de bar ou de restaurante, mas em uma conversa particular): Você não gosta muito de falar sobre você, né?. Achei louvável que ela tivesse percebido aquilo, porque era algo que nem eu mesma jamais havia percebido até então.

Ainda que eu não fale sobre mim, penso muito sobre mim. Principalmente, quando estou conversando com outras pessoas. Penso tanto sobre mim que às vezes eu acho que não penso sobre mais ninguém. Claro, eu só tenho o discernimento necessário para pensar sobre a minha própria vida. O que é bom, porque quer dizer que eu não fico especulando sobre os sentimentos alheios - e já que eu não tenho nada a ver com eles. Mas faz de mim uma pessoa fechada. E fecha em mim mesma sentimentos que, se fossem compartilhados com outras pessoas, talvez não me machucassem tanto. Talvez eles não precisassem ser jogados em uma conversa de mesas de bar ou de restaurante, mas pudessem ser divididos. Com as pessoas certas.

Quando estou conversando com outras pessoas, principalmente quando estou ouvindo outras pessoas falando, penso muito sobre mim. São os meus personagens vivendo as vidas deles dentro da minha cabeça. Ou os meus problemas passeando em frente aos meus olhos, impedindo que eu olhe para a pessoa que conversa comigo.

E, um dia desses, enquanto eu conversava (ou tentava, ou fingia conversar) com a minha mãe, percebi que eu tinha me tornado uma pessoa diferente nos últimos tempos. Mais do que isso, percebi por que eu tinha me tornado uma pessoa diferente. Ao longo dos últimos meses, adquiri posições críticas sobre muitas questões. Hoje, posso dizer que eu tenho opiniões formadas sobre muitos assuntos, o que eu não poderia afirmar com tanta certeza há menos de um ano.

Foi conversando com a minha mãe que eu percebi que eu gasto tempo demais pensando sobre mim, sobre os meus personagens, horas e horas diárias para racionalizar o que cada um deles deve fazer, enredos complexos que poderiam preencher milhares de páginas ou consumir milhares de minutos de filme. Percebi que eu tenho muitos conflitos internos para resolver. Não consigo aprender a conviver comigo mesma; não me sinto confortável dentro da minha própria vida. E, ao longo de todos esses anos em que eu venho pensando sobre mim, tenho tentado fazer da minha existência uma situação menos dolorosa - o que eu costumo conseguir através da imaginação de realidades alternativas.

Acho que gastei tanto tempo pensando sobre mim que nunca consegui me sensibilizar o bastante com o que acontece ao redor de mim - como eu quase nunca consigo enxergar o que está do lado de fora de mim - e devolver uma resposta minha para o mundo. Mas, com o tempo, os problemas dos meus personagens & os meus problemas começaram a se transformar nos problemas do mundo. O mundo caiu em cima de mim, da minha vida, dos meus personagens, dizendo que nós não podíamos seguir existindo como vínhamos fazendo.

E todo esse jeito de existir que nós sempre usamos para existir foi questionado, ferido, derrotado pelo que eu finalmente entendi como sendo a sociedade ao nosso redor. Eu e os meus personagens descobrimos que não vivemos da maneira certa nessa sociedade. Não estamos adequados a diversos padrões, não pensamos de acordo com o pensamento dominante.

E, assim, pela primeira vez, percebi que os meus conflitos internos não tinham simplemente surgido no meu interior. Talvez eles tenham sido piorados por mim, mas eles foram provocados por pessoas, questões e situações das quais eu jamais poderia ter controle.

Demorei, ao longo de um processo angustiante, perturbador para conseguir entender que eu deveria tentar fazer alguma coisa para mudar isso. Descobri que muitas pessoas estão por aí pensando sobre as mesmas questões que me fizeram sofrer, que me fizeram - e me fazem - viver alienada em romances, músicas e filmes para tentar aliviar o terror de enfrentar os meus próprios problemas.

Conversando com a minha mãe, percebi por que eu nunca consegui ter opiniões políticas. Porque eu tinha muitos conflitos internos para resolver. Ainda não resolvi, mas, agora, a política se transformou em um conflito interno meu.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Eu queria tirar alguns dias do calendário.

Se eu pudesse tirar do calendário os dias que me trazem memórias tristes, eu certamente não precisaria mais viver.

(Odeio como as datas me fazem lembrar.)

(E isso porque eu nem vivi muito.)

Eu queria apagar algumas lembranças da minha cabeça. Apagar algumas pessoas que passaram pela minha vida, e deixaram marcas desagradáveis. Em geral, porque foram embora. (Pessoas que ficam não deixam saudades, nem a sensação do que poderia ter acontecido.)

Eu queria viver sem ter que ficar me lembrando o tempo todo.

(Quase nunca estou vivendo o meu presente. Ou estou vivendo lembranças, ou estou vivendo situações inventadas, que não são a minha vida de verdade. Estranhamente, inventar faz com que eu me sinta muito bem. São alguns segundos de uma vida perfeita para horas, dias, semanas da minha vida sem graça, cheia de defeitos.

Fico me perguntando o que eu seria sem a minha imaginação. Nada além de nada, talvez eu nem existisse fisicamente.

O problema é que eu tenho uma tendência particularmente grande de transformar as maiores trivialidades do mundo em paranóia. Numero tudo o que for quantificável. E exijo de mim mesma uma explicação lógica para o que quer que os números possam representar.

Me descubro propondo desafios a mim mesma, me cobrando situações e metas que eu mesma me impus.)

Eu queria que alguém se sentisse como eu me sinto. Não porque eu quisesse a compaixão de alguém, mas porque eu queria conversar com alguém sobre os meus sentimentos. (Como só eu sou capaz de senti-los, ninguém nunca vai conseguir realmente entender como eu me sinto.)

É que eu acho que isso tem sido uma coisa importante para mim - como eu me sinto -, e não vejo a maioria das pessoas dando tanto valor a isso.

Eu queria não ter vergonha de me sentir como eu me sinto. Porque, se eu não tivesse vergonha, eu poderia contar para alguém o que se passa dentro da minha cabeça. Por mais que as pessoas não entendessem, acho que eu me sentiria mais leve por sentir que eu poderia falar.

(Mas deve existir mais gente no mundo com a mente atormentada que não tem coragem de falar como se sente.)

(Eu queria que as pessoas pudessem contar aos outros como se sentem.)

Eu queria poder contar como eu me sinto. Se eu pudesse, talvez não precisasse tirar alguns dias do calendário. (Porque, talvez, eu não tivesse memórias tão tristes. Talvez existam pessoas com memórias parecidas com as minhas.) Se as pessoas escutassem umas às outras, talvez pudéssemos viver todos os dias do calendário sem sofrer pelo passado, viver cada um dos dias sem pensar em como, nos próximos anos, eles serão lembrados pelas tristezas que os deixarão marcados para sempre.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Quando eu me sinto muito muito triste, sei que eu preciso começar a criar. Invento pessoas para a minha vida ou para a vida dos outros (como se eu fosse os outros), pessoas que interajam comigo ou entre si e, por isso, fazem com que eu me sinta melhor.

Pessoas que coloquem palavras na minha boca e em quem eu possa influenciar nas ações - algo que eu não posso fazer na minha vida real.

Essa é a função dos meus personagens: viver. Eles vivem por mim. Tudo o que eu queria que acontecesse comigo, ainda que não as melhores coisas do mundo, podem ser vividas pelos meus personagens. Às vezes, também faço com que eles vivam as situações que eu vivi. Mas eles nem sempre tomam as decisões que eu realmente tomei. Na verdade, quase sempre, conseguem agir melhor, porque eu já pensei sobre tudo o que eles têm que fazer muito antes de que eles tenham que fazer.

Eles representam as coisas em que eu acredito. São metáforas da minha existência. Ou negações de problemas que eu queria que não existissem. Eles são reflexivos, complexos, embora aparentem sempre ser pessoas vazias, planas. Que é o que eu acho que eu aparento ser, para o mundo. E o que eu tenho mais medo de ser, no mundo.

Penso muito sobre tudo, e isso me destrói ao mesmo tempo que me faz uma pessoa melhor e maior do que qualquer coisa que eu ambicionaria ser. Criei uma antipatia por pessoas que não pensam. Passei a odiar diálogos vazios, embora eu saiba que eu precise deles, de vez em quando.

Posso aceitar diálogos vazios mas não opiniões vazias, ou a falta delas. (Estranho, porque eu sempre me considerei uma pessoa sem opinião, e nunca senti vergonha por isso.) Mas não quero ser maniqueísta, e rotular as pessoas entre inteligentes e burras, interessantes e desinteressantes, opinadoras e não-opinadoras. Mas preciso de pessoas que queiram discutir. Isso é algo importante. Não sei o que pensar sobre muitas coisas antes de discuti-las com alguém, ou de ouvir alguém falando sobre algo.

Ouvir. Sempre foi mais importante do que falar, para mim. Às vezes mudo de opinião enquanto estou falando. E não falo se não tiver certeza do resultado que eu esteja buscando. Acho difícil falar, sempre achei, mas acho que fui melhorando ao longo do anos; sempre achei mais fácil escrever (preciso de tempo para encontrar as palavras certas, e para ter certeza do que eu quero que seja entendido como uma opinião minha), mesmo sabendo que as palavras escritas ficam, enquanto as palavras faladas existem por um único momento, até se tornarem distorções das memórias alheias.

Mas eu falava sobre os meus personagens. Descobri que eu tenho conversado comigo mesma. Na verdade, os meus personagens é que têm conversado comigo; o grande problema é que eles falam com a minha boca, com a minha voz - ou seja, eu falo por eles. Eu dou conselhos para mim mesma. Eu me enfrento, me critico. Em voz alta.

Sempre tive medo de me perder nas minhas histórias. De chegar a um ponto em que eu não soubesse mais quem eu sou, ou de começar a incorporar outras personalidades (as dos meus personagens), ou até de passar a agir como se os meus personagens estivessem, o tempo todo, ao meu redor. Antes eu só ouvia vozes, agora respondo.

É difícil ouvir a minha própria voz me enfrentando. Me fazendo perguntas complicadas e sem resposta, às vezes perguntas retóricas, me mandando fazer muitas coisas, enfim, me obrigando a viver uma realidade que não parece querer ser vivida por mim. No fundo, eu não consigo entender, e ela não me ajuda a esclarecer nada. Parece que eu procuro problemas. Remexo caixas com papéis velhos, abro armários de pessoas que já morreram, revisto tudo o que for preciso para encontrá-los. De tanto procurar soluções, acabo encontrando problemas, e adotando-os como se fossem meus filhos, problemas de pessoas que nem ligam para eles, problemas que as pessoas já superaram, problemas que nem mesmo existem, mas poderiam existir.

Um jeito particularmente simples que a minha mente me ensinou para me fazer sofrer é me forçar a imaginar como as coisas poderiam ser bem ruins. Através da perda de pessoas especiais, ou da quebra de situações estáveis demais. Da mesma maneira que a minha imaginação traz para mim imagens coloridas, alegres e estonteantemente perfeitas para me fazer melhor, ela também sabe como me deixar triste. E nada é mais triste do que a tristeza que eu invento para mim, assim como nada é mais feliz do que a felicidade falsa que eu me imagino vivendo - e que não poderia ser vivida por ninguém, e não será.

domingo, 24 de abril de 2011

Tenho me sentido triste com a maneira com a qual eu não me sinto mais tão triste quando penso no meu futuro, sei que isso é imbecil, porque ter perspectivas sobre o meu futuro sempre foi o que eu mais quis na vida, mas sempre pensei que eu poderia me sentir feliz toda vez que eu me lembrasse que iria morrer cedo, então, é como se eu estivesse perdendo um pedaço de mim, se sentir triste e querer morrer sempre foram coisas que fizeram parte de mim, desde que eu comecei a pensar sobre a vida & sobre mim, mais ainda desde que eu comecei a pensar sobre o mundo, sobre os problemas do mundo e sobre as soluções péssimas que a gente encontra por aí, talvez seja isso, as soluções péssimas que a gente encontra por aí, existem problemas, é claro, mas existem, na maioria das vezes, jeitos bons, saudáveis, amistosos, justos de resolver os problemas, que é o que quase nunca é feito, as pessoas querem se acomodar e acho que isso é o que mais me incomoda, por isso acho triste ficar aqui nesse mundo horrível quando tudo o que eu podia era só ser uma coitada, alguém que não resistiu aos infortúnios da vida e foi embora enquanto ainda era tempo, sei que sou nova demais e não vou ser lembrada por nada do que eu fiz, porque eu fiz nada ou quase nada na minha vida, imagino as pessoas que eu conheço daqui a vinte anos lembrando de mim e do que eu fui e talvez elas nem tenham muita referência, não é como se alguém de pelo menos uns quarenta anos morresse, com certeza teria gente para lembrar de coisas que essa pessoa fez, talvez não só coisas boas mas com certeza coisas significativas, eu queria ser lembrada e isso é tão triste, o ponto é que eu ainda preciso viver mais alguns anos se eu quiser ser lembrada, senão eu vou ser só o espectro de algumas situações vazias de significado, sim, significado, acho que é o que as pessoas deviam procurar, mas quase ninguém procura, as pessoas se contentam com pouco e com estática e com tudo que é dado, eu busco significado e sou oprimida pela verdade, comprimida contra as paredes de ruas mal-iluminadas e me mandam calar a boca e me mandam embora, eu queria ser especial e conseguir responder a todos esses insultos, eu queria encontrar uma forma de responder ao mundo, a minha interpretação sobre o mundo lançada por mim, que seria rejeitada pela maioria mas encontraria alguns adeptos, pessoas que pensassem como eu e que se aproximassem de mim, elas chegariam bem perto para tentar discutir, me segurariam pela gola do paletó e ficaríamos felizes ao descobrir que pensamos da mesma maneira, é péssimo saber que não existe alguém no mundo com as mesmas opiniões, tudo é um mar de desconexão e idéias jogadas, existem poucos lutando pelas mesmas causas e no fim tudo parece tão simples, têm coisas que eu sei que são boas e que seriam boas para todas as pessoas,

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Hoje eu percebi que fiquei desconcentrada enquanto precisava me concentrar; é engraçado como essa é a primeira vez em que, embora os sintomas sejam quase os mesmos, não está doendo.

Está só sendo divertido e desconcentrador, me faz bem ficar pensando & lembrando, pela primeira vez.

É engraçado porque eu não sei se isso é uma defesa que a minha cabeça criou para mim, para não me deixar sofrer, ou se o sentimento não foi tão forte assim, como tinha sido das outras vezes.

Acho legal a idéia da minha cabeça ter aprendido com os meus erros, ela soube racionalizar a situação, pela primeira vez, e me instruiu a não me abalar. Ela mastigou tudo o que eu vivi, depois cuspiu em forma de uma resolução: Não precisa se sentir mal.

No fim, não precisa mesmo. E nunca precisou, mas, das outras vezes - em especial da última -, foram necessários muitos murros no estômago, chutes na cabeça e cotoveladas no olho para me fazer entender que eu não deveria me sentir mal.

Isso pode ser um sinal de que eu estou conseguindo crescer, ou de que eu estou me tornando uma pessoa inerte. Porque o meu envolvimento, por mais que me fizesse mal, acabava sendo uma qualidade, fazia parte de mim. Me fazia pensar e me tornava mais criativa e inspirada. (Precisa doer para fazer sentido.)

Ao mesmo tempo, faz com que as coisas tenham menos importância e, por isso, me torna mais apta a conseguir lidar com elas.
Se eu não estou triste ou abalada demais, sinto que tenho mais controle sobre o que eu estou vivendo. E mais consciência dos meus atos, o que é racional, maduro e adulto, mas pode não ser divertido e produtivo.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Percebi que eu tenho mais curiosidade do que vontade de viver.

Eu queria poder entrar em uma sala de cinema vazia e assistir, sozinha, aos próximos anos da minha vida.

Se tem alguma coisa que me motiva a viver é querer saber o que vai acontecer. Não porque eu tenha vontade de fazer as coisas, porque eu queira sentir ou fazer sentir. Eu só queria saber no que vai dar.

Tem me deixado realmente triste a maneira como as pessoas que já viveram bastante falam sobre o seu passado. Acho horrível pensar que só temos uma chance. E que, por isso, todas as decisões que tomamos são cruciais, mesmo que as escolhas possam parecer pequenas ou banais no momento em que são feitas.

Um passo em falso pode ser suficiente para colocar uma vida inteira a peder. Quando mais o tempo passa, menos possibilidades se mostram disponíveis.

Queria saber se eu poderia ser capaz de conquistar alguma coisa, queria saber como vai ser a minha aparência daqui a alguns (ou muitos) anos. Não consigo imaginar a minha pele desmanchando em rugas, não quero perder a minha agilidade, fico triste pensando em perder todas as minhas amigas, porque provavelmente iremos nos distanciar com o passar do tempo.

Queria conseguir chegar a algum lugar. Mas as possibilidades são escassas. Todas as perspectivas que eu consigo projetar são desanimadoras, a realidade se mostra a cada dia mais cruel e eu percebo o mundo fazendo o possível para não deixar que eu exista. Como se uma força invisível fechasse todas as portas pelas quais eu estivesse tentando passar, me isolando em um quarto do tamanho do meu corpo, que vai ficando cada vez mais escuro e gelado.

Sou eu sem roupas, emgrecendo e angustiada, não conseguindo dormir por não conseguir deitar mas também por não conseguir parar de pensar, tentando respirar o ar que ainda resta ao meu redor, talvez esse seja um problema bem grande, eu não consigo parar de pensar mesmo quando não estou enclausurada em um quarto do tamanho do meu corpo que vai ficando cada vez mais escuro e gelado, eu penso nos problemas como se eles fossem a única alternativa, talvez eu devesse parar de pensar e tentar abrir a porta, ou talvez só devesse parar de pensar, porque pensar é voltar ao quarto do tamanho do meu corpo, que vai ficando cada vez mais escuro e gelado.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Odeio quando me perguntam como eu me sinto. Não acho que alguém tenha o direito de perguntar como eu me sinto. Talvez pessoas bem próximas possam tentar descobrir, de maneiras menos diretas, por que eu estou me sentindo particularmente mal, mas quem nem me conhece não deveria ousar me olhar e dizer que eu estou com uma expressão péssima.

Acho desreispeitoso e desnecessário perguntar como as pessoas se sentem. Se alguém que eu mal conheço me perguntar por que eu não estou bem, dificilmente responderei que é porque a garota a quem a minha cabeça dedica horas diárias de pensamento nem liga para a minha existência; ou porque eu não tenho apego nenhum à minha vida e que eu ando pensando com uma freqüência assustadora em me matar; ou porque eu acho que ninguém faz questão de mim e eu estou, aos poucos, me tornando uma pessoa repulsiva, não só para os meus amigos, como também para a minha família e, pior ainda, para mim mesma; ou porque eu tenho pensado muito no meu pai que morreu e me deixa bem triste o fato de que eu não posso mais falar com ele; ou porque eu ainda ouço vozes quando me sinto mal com o meu corpo, embora eu tente com muita força não deixar isso me abalar; ou porque não é que o comprimento da minha lista de problemas tem aumentado, mas a profundidade deles. Responderei que estou cansada, porque dormi pouco ou mal; ou que deve haver um engano, porque estou sempre me sentindo ótima.

O mesmo vale para machucados visíveis. Eu só não pergunto, não só porque pode ser constrangedor, mas porque, afinal, o que eu tenho a ver com isso? Qualquer um percebe quando alguém está com um olho roxo, uma mão quebrada ou um corte feio no braço. Talvez porque tenha apanhado em uma briga, porque goste de sadomasoquismo, porque tenha ficado bêbado e sido vítima de algum acidente idiota - enfim, não importa.

Também não importa o motivo pelo qual os parentes das pessoas estão hospitalizados, ou porque eles morreram. Não importa que atividade profissional eles exercem ou qual é a sua situação financeira.

Não importa tanta coisa que, se importasse de verdade, não viraria fofoca. Talvez seja isso o que as pessoas desejam: falar da vida dos outros pelos corredores do mundo. Ter um assunto novo, uma tragédia para espalhar por aí. Ou seja, ninguém que pergunta o motivo do inchaço de olhos tem a intenção de convidar para tomar um café e fazer sentir melhor, nem quem pergunta o porquê das bandagens em uma das mãos quer ajudar a carregar sacolas para amenizar a dor.

As pessoas querem ter o prazer de poder compartilhar com outros os problemas de qualquer um, ou, pior ainda, querem se sentir íntimos daqueles que sofrem. Talvez até se sintam felizes diante da dor dos outros, talvez se sintam menos prejudicadas ao ver pessoas em situações tão ruins.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Fico guardando lágrimas dentro da minha cabeça, o que eu sei que não é muito inteligente porque um dia elas vão querer sair. Elas todas, de uma vez, vão querer sair por onde conseguirem. Talvez elas estourem os meus olhos, talvez desintegrem as minhas bochechas, ou mesmo me façam cair no chão para nunca mais me levantar.

Isso tudo vem de uma habilidade freqüentemente últil que a história da minha vida me ensinou a desenvolver: não chorar. Muita gente se comove com uma bronca bem dada, sucumbe após um dia cansativo e não-recompensador, se desfaz ao flagrar uma traição. Mas eu não.

Lots of girls walk around in tears
But that's not for you

Pode parecer estranho, soar insesível, mas eu simplesmente sei como. Não é que eu não sinta nada, que eu não sinta dor. É só que eu sei disfarçar. Me fazer de bem resolvida.

Sempre que eu passo por uma situação constrangedora, penso em como ela seria se tivesse acontecido quando eu era criança. Nunca chorei diante de um momento embaraçoso, nem quando eu era criança. Mas, antes, eu deixava transparecer que não estava me sentido bem. Não conseguia agir rápido, ficava pensando em como aquilo tudo me doía sem conseguir falar nada, encarava qualquer objeto que estivesse disposto a aceitar o meu olhar.

Eram pessoas que gritavam, professores, parentes, adultos altos e ruins, gritavam porque eu não tinha entendido, porque eu tinha feito alguma coisa que não deveria ter feito. Muitas vezes não gritavam comigo, mas com coisas que eles queriam que eu fosse.

Coisas que eu não era, mas queria ser (para parar de ouvir gritos, poder encarar de frente e responder). Durante toda a minha vida, fantasmas me humilharam por não ser muitas coisas.

Eu cresci, aprendi a encarar e responder, mas, para isso, tive que aprender a guardar.

Consigo responder calmamente a alguém que grita na minha cara, não me ofendo em não dar a última palavra em uma discussão. Posso permanecer imóvel, de braços cruzados, assistindo a alguém que quebra pratos e derruba móveis de tanta raiva. Com naturalidade, continuo a conversar com os meus amigos quando me deparo com uma pessoa especial beijando alguém, e sorrio.

Para quem observa de longe, é uma qualidade positiva; devo parecer a pessoa mais forte do mundo. (Mas eu me importo, e machuca.)

No fim, talvez eu seja mais infeliz que as pessoas que choram: as lágrimas delas conseguem levar um pouco do que elas têm de ruim, do que elas sentem de mal, enfim, do que as incomoda. As minhas lágrimas, guardadas na minha cabeça, ao contrário do que eu sou capaz de demonstrar, me atormentam, porque não deixam que eu me esqueça dos problemas que fizeram com que elas se acumulassem.

Elas são pesadas, e vão continuar guardadas, mesmo depois de anos.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Imagina como seria bom se a gente pudesse escolher com o que se preocupar na vida.

É que tem coisas em que eu não escolho pensar, mas elas querem muito ser pensadas por mim. Infelizmente, as coisas da minha vida não podem ser pensadas por mais ninguém além de mim. Se pudessem, eu tentaria dar um jeito de fazer com que outras pessoas pensassem nos meus problemas.

Talvez fosse uma boa idéia. Eu mesma acharia bem mais fácil pensar sobre os problemas dos outros. Eu tomaria decisões racionais: estudaria cada umas das posições envolvidas como se fizesse parte de uma equipe de jurados. Pediria opiniões, levantaria hipóteses bem variadas até chegar à melhor alternativa possível.

Seria legal se pudéssemos resolver problemas de pessoas totalmente desconhecidas. Eles chegariam pelo correio, envolopes abarrotados de problemas, papéis amassados vindos de lugares distantes.

Eu os leria com cuidado, página por página de uma caligrafia quase sempre confusa, ansiosa, palavras escolhidas sem cuidado por pessoas que precisassem desesperadamente de ajuda. Eu poderia escrever respostas aos donos dos problemas, explicando minha opinião através de infográficos, tabelas, listas estensas.

Ou simplesmente poderia mentalizar soluções, e enviá-las às mentes amarguradas do meus destinatários. Mas não seriam favores diretamente recíprocos, quer dizer, uma pessoa não trocaria de problemas com a outra, ela apenas pensaria sobre os problemas de alguém e enviaria os seus próprios a outra pessoa totalmente diferente.

Os problemas chegariam de qualquer lugar do mundo, às vezes em línguas desconhecidas, seria divertido se esforçar para entender tudo, os problemas alheios seriam assuntos entre amigos em mesas de bar, e isso não seria visto como algo negativo, pelo contrário, não seria fofoca porque ninguém conheceria o protagonista dos problemas nem os envolvidos nele, seria uma comitiva de ajuda por alguém que pareceria nem mesmo existir de verdade.

Talvez soasse como saber da história de um livro ou de um filme (é claro que alguns problemas seriam chatos de tão banais, mas outros poderiam ser bem complicados e, por isso, mais instigantes), com a diferença de que o final poderia ser decidido. Talvez não decidido, mas influenciado. As pessoas se esforçariam, buscariam a melhor maneira de solucionar os problemas que chegassem até elas.

Mas, como eu não posso fazer com que outras pessoas pensem os meus problemas por mim, gostaria de pelo menos poder escolher os assuntos que devessem merecer mais dedicação da minha parte.

Eu queria poder acordar com uma lista mental dos assuntos que me preocupam e conseguir elencar as minhas prioridades. Em alguns dias, questões profissionais estariam no topo da lista, por exemplo. Em dias como esse, nada poderia tirar a minha concentração e determinação em fazer o que quer que eu precisasse fazer, nem mesmo a ausência de um telefonema, um sentimento de culpa brutal, um arrependimento inesquecível.

Ou, então, eu queria simplesmente ser capaz de optar pelo não-pensamento de alguns assuntos da minha vida, queria conseguir excluir preocupações que eu sei que me fazem mal e, a curto prazo, não vão me levar a lugar algum.

Minha cabeça não deveria ser obrigada a pensar em uma pessoa idiota que não merece nem mesmo o meu respeito, ou a se preocupar com questões longínquas de um futuro que eu nem sei se vai ser realmente vivido; acho injusto que eu tenha que ficar o tempo todo lembrando de situações ruins, pessoas perdidas, momentos constrangedores, ou, pior, que eu tenha que ficar remoendo sensações alucinantes de tão perfeitas, reimaginando milhares de vezes os mesmos instantes (que eu queria que tivessem durado para sempre).