terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Fiquei me sentindo mal porque eu queria ser eu mesma no ano passado ou eu mesma no ano que vem. Mas eu queria ser eu mesma, isso já é um grande avanço.

Só porque eu não queria estar aqui. Aqui em um sentido físico. (Na minha casa, neste momento.)

Fico tentando criar supertições que eu sei que não levam a nada. Então, estou tentando parar de criar supertições. Penso nos momentos anteriores aos melhores momentos que eu vivi ultimamente. Penso em como isso tudo é especial, porque eu era outra pessoa antes de ter vivido estes momentos.

Eu também era outra pessoa antes de ter vivido momentos ruins, claro. Sei que eu mudo muito mais depois de conhecer momentos de sofrimento, mas parece que os momentos bons é que me fazem uma pessoa melhor.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Por que eu não quero ter filhos

1. Sou contra a instituição da família burguesa
Isso é sério. Não acho certo que algumas pessoas tenham oportunidades melhores na vida só porque nasceram em famílias melhores - mais emocionalmente estáveis, mais ricas, de gosto melhor, de melhor bom senso.

E não gosto da convivência em família. São várias pessoas morando em uma mesma casa (ou se encontrando com freqüência) que, se não tivessem sido obrigadas a conviver dessa maneira, dificilmente o fariam por opção.

Acho que seria ótimo se pudéssemos ser pessoas soltas, sem obrigações congênitas. É claro que isso nos obrigaria a morar em orfanatos (que não se chamariam assim, porque ninguém teria pais) até que tivéssemos certa idade, o que, na minha opinião, não seria algo ruim, porque cresceríamos ao lado de pessoas de idade correspondente - amigos.

Isso certamente demandaria uma infra-estrutura que não existe na maioria dos países hoje, mas, com o tempo, poderia se tornar algo tão fundamental que, por pior que fosse, simplesmente teria que existir.

Não sei muito bem como os pais fariam os filhos, provavelmente alguns bebês seriam roubados assim que nascessem por pessoas conservadoras, seria preciso que houvesse um grande controle sobre isso. Minha mente não consegue pensar em saídas muito melhores que as do Admirável mundo novo, infelizmente.


2. Não gosto de crianças
Não que eu queria chutar todas as crianças que eu vejo, nem que eu não seja educada e até bastante receptiva com as crianças que insistem em falar comigo; eu só não me emociono na presença de uma criança.

Engraçado, porque eu vivi a minha vida inteira tendo medo de crescer. (Ainda tenho.) Tenho uma lembrança bem forte de quando eu tinha uns cinco anos, em que eu estou vendo um álbum de fotos minhas quando bebê e chorando muito. Eu não consigo gostar de ver o tempo passando, talvez seja isso, e de pensar que não temos mais contato com o passado.

Hoje, não vejo muita graça em ser criança, embora eu me lembre de gostar de ser criança. Se bem que eu não vejo nenhum atrativo na idéia de envelhecer e talvez eu goste de ser mais velha, um dia.


3. Não sou responsável
Sou boa em seguir acordos, guardar segredos, cumprir promessas. Se alguém precisa da minha ajuda, tento contribuir da melhor maneira possível; eu reconheço isso.

Mas tem coisas que eu faço comigo que eu não faria com os outros.

Então, se alguém dependesse de mim para existir, e estivesse perto de mim o tempo todo, talvez percebesse que eu não sou tão boa assim para mim mesma, e isso poderia machucar. Fora o fato de que eu poderia considerar essas pessoas (meus filhos) como estensões de mim, fazendo, com elas, coisas que eu faço comigo mas não faria com os outros, porque eu poderia fazer isso sem perceber.


4. Eu não conseguiria conviver com a culpa de gerar uma pessoa infeliz
Acho que essa seria a maior infelicidade de todas as infelicidades que eu poderia sentir na vida. É também por isso que eu nunca gosto de dizer para a minha mãe quando eu estou me sentido triste. Deve ser um sentimento horrível de derrota. Saber que aquela pessoa, que existe no mundo por sua causa, está infeliz... É claro que você tem culpa. Ou, se é que não tem, deve fazer um esforço enorme para deixá-la feliz.

Me assusta a idéia de que a felicidade de alguém deva depender de mim. Eu não tenho competência nem para fazer de mim mesma uma pessoa feliz.


5. Não tenho a intenção de misturar os meus genes com os de alguém que eu amo (porque isso só daria certo se essa pessoa fosse um homem)
Não faz muito tempo que eu percebi que essa é uma das grandes razões que levam as pessoas a querer se reproduzir.

Não acho que seja só isso (a vontade de materializar um amor em uma forma física), mas também um desejo por continuidade, tentar deixar algum pedaço de si mesmo no mundo.

Li outro dia uma entrevista com um biólogo em que ele, perguntado sobre o aumento da longevidade e as suas hipóteses a respeito da possibilidade de se viver infinitamente, disse uma coisa que me fez pensar muito: não existe razão evolutiva que justifique a continuidade da vida dos pais depois que seus filhos se tornam independentes. Bom, mas isso não tem muito a ver com o que eu estava dizendo.

Mesmo assim, ainda que não diretamente, me ajudou a entender algo que sempre me deixou intrigada: por que os pais gastam tanto tempo disputando a posse da aparência dos filhos. É a ilusão de estar deixando pedaços de si mesmos no mundo.


6. Quero ter a minha vida para mim
Não sei muito bem como funciona quando se fica mais velho, mas tem que existir alguma coisa que motive a viver, quando se fica mais velho, que não seja o futuro.

Para mim, acho que a motivação vai ser sempre a mesma. Coisas. Livros, filmes, música, artes. E horas de pensamento sendo despejadas da minha cabeça para dentro de mim. Isso é a minha vida, e isso depende de mim (só de mim).

Por isso eu não quero ter filhos e por isso eu nunca quero me casar. Talvez, se alguém tivesse me perguntado isso antes, há alguns anos, a resposta poderia ser diferente. Hoje, eu já acho que eu tenho a minha vida como ela vai ser para sempre.

Se ninguém tivesse filhos (vide item 1), a lógica de vida de todo o mundo seria diferente. Com certeza, bem menos gente pensaria em se casar. E as pessoas viveriam mais para si mesmas, com certeza. (E mais para o mundo do que para outras pessoas, com certeza.)


7. O mundo já tem gente demais
E não tem?

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

drafts

Queria você bem triste
Queria te ver no chão
Queria tão machucada
Tão mal, tão ruim (tão linda).

Queria você chorando
Debaixo de um guarda-chuva.
Minha câmera fotografando
As lágrimas da sua chuva.

Queria você bem perto
Na frente do meu viewfinder.

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Queria você bem perto
Na frente do meu viewfinder.
Queria você chorando
Debaixo de um guarda-chuva.

Queria você bem triste
Queria te ver no chão.
Minha câmera fotografando
Suas lágrimas e não a chuva.

---

Queria você bem triste
Queria te ver no chão
Queria você chorando
Na frente do meu viewfinder.

Queria você bem perto
Debaixo de um guarda-chuva.
Minha câmera fotografando
Suas lágrimas, mas não a chuva.

Queria você caída
Suplicando, linda, derretida
Em uma poça de chuva.

Queria te ter bem perto...
Minha câmera fotografando
Suas lágrimas; mas não a chuva.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Alguém já percebeu que quase tudo o que eu escrevo começa com "Fiquei imaginando..."? Mas é porque é verdade. Estou o tempo todo imaginando. Freqüentemente, imagino situações impossíveis - o que não me impressiona; me impressiona que as outras pessoas não percam tanto tempo quanto eu imaginando absurdos.

Fiquei imaginando como seria quando eu quisesse terminar. Fiquei me imaginando em um carro, a madrugada do dia que eu já escolhi, garrafas de bebidas caras (seriam as últimas, afinal), uma estrada infinita - porque ela vai e volta, eu poderia dirigir nela para sempre, se eu quisesse - muito escura, as minhas lágrimas e a minha música tocando bem alto. Fiquei imaginando a minha breve despedida (um recado em código, uma mensagem de texto enviada para a lista), que não seria breve por descaso, mas por incapacidade.

Nunca estive tão curiosa para saber se eu vou estar viva daqui a um período de tempo bem curto. Soa tudo muito perfeito. O dia que eu escolhi é perfeito. Tudo vai estar bem mais calmo até lá, eu provavelmente já terei recebido mais umas vinte ou trinta provas de que não deveria estar no mundo e de que a minha vida não pode dar certo; tudo soa perfeito.

Eu não queria estar sorrindo no meu último dia, mas queria que as pessoas se lembrassem de mim com um amor feliz.

Não queria causar aflição. Queria que fosse simplesmente um fato que as pessoas tivessem que aceitar. De repente. Estarei aqui e, no segundo seguinte, não estarei mais. Sem muita dor, mas com muito sofrimento.

Depois, minha imaginação me levou a outros rumos. Afinal, contra o que eu teria que colidir o meu carro em uma estrada deserta? (Imaginei uma daquelas que têm duas mãos na mesma pista.) Contra outro carro seria injusto. Contra uma árvore ou um cercado de acostamento teria grandes chances de dar errado - ou seja, não morrer . Me jogar de um barranco seria difícil, e também não seria garantido.

Pensei em pulsos e sangue, um partido que eu nunca achei que fosse o melhor. Se eu sobrevivesse, poderia ficar em estado vegetativo por décadas. Descobri como se faz o corte da melhor maneira. Mesmo assim, seria doloroso. O que eu não acho que seja um agravante, porque essa seria a minha última dor. Tenho pena de quem me encontraria mergulhada em uma poça de sangue, sem cor no rosto e de olhos virados, sem roupa, jogada no chão do meu quarto. Isso também seria injusto.

É que às vezes eu me sinto tão triste que tenho vontade de me machucar muito. E acho que, pela primeira vez na vida, sinto que eu não tenho nada a perder.

Quando eu era mais nova, tinha esperanças em relação ao meu futuro. Vivi momentos bons desde então, talvez os meus melhores momentos. (Então, se tiver que acabar, que não seja na decadência.)

sábado, 23 de outubro de 2010

injustiça

Se apaixonar por alguém é algo que pode acontecer ao longo de cinco segundos. Mas se desapaixonar pode levar anos.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Fiquei lendo aquele bilhete mil vezes, apertei o papel e o amassei e quase estraguei tudo, a tinta da caneta ficou impressa na minha mão. Eu não conseguia sorrir, porque era lindo demais, nem conseguia tirar as rugas da minha testa (porque era lindo demais). Era tão lindo que uma das minhas sobrancelhas não conseguia mais ficar na altura certa. Meus dentes batiam de amor.

Pensei por horas no que eu poderia responder. Escrevi centenas de tentativas. Tinha que ser casual, como o bilhete dela. Muito papel foi se amontoando à minha frente. Primeiro, guardanapos. Depois, folhas de papel, que eu achei que seria mais adequado. Mais tinta sujando as minhas mãos. Não podia ser impreciso. Nem longo demais. Eu escrevia em mim em vez de escrever nos papéis. Eu escrevia na mesa, na xícara do café que eu já tinha tomado, no pires da minha xícara, em livros que não eram meus e por cima das matérias de um jornal abandonado, eu escreveria na caneta se fosse possível.

É claro que o bilhete dela tinha sido uma resposta, não é como se ela tivesse me escrito com a sua própria espontaneidade. Ainda assim, era um bilhete que ela tinha escrito para mim, palavras em que ela tinha pensado para me escrever; ela tinha pensado em mim por alguns instantes (alguns minutos, talvez), aquilo não tinha tomado todo o dia dela como havia tomado o meu, tenho certeza, mas, de toda forma, ela tinha pensado em mim.

No meu primeiro bilhete, eu disse que naquele dia tinha lembrado dela. Me perguntei se ela saberia que eu penso nela o tempo todo.

Me perguntei se eu estaria sendo incoveniente, talvez eu não devesse ter ido atrás dela só porque havia lembrado dela por um motivo besta; só então percebi que a gente só havia se falado umas cinco vezes na vida. Bom, talvez um pouco mais. Mas não mais que dez. É que acho que eu achava que ela podia entender como eu andava me sentido, que ela podia ver os meus pensamentos sobre ela o tempo todo.

Se ela pudesse, ou me amaria ou me odiaria. Como ela não podia, provavelmente devia achar que eu nem estava ligando. Que aquilo tudo tinha sido normal para mim. Bom, não tinha. Foi bem melhor do que normal. E bem pior do que normal.

(É a minha história e pronto: está ouvindo? Eu me apaixonei. Caí de quatro. Me derrubou. Fiquei feliz, depois fiquei um farrapo. Fazer o quê?)

Eu queria escrever alguma coisa óbvia, para tentar não mostrar os meus sentimentos, ao mesmo tempo que queria que ela percebesse que eu me importava. E que eu poderia estar esperando. (Eu estou esperando.)

Não sei muito bem o que eu queria no final (do mundo, da minha vida, da vida dela). Só consigo pensar em situações pontuais. E, se não houver mais ninguém, nunca mais, capaz de olhar para mim, que não haja.

(Quando me fez cair de quatro ela também me deixou invisível.)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Que tal dormir que tal ossos não doendo que tal não sentir frio que tal idéias e que tal cabeça que tal alguém que tal você que tal eu que tal uma névoa e que tal sair de perto de toda essa gente que tal um dia assim um dia que tal um dia se você me olhasse assim não hoje que tal um dia que tal se eu fosse muito muito grande e você fosse legal legal que tal sapatos e tirar sapatos que tal imagens passando bem rápido dentro da cabeça que tal se essas imagens não fossem só minhas que tal se a gente dividisse um drink e que tal se você nunca me dissesse mentiras que tal ficar aqui deitada para sempre que tal observar as pessoas passando ao longo dos anos que tal aquele cara que a gente odeia ficando velho que tal ser jovem para sempre que tal verdade e que tal amor que tal não ter mais que impressionar as pessoas que tal parar de fingir que tal isso que tal tudo que tal um dia que tal um dia parar de fingir que tal se tudo estivesse bem que tal não ter mais que fingir que está tudo bem que tal levantar desse chão de concreto que tal poder escolher entre ele e uma caminha quentinha que tal um abracinho quentinho que tal uma mãozinha maciazinha que tal um amorzinho que tal se você fechasse os seus olhos agora que tal se eu fechasse os meus olhos agora que tal o quê que tal tantas coisas que tal se eu te escrevesse uma carta e nessa carta que tal se eu te escrevesse como eu me sinto daí que tal se você me respondesse só com um sorriso que tal se eu te escrevesse cartas sempre e que tal se você me respondesse sempre com um sorriso que tal se você gostasse das minhas cartas e que tal se você sorrisse com sinceridade que tal se você não dissesse mentiras que tal se não falássemos nada que tal seria seria que tal um pouco e que tal um muito

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Imagina você na sua própria casa, daí seria tipo domingo e você estaria meio acordando, meio com sono ainda, meio não querendo olhar as horas porque seria muito, muito tarde e você estaria de pijama ainda. Estaria chovendo e você estaria de saco cheio, como você sempre está (e nos domingos as coisas ficam ainda piores). Daí você não teria muito o que fazer, ou não quereria muito fazer nada do que se existe para se fazer no mundo, então você ligaria o computador, porque é o que você faz quando tem preguiça. E aí estaria lá, a notícia da sua vida, você ia rir e ficar imaginando como foi que isso foi acontecer, as pessoas faziam piada mas ninguém nunca achou que realmente fosse acontecer. Você ia ver as fotos das ruínas, um pedacinho da sua vida que ruiu (mais um outro pedacinho), talvez a primeira ruína literal (se você resolver não contar as pessoas que se desfizeram).

Você ia ler tudo o que estivessem dizendo sobre a notícia da sua vida, em todos os lugares possíveis. Depois disso, ia ligar para os seus amigos rindo, e eles não estariam rindo. Você ia argumentar, dizendo que ninguém se machucou nem nada, e que esse seria um bom motivo para alguém tomar alguma providência; as pessoas te achariam maluca.

Também iam te ligar e perguntar como era ser você naquele momento (as pessoas que não conhecessem outras pessoas que estudassem lá), você ia dizer que tinha achado tudo engraçado, mas, depois, provavelmente ia se arrepender e achar que ficou tudo trágico. Daí iam querer fazer documentários, entrevistar gente que esteve lá na inauguração, iam chamar o diretor para falar sobre aquilo, ele não ia fazer piada mas ia fazer ironia, afinal, qualquer um poderia supor que algum problema sério aconteceria um dia.

Você ia querer ir até lá com a sua câmera, a área estaria toda cercada, talvez a universidade inteira ficasse fechada por alguns dias. Você chegaria bem perto pedindo muito por favor com toda a sua boa vontade, ou simplesmente entraria escondida. Só assim você teria noção do estrago. Você chegaria bem perto e pensaria nos momentos que passou ali dentro, por baixo daquelas ruínas quando elas não eram ruínas, nem foi tanto tempo assim, mas, com certeza, te doeria.

De qualquer forma, seria um bom jeito de colocar fim a uma etapa da sua vida, não sei o que você faria depois disso, mas pelo menos teria um impedimento físico, já que você não consegue se impor uma barreira mental.

E, bom, não sei o que eles fariam com todos os outros alunos, afinal, a vida te deu uma chance de desistir dessa parte de você, só que os outros talvez estivessem querendo continuar, e precisariam de um espaço para continuar. Eles poderiam espalhar os alunos que nem formigas, distribuir grupos de alunos pelas outras faculdades, o que talvez não fosse dar muito certo, porque quase ninguém faz as mesmas matérias e, também, as pessoas com certeza não achariam bom se fossem assim separadas.

Eles - os estudantes remanescentes - fariam protestos, talvez piquetes, enfim, ao menos passeatas com cartazes escritos com tinta guache, a imprensa iria noticiar isso como um grande absurdo, surgiriam manchetes se referindo a eles como "órfãos" ou até "sem-teto", junto com um monte de sarcasmo daquele tipo que só deve ser feito com a própria desgraça.

A essa altura, você já estaria conformada em ter a sua vida de volta só para você, sem ter que se deslocar todos os dias até aquela faculdade, talvez você até acabasse achando ruim e, então, junto com os seus amigos bêbados, você falaria melancolias em alguma pista de dança.

sábado, 25 de setembro de 2010

Fico com aflição de não escrever sobre as coisas que eu vivi, porque acho que elas vão se perder na minha memória. No fundo, esse blog não é propriamente sobre "coisas que aconteceram comigo". Mas diz muito sobre mim. E dá pistas sobre coisas que aconteceram comigo.

Comecei a escrever literatura porque eu queria que algumas coisas, de alguma forma, realmente acontecessem na minha vida. Então é isso que escrever é para mim: um jeito de tornar real o que eu não posso viver - ainda que seja mentira.

Bom, não; não acho que seja mentira - ainda que não seja verdade. (É só que a palavra mentira não soa bem.)

São reflexões sobre coisas plausíveis. O maior prazer da minha vida é imaginar. Me perder nos meus próprios pensamentos. E me surpreende me lembrar, quando alguém me pergunta algo como "O que você fez hoje?", que eu não fiz as coisas que eu imaginei.

Não acho que eu viva uma vida interessante. Talvez até emocionante, mas não muito divertida. Eu poderia, sim, escrever romances (vários) sobre a minha vida, mas eu poderia escrever romances sobre qualquer coisa. Milhares de páginas sobre três segundos. As situações mais triviais do mundo.

No mais, tenho medo de escrever sobre coisas que aconteceram comigo porque tenho medo de que alguém as encontre. Eu não gostaria que as pessoas lessem a minha vida. Não do jeito como eu gostaria de escrevê-la.

Além disso, é muito difícil escrever sobre o que eu mais gostaria de escrever. Situações despedaçadas, mal-resolvidas são sempre as mais interessantes. E me dói muito ter que verificar a coesão de cada frase, prestar atenção demais à gramática e todas essas coisas que precisam estar presentes em um texto.

Em geral, eu só preciso de um assunto para escrever. Mas, quando o assunto sou eu e o meu passado, não consigo ser minha própria editora. Ou até consigo, com um sacrefício enorme.

Enfim, de um jeito ou de outro, a minha vida se reflete no que eu escrevo. Eu só queria ter mais coragem e transformar todas as sensações que eu vivi em palavras. E presentear as pessoas com o meu ponto de vista. Isso é o que você foi para mim, eu diria a elas, entregando manuscritos.

O que me incomodaria é que elas provavelmente ficariam tentando interpretar demais, ou se sentiriam honradas demais por estarem recebendo relatórios meus sobre a nossa convivência. Eu só não quereria ser mal-compreendida. Afinal, eu não estou apaixonada. Nunca estive.

sábado, 21 de agosto de 2010

Se eu pudesse abraçar alguém enquanto pedisse por favor, eu agiria como uma pessoa simpática por cinco minutos, implorando, com a voz arrastada.

"Você sabe quanto tempo eu ainda tenho? [beijo no rosto] Muito pouco, na verdade."

Eu diria isso se soubesse quanto tempo de vida ainda me restaria. Eu contaria à pessoa em questão: dois meses. Ou talvez um ano, ou 18 dias, não importa.

Seria possível que a pessoa se comovesse e aceitasse a minha proposta.

"Sabe, [sorriso] a gente nem vai precisar fingir que a gente não se conhece da próxima vez que nos virmos, porque não haverá uma próxima vez."

Não seria algo estranho. Qualquer um poderia ter acesso a essa informação. Todo o mundo se programaria da maneira mais conveniente para o dia da sua morte. E, então, quando ele finalmente chegasse, as pessoas cuidariam para que tudo acontecesse da melhor forma possível - embora quase nunca isso fosse uma opção.

Testamentos seriam melhor elaborados, ninguém nunca seria pego de surpresa com uma notícia desagradável e, o mais importante, tenderíamos a dar mais valor aos nossos momentos vividos.

Aqueles que fossem destinados a morrer jovens seriam os mais felizes. Viveriam seus poucos anos de vida de forma despreocupada - jamais teriam que se sustentar, saberiam que nunca passariam por uma forma de solidão tão comum na velhice e poderiam atentar aos seus próprios corpos sem nenhum peso na consciência. Eles passariam noites em claro na intenção de não deixar que nada lhes escapasse.

Quem fosse morrer dentro de pouco tempo provavelmente estaria sempre se perguntando o que viria a causar aquilo, caso estivesse vivendo uma vida totalmente normal naquele momento. Acidente, infarto, doença infecto-contagiosa gravíssima?

Dependendo da idade da morte, nem valeria a pena fazer planos a longo prazo. Então as pessoas seriam felizes assim, e essa seria uma boa justificativa para qualquer coisa. Um bom motivo para gastar todo o salário em besteiras, ou para magoar alguém, talvez para matar alguém (será que o destino do assassinado também estaria previsto?), um motivo bom o suficiente para fazer uma viagem infinita - morrer em um lugar escolhido com calma.

Mas, com certeza, haveria aqueles que prefeririam ser silenciosamente levados da vida.

"E então, quando é que vai ser, hein?" "Não faço idéia."

Como as grávidas que preferem não saber o sexo dos seus bebês. Não é que elas não tenham curiosidade. Talvez gostem de esperar a hora certa (sejam pacientes). Ou desanimadas. Afinal, um dia a hora vai ter que chegar.

Muitos tentariam explicar o seu destino através de coincidências de fatos ligados ao dia da sua morte. Obcecados por números analisariam o horário exato de partida e teriam hora, minuto e segundo fixos em suas memórias, para que tudo o que apresentasse alguma semelhança remota fosse tomado como importante. Placas de carros desconhecidos, números de telefone - para citar obviedades. Eles se aproximariam de pessoas cujo número de RG fosse de alguma forma correspondente à marcação do relógio no instante do seu último suspiro, por exemplo.

Finalmente, o instante tão esperado. Um pescoço quabrando em uma batida de carro. A dor de um punhal rasgando o estômago. Morrer dormindo. Morrer no hospital. Com uma pessoa importante ao lado. Com um cano de revólver enfiado na boca.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

razões pelas quais eu quero ter uma arma

- ela é linda;
- o bebê do andar de cima definitivamente não merece viver;
- ela é linda, brilhante e geladinha;
- eu preciso me proteger (ok, nunca aceitei essa desculpa, não acho que uma pessoa tão pouco destemida como eu esteja mais protegida com uma arma);
- eu quero;
- a minha mãe ficaria possessa;
- eu poderia simular seqüestros, assaltos e muitos outros crimes (poderia, sim);
- eu poderia atirar em alvos e me considerar capaz caso conseguisse acertar o centro.


(A brisa que eu tive ontem à noite, na primeira das várias vezes em que tentei dormir.)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Você está com vontade de desenhar, não sente vontade de sair de casa mas não acha ruim quando sai, pensa que ninguém gosta de você, gosta de pensar que você não gosta de ninguém, tem medo de nunca conseguir gostar de alguém de verdade.

Você tem medo de um monte de coisas. Sempre teve. Talvez já tenha tido mais do que hoje - já teve, com certeza. Você não se sente mais tão mal na frente dos outros. Mas, hoje, tudo é muito mais sem graça do que já foi. Você não se sente melhor do que ninguém, mesmo quando tem motivos para isso.

Você não se acha bonita nem feia, acha as pessoas que você não conhece bonitas e todas as que você conhece, feias. Você não quer ninguém que você conhece. Nem quer se esforçar para conhecer pessoas novas.

Você tem medo de pensar nas coisas que você quer, porque isso é uma garantia de que elas nunca vão acontecer. Você queria, mais do que tudo, que as suas histórias - seus personagens e seus lugares, os problemas inventados e as suas soluções divertidas - fossem reais. Que elas fossem você.

Você provavelmente não quer mais criar histórias. Você quer viver - pela primeira vez na vida. Quer abrir os olhos e sentir as coisas que existem. Que pedaços de papel, tecidos rasgando, marcar encontros, cumprir promessas.

Mas você nunca vai deixar de querer um vício. Falo isso porque eu conheço você. Nunca, nunca mesmo. Nem adianta tentar. Você gosta de se estragar, e tem que ser sozinha. Você nunca deixaria alguém ir tão longe. Ouvir as coisas que você murmura antes de dormir, observar os seus pensamentos passando pelas paredes de um quarto escuro.

Você tem medo de ter medo para sempre. E do sempre. Sempre te incomoda muito. Você odeia não conseguir prever, quer evitar criar vínculos para que, um dia, quando finalmente for a hora certa, você não se sinta culpada.

A verdade é que você não se sente bem. E, se alguém te perguntasse o que você tem de errado, você diria isso, que não se sente bem. E que não tem a menor idéia do que poderia fazer para se sentir melhor. Talvez não propriamente bem, só melhor.

Você costuma achar que está se sentindo bem, quando acontece alguma coisa idiota e você percebe que não é bem assim, que não pode ser bem assim. A coisa idiota acontece e, de repente, você se se dá conta de tudo. Começa a te faltar ar, te faltam palavras - você diz qualquer coisa, para ninguém perceber -, sua garganta fica molhada de lágrimas, você engole em seco e ri. Ri de você.

Depois, você chora de você. Sozinha.

As coisas ruins estão presas dentro de você. Elas nem são mais problemas, são coisas com as quais você se acostumou a viver; você aprendeu a lidar com elas. Você se conformou com muito do que já foi um absurdo para você.

Então, se alguém estapeasse o seu rosto, você nem piscaria. Como já aconteceu muitas vezes. Você não se importa, e acha ridículo que as pessoas se importem. Como você consegue não sentir dor, quando deveria doer?

sábado, 7 de agosto de 2010

Em um dos começos de noite claros (sem crepúsculo, mas com anoitecer), quase o último, imaginei como seria se eu não estivesse mais aqui. Tudo do que eu teria, antes, que tomar providência. Sinais que eu deixaria, mensagens escritas em lugares obscuros, para serem encontrados muito tempo depois.

O que eu deveria dizer às minhas pessoas importantes. Começou com uma carta única, destinada a todos que me conheceram. Acabei adicionando mensagens pessoais, que rapidamente se transformaram em cartas exclusivas, lotadas de detalhes - muitas vezes, explicações que vêm da época do meu primeiro contato com o destinatário. Mentalmente, escrevi cartas a pessoas de quem nunca fui tão próxima, mas que significaram muito para mim.

Concluí que, se eu tivesse que morrer, levaria anos até ter todo esse material pronto. Ou deveria começar antes de estar com a decisão plenamente tomada. Seriam muitas palavras. Coisas que eu nunca disse a ninguém - nem pretendo, de outro modo.

No começo de noite seguinte (oficialmente, o último, que eu me lembre), desisti da comunicação individual para passar a outro patamar: orientações sobre o que fazer com os meus restos. Uma listagem complexa de cada um dos meus atributos físicos, cada pedacinho de mim; eles deveriam se tornar pingentes de colares, material para desenho, talvez até mesmo comida (em segredo, senão ninguém iria querer comer), utensílios dos mais diversos usos.

Imaginei alguém arrancando a minha pele, depois tirando a carne dos meus ossos. Depois alguém distribuindo tudo entre as pessoas certas (citadas na carta de orientação), ou as coisas se distribuindo sozinhas, aparecendo jogadas em meio às bagunças das pessoas. Engraçado imaginar o meu corpo não sendo mais eu. (Estranhamente, eu assistiria ao meu próprio esquartejamento.)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Se o crepúsculo trazia as tristezas, era provavelmente pela falta da luz. O mundo escurecia, opressivo, e a idéia mais óbvia era que o sol levasse embora todas as verdades em que acreditávamos, tábuas rígidas de madeira em que pisávamos, quase sempre tomando enorme cuidado (abrindo os braços quando necessário), para que conseguíssemos permanecer andando, apoiando-as sobre duas superfícies distantes.

Talvez o sol devolvesse os nossos pedaços de madeira quando voltasse a nos ver, no dia seguinte, e por isso acordaríamos nos sentindo melhor. Acordaríamos com vontade de enfileirá-los e continuar nossos percursos, não importasse aonde estivéssemos indo, até que ele voltasse novamente para recolhê-los. Um dia depois do outro.

Estranho descobrir que, mesmo com luz, a tristeza vem. Uma sensação precisamente igual de verdades sendo tiradas, conforme o fim do dia se aproxima. A angústia aumentando a cada minuto que se segue; o sol imóvel, sem se importar.

A prova de que o ideal, talvez, seja não acreditarmos em nada. Vivermos pela inércia de viver, sem pensar no que fazemos, sem olhar para onde pisamos. E perceber que a maioria das pessoas não se preocupa em arranjar explicações para os seus sentimentos.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Uma coisa ruim de ser eu é falta de concentração. E, por causa disso, demorar muito para fazer o que quer que seja. Que também tem a ver com um perfeccionismo que raramente quer chegar à perfeição (só quer ver feito o melhor possível, ainda que ele não seja perfeito, e acredita no consumo de tempo como forma de aprimoramento).

Consigo prestar atenção a várias ações simultâneas com facilidade, mas preciso de um esforço enorme para conseguir me dedicar completamente a uma única. O melhor exemplo disso: ler.

Estando em um quarto silencioso, costumo ler a primeira frase de um texto (de um livro, uma revista ou qualquer outra coisa) e, se estiver bem disposta, consigo passar à segunda. Senão, continuarei pensando no que estava pensando antes de começar a ler (talvez um assunto importante que andasse me preocupando, talvez a questão mais trivial do mundo, como o fato da capitular com que se inicia o texto parecer com uma iluminura, que me lembraria um trabalho sobre caligrafia que eu fiz no ano passado, que me lembraria uma história em quadrinhos que eu li no primeiro colegial, que me lembraria as aulas de idade média da sexta série, e assim por diante).

De repente, meia hora terá se passado - sem exagero - e eu me darei conta de que eu já terei lido a mesma frase inicial do texto mais de duzentas vezes e, ainda assim, não terei compreendido o que ela estaria querendo dizer. Afinal, porque eu simplesmente não paro de ler? Eu poderia pensar no que estivesse me atormentando o cérebro e, depois, poderia voltar a ler. Mas não se trata de algo voluntário.

Outra coisa ruim de ser eu é TOC de organização mental. Preciso hierarquizar tudo dentro da minha cabeça. Se não consegur, fico louca. Mas também fico louca tentando, então não faz tanta diferença assim.

Mais uma coisa ruim é o hábito que eu tenho de polarizar situações e sentimentos, o que é péssimo, porque é falso, já que o assunto são pessoas. Às vezes, me concedo a liberdade de pensar que posso estar agindo como uma personagem esférica, o que desculparia os meus atos contraditórios e me faria mais próxima de uma pessoa; no mais, gosto de pensar que todos têm opiniões irrefutáveis e concretas, que são espectros das suas próprias idéias, constantemente.

Mas nem eu sou isso, não ajo de acordo com valores definidos o tempo todo; quando mudo de opinião, me sinto a pior pessoa do mundo. Acho esquisito como é comum que se diga algo e, alguns dias depois, que se diga algo totalmente diferente, ou o seu oposto.

Por isso, não gosto de expressar o que eu penso até que eu o considere realmente verdadeiro (sendo que algo verdadeiro, admiti, nunca é de uma verdade absoluta - infelizmente, aparentemente, mas, no fundo, felizmente).

Quando conto algo a alguém - qualquer coisa, a qualquer pessoa -, abro espaço para que imagens sejam construídas ao meu redor, para que associações sejam feitas a quem eu sou. E o que eu sou, inevitavelmente, perpassa por todas as coisas que eu digo. Talvez fosse melhor simplesmente não dizer, não dizer nada nunca, desconversar, fingir que não estou ouvindo quando me perguntam e encarar até que desistam. Ou nem tentar escutar, e me livrar de todo o convívio que possa extrair palavras de mim, nunca mais sair de casa ou nem mesmo me levantar da cama, e então os únicos movimentos que eu precisaria fazer seriam os de abrir e fechar os olhos.

domingo, 25 de abril de 2010

Senti vontade de alguém que dissesse coisas no ouvido, com uma das mãos no meu rosto e a outra na própria cintura. Uma pessoa pequena, de gestos pequenos e sorrisos rápidos (mas não efêmeros). Alguém que abraçasse por trás me fazendo cair, tentando encostar o queixo em um dos meus ombros.

Alguém que não esperasse respostas, ou que me convidasse, ou que gostasse da luz do dia, ou simplesmente uma pessoa bem disposta.

Queria alguém que me fizesse acreditar que eu ainda sou alguém - e não só um pedaço de pessoa com convicções obsessivamente ruins. Alguém que dissesse boa noite. Mas que não se importasse com horários.

Alguém com menos métodos do que eu, claro. E que entendesse o que eu quero dizer mas não digo, por preguiça ou medo ou preguiça e medo.

Alguém que respeitasse silêncio e que gritasse comigo. Uma pessoa bem intencionada. De bons hábitos mas não careta, que não cobrasse sorrisos e compreendesse momentos ruins.

Que aceitasse a verdade quando ela quer aparecer, uma pessoa que não perguntasse mas estivesse interessada (e fizesse o possível para descobrir).

Alguém que retocasse o meu batom por mim enquanto eu estivesse de olhos fechados, que apertasse as minhas bochechas entre as duas mãos e agradecesse, alguém que dormisse com a cabeça na minha barriga, que tirasse fotos no escuro e não reclamasse da minha mania de estar sempre com as mãos fechadas - mas tentasse fazê-las abrir de algum jeito que não envolvesse encostar em mim.

Alguém que usasse querida ao invés de amor (porque amor tende a ser mentira).

Uma pessoa para quem eu pudesse ler em voz alta, dar presentes, alguém que me deixasse preocupada se ficasse doente ou se sentindo mal por qualquer outro motivo.

sábado, 27 de março de 2010

Transbordando não é uma situação boa porque a gente queria sempre conseguir conter tudo o que pensa e o que sente. Quando você está transbordando, todo o mundo percebe, mas ninguém diz o que acha da sua situação.

Transbordando são sorrisos largos e besteira na cabeça, sinestesias românticas (como gostos macios e perfumes quentes) roubando o lugar de todos os outros pensamentos no cérebro.

Hoje não me sinto transbordando; me sinto com raiva, e queria os meus problemas resolvidos o mais rápido possível. Queria poder encarar e perguntar O quê?, conseguir ter a coragem de dar tapas na cara, nem que tivesse que estapear a minha própria cara.

Sei que a vida não teria a menor graça se as pessoas não soubessem fingir - ainda que elas nem sempre finjam voluntariamente -, mas queria que, às vezes, tudo pudesse ser mais transparente. Que os diálogos funcionassem como peças de um quebra-cabeças (infinito, obviamente) e, sim, eu não teria mais tantos problemas.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Com o celular quebrado, acabei me decidindo por usar músicas como despertador. Ontem e hoje foi Supergrass (ontem Za, hoje Evening of the day). É legal porque eu acordo pulando - nunca fui de acordar de uma vez - e passo a primeira parte da manhã no êxtase da música, que continua tocando por horas dentro da minha cabeça.

Mas me deixa melancólica e meio devagar, seria ruim se eu precisasse de concentração assim que despertasse - eu quase nunca preciso disso, na minha rotina invertida -, talvez me afete um pouco porque parece que as músicas entram na última parte do meu sono, se transformando em sonhos ou se apropriando de alguns dos meus suspiros de sonho.

Cria a ilusão de que eu estou feliz, o que pode ser útil (nada pior do que já acordar com a sensação de que nada vale a pena), mas, como não é verdade e a verdade prevalece, não é útil.

Eu queria poder fazer alguma coisa com a música que fosse mais do que ouvi-la. Como se eu estivesse acordando em um musical. As pessoas ao meu redor também estariam contagiadas pela música, talvez dançando ou cantando em voz alta, e obedecendo ao seu ritmo para fazer qualquer movimento.

Às vezes fico com aflição por perceber que aquilo que me comove em uma música - cada um dos acordes cortados por pausas em Evening of the day, por exemplo - não comove mais ninguém no mundo de uma maneira precisamente igual.

Isso me lembra por que eu sempre quis namorar alguém que tivesse um gosto musical parecido com o meu, nossas vidas seriam uma enquanto fossem um videoclipe, não posso dizer com certeza qual é a sensação de ter alguém durante uma parte preferida de uma música muito especial para mim porque isso nunca aconteceu antes - ou porque nunca aconteceu com a pessoa ideal -, seria uma guitarra certa no momento exato, um pedaço da letra que completasse o que eu estaria sentindo (As I'm looking at the view/ All I'm thinking of is you) e toda aquela sensação idílica que a gente sempre acha que ainda vai sentir um dia.

Parte de ter alguém é poder dividir momentos engraçados de especiais; eu não saberia ensinar ninguém a aproveitar os meus milésimos de segundo antes de me irritar completamente.

Ontem encontrei uma frase que eu escrevi,
por que eles não fazem um clone de mim para gostar de mim?, tenho certeza de que eu mesma me entenderia, que soa idiota mas é o que eu sinto, eu queria poder me sentir bem sozinha porque eu acredito que isso é possível, ainda que eu nunca aja de acordo com essa possibilidade.

Outro dia, andando na rua sozinha à noite, passando por muitas pessoas reunidas (grandes grupos de amigos em bares), parei para pensar em como seria se eu só tivesse a mim própria. Esse é um assunto que tem ocupado a minha cabeça com uma freqüência maior do que qualquer outro assunto, mas, naquela noite, pela primeira vez eu realmente consegui sentir como seria não ter ninguém. Eu não teria com quem conversar, chegaria em casa e encararia as paredes, ouviria o eco do salto dos meus sapatos encontrando o chão.

Apesar de tudo, seriam os meus momentos na minha casa, os meus copos e o meu tapete, o meu sofá, no meu quarto na minha vida, quem quer que fosse pediria permissão para entrar e dividir espaços de tempo comigo, eu recusaria a maioria das propostas até o dia em que não recebesse mais nenhuma.

Eu observaria o teto do meu pé direito alto, abraçaria almofadas enquanto estivesse vestindo apenas botas e colares, comeria a mesma pizza por um mês, não teria telefone, acabaria de uma vez por todas com as preocupações que, hoje, eu considero essenciais à minha futura existência.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Gay

O lugar mais óbvio em que poderíamos nos conhecer seria em um restaurante no número 206 da rua 63 leste em Manhattan, Nova York. Não seria daqui a muito tempo, mas - por tradição - o restaurante provavelmente não seria mais o Smocking Q, que existe ali hoje.

Não o imagino comendo churrasco, nem mesmo eu sou grande apreciadora deles (e menos ainda dos restaurantes de churrasco), mas esse seria, de fato, o lugar mais provável em que poderíamos nos encontrar. Primeiro porque ele certamente jamais deixará de freqüentar o 206 da 63 leste e segundo porque eu, sabendo disso, persistiria indo comer churrasco (ou o que quer que estivessem servindo ali) até que conseguisse me encontrar com ele.

Seria a minha terceira visita a Manhattan. Ele escreveria sobre mim em algum lugar - no seu mais novo livro, sobre a história do prédio que existe no número 206 da 63 leste? -, mencionando essa informação enquanto me introduzisse como brasileira, para, depois, descrever a conversa que eu teria ido começar a ter com ele. Apresentaria a mim como costuma fazer aos seus personagens, inundando páginas de dados biográficos, então citaria alguns dos meus traços físicos e, no desenrolar da conversa, algumas das minhas características psicológicas que ele pudesse ir deduzindo conforme dialogássemos.

Isso aconteceria daqui a alguns anos, não muitos, de modo que eu não seria tão diferente do que sou hoje. Caminharia pelo salão do restaurante - algum cabelo caindo sobre o rosto e um sorriso delineado de leve que combinasse com os olhos brilhantes - até ter coragem e um nível etílico razoável no sangue para conseguir me dirigir a ele. Ele não acharia estranho, talvez se sentisse apenas um pouco aborrecido; ele deve estar acostumado e, ainda, saber muito bem como lidar com abordagens de desconhecidos, por qualquer razão que elas venham a ocorrer.

A minha razão seria apenas devotiva, eu faria elogios sobre a pessoa dele mas tentaria não ser uma fã insuportável, agradeceria a ele por se fazer presente no mundo (foi o que eu tentei dizer aos meus grandes ídolos com os quais já tive a sorte de trocar palavras e olhares, como Gaz Coombes e Eleanor Friedberger) e melhorar a vida das pessoas que puderam se ver contagiadas com seu ótimo trabalho.

Eu tentaria absorver dele o máximo que me fosse possível durante a nossa conversa; seria uma experiência sobre a qual eu quereria parar para escrever mais tarde, ou simplesmente me abalaria de um modo tão profundo que ficaria idiota por alguns dias, sem conseguir dar atenção a mais nada (as pessoas falando comigo e eu demorando a responder, sem querer).

Eu não gostaria de planejar o que iria falar: isso me transformaria em uma intérprete e retiraria de mim toda a minha personalidade, embora me fizesse correr o risco de não conseguir falar nada ou de acabar falando tudo errado - a boca tremendo e a voz confusa, aquela sensação de que eu não estou sendo compreendida quando falo em outra língua e o tradicional problema de não conseguir falar alto o suficiente.

É comum que as pessoas que vemos pela primeira vez ao vivo mas que já vimos outras vezes em fotografias, principalmente quando já conhecemos parte do seu trabalho ou tivemos contato com informações sobre a sua vida de alguma outra maneira, se mostrem muito diferentes daquilo que imaginávamos. A altura delas é sempre diferente, além das nuances mais variadas, tal como o jeito com que a boca se mexe para falar, o timbre da voz ou a cor exata do cabelo; freqüentemente nos damos a liberdade de imaginar traços que quase nunca são reais, em geral por desejarmos a tranqüilidade de ter guardada na memória uma pessoa pronta a que nosso cérebro possa fazer ligação quando o mundo exterior a referencia em circunstâncias diversas. Para pessoas de que gostamos, escolhemos características positivas, naturalmente, ainda que isso possa nada ter a ver com o que conhecemos delas.

Eu o imagino alto (ele disse ser alto, mas eu imagino bem alto), uma pessoa intimidadora de tão bonita (mesmo não tendo mais uma beleza de juventude), de terno claro (porque é o que ele veste na fotografia da contracapa da edição de Vida de escritor que eu li), simpático, muito bem educado e extremamente sorridente. Imagino a sua facilidade para falar, no que se inclui não só uma grande extroversão, mas também uma habilidade de fazer perguntas certas nas horas certas, para nunca deixar que uma conversa qualquer tenha acontecido em vão.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Acho horrível quando me fazem perguntas que me forçam a me imaginar no futuro. Ninguém parece entender que eu não sei e, pior, que eu não quero.

Infelizmente, também não quero o presente. E o passado, me sinto muito bem a cada vez que imagino como eu era, em qualquer época da minha vida.

Fiz a minha última lista de problemas há alguns dias, mas não lembro onde a escrevi. Na verdade, nunca tenho coragem de escrever todos. Às vezes preciso escrever em códigos. Em fragmentos. Trocando a ordem das palavras, ou em inglês.

Talvez eu nem tenha escrito, só tenha pensado. É comum que eu esteja pensando nos meus problemas em forma de lista, conto-os nos dedos mas quase nunca chego a realmente escrevê-los. Não só por medo de serem encontrados e lidos. Principalmente por medo de, escrevendo-os, efetivá-los.

Lembro de ter tido uma conversa sobre lista de problemas com a Maia no ano passado, ela se sentia triste por algum motivo específico e eu mencionei a minha lista de problemas; eu disse que só me considerava triste de verdade quando não conseguia ter nada dentro da cabeça além da lista, ou quando ficava imaginando demais qual seria a reação das pessoas diante da notícia da minha morte. Acabei mencionando alguns dos problemas que vinham entrando nas minhas listas desde 2006 (quando eu comecei a criá-las) para dar exemplos, porque, de início, ela não entendeu direito o que eu queria dizer com "lista de problemas". (Engraçado como, para mim, elas eram parte essencial do que quer que significasse vida, mas, para ela, não podiam nem mesmo ser compreendidas.)

Ainda me lembro da minha primeira lista de problemas, anotada em uma das últimas páginas do meu caderno de química do segundo ano, justamente durante uma aula do Zink. Era um caderno A4 horroroso, com linhas rosa-choque que eu tinha encapado com uma impressão de um pôster do filme Sobre café e cigarros bem parecido com o que eu tenho pendurado na minha parede até hoje.

Naturalmente, não me lembro de todos aqueles problemas, mas me lembro de alguns que, não por acaso, são os que perduram até hoje. Estes são os piores de todos, consigo acompanhar sua evolução mentalmente ao longo dos últimos anos, alguns se agravaram, alguns se amenizaram; eles nunca se solucionarão e, ainda que encontrem (em última análise, que eu encontre) saídas plausíveis, já conseguiram deixar marcas em mim que jamais serão apagadas. Talvez sejam superadas, repensadas ou encaradas de formas mais amenas, mas elas estão em mim sem nunca terem como me abandonar.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Pelos últimos meses, andei me achando incompetente, mas hoje tive um lampejo e percebi que gostaria de continuar criando histórias.

Ao contrário do que eu venho reparando (principalmente em filmes) na forma como muitos autores contam histórias, uma das minhas prioridades é pensar em como mudar a vida do espectador, o seu ponto de vista ou, no mínimo, confundir os seus sentimentos enquanto ele se deixa ser influenciado por mim. Apresentar os personagens ao espectador. E escolher como cada um deles deve ser entendido, o que revelar de sua personalidade e em que momento.

Gosto de tratar os meus espectadores como eu gostaria de ser tratada: com diálogos afáveis e compreensíveis, mas sem deixar nada evidente demais - senão, corro o risco de não ser lida até o final, e o que eu mais quero é ser aproveitada até o último segundo por aqueles que resolveram, ainda que por um único instante, parar, sentar e acreditar em mim, que tiveram paciência para decidir me enfrentar, não importa por que motivo.

É claro que também escrevo para mim - crio histórias que são reflexos de problemas que eu tenho, abordados junto a algumas de suas possíveis soluções, ou levados às últimas conseqüências até ruas sem saída ou abismos infinitos - e por mim - imaginar me traz a melhor sensação que eu já alcancei até hoje; conseguir concretizar as minhas imagens em palavras e capítulos é de uma gratificidade estonteante.

Escrevo como uma maneira de auto-recompensa enquanto tento entender o que já foi escrito e procuro aprender com isso, embora saiba que até o final da minha vida ainda vá ter sempre muito o que ler e mais o que aprender. Não procuro doutrinar ninguém nem gostaria de pensar em mim como uma pessoa apta a trazer conceitos novos ou abordados de formas inovadoras. Não conheço a verdade e nem gostaria, não sei nem mesmo o que estou fazendo de errado e nem sempre identifico no que os outros estão acertando.

Procuro ser crítica (acima de tudo, comigo mesma) e roubo o que considero interessante, minhas histórias são junções das coisas que me comovem e irradiam para longe - revelando-o, entretando - o que não me apraz.

São visões viciadas de muitos assuntos, e muitas vezes são assuntos restritos e repetitivos de tão profundos (o que eu não acho que seja tão pior do que vários assuntos muito rasos).

Minhas melhores histórias se escrevem sozinhas. São transcrições de situações que eu imagino apenas por imaginar (sem nenhum compromisso de tê-las escritas ou lidas), tenho as cenas perfeitas dentro de mim e simplesmente as reporto, as frases surgem da maneira que eu quero mas nunca surgiriam se eu tivesse me forçado a criá-las: às vezes quero escrever sobre algo mas não tenho nada para falar sobre aquilo, engano meu cérebro mas ele nunca trabalha sob pressão. É preciso espontaneidade. E gostar daquilo que se está escrevendo.

Entendi que qualquer pessoa pode ter competência para criar frases bonitas e inclusive boas. Costumo ganhar frases bonitas quando estou divagando, e em geral as uso para construir narrativas ao seu redor. Quando percebi que eu podia narrar usando frases bonitas, percebi que eu poderia escrever. Eu sei que as frases que eu ganho da minha imaginação vêm de algum lugar; elas são minhas, é claro. São frutos do meu exercício mental de combinar palavras, de inventar diálogos incessantemente, de nunca parar de pensar em como estaria sendo a minha vida se ela fosse uma história contada por mim, o passo a passo de tudo o que eu faria e do que estaria sendo feito comigo. Eu imagino gestos em câmera lenta e descrevo cada uma dessas ações, descrevo impressões pessoais como condições de iluminação e cheiros, explico sensações através de comparações didáticas.

Por causa disso, não considero a possibilidade da existência de alguém mais sentimental do que eu. Isso até acabar encontrando autores - e eu já encontrei vários - que descrevem com propriedade situações que eu gostaria de ter descrito, o que me arranca lágrimas e me torna mais disposta a continuar tentando.

Sei que meus sentimentos podem me levar longe, eu gostaria de continuar flutuando junto a eles. A pior parte é ter como certeza a dúvida de que nunca obterei qualquer tipo de resultado.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Boston

Então crescemos condicionados a acreditar que os shopping centers são a pior invenção da humanidade. Nossos pais detestam nos levar até um deles, reclamam da falta de vagas no estacionamento e de ter de se submeter ao barulho de muitos decibéis a mais que o aconselhado pela Organização Mundial de Saúde.

Nossos professores de história nos ensinam que a lógica utilizada na construção dos shopping centers é a mesma que a de presídios e monastérios, a qual induz os seus freqüentadores a olhar para dentro, isolando-se do resto do mundo. Dentro de qualquer um desses três tipos de edificação, a idéia é, portanto, que não se saiba se é de dia ou de noite, se faz chuva ou sol ou o que quer que esteja acontecendo do lado de fora (bombardeios, passeatas, dilúvios).

Somos induzidos a olhar para dentro apenas para que consumamos, para darmos vida ao capitalismo e nos sentirmos bem por causa disso - o que é horrível, deplorável, deprimente, é claro.

Os urbanistas nos dizem que os shopping centers são os responsáveis pela decadência das cidades, porque concentram seus habitantes enclausurados, tornando as ruas menos movimentadas e, por isso, ermas, mais propícias a assaltos e outros tipos de comportamentos ruins.

Eles também ligam a expansão dos shopping centers ao aumento da quantidade de carros na cidade, outra situação péssima, porque piora o trânsito e faz com que se deixe de exigir um transporte público de qualidade, os políticos espertos passam a moldar as cidades de acordo com o transporte individual e quem fica prejudicado é, justamente, quem tem menos dinheiro.

Os sociólogos encontram nos shopping centers um símbolo preciso para explicar a massificação das sociedades contemporâneas, o anonimato nas grandes cidades e a conseqüente perda de identidade dos cidadãos.

Concordamos com isso e usamos argumentos decorados quando alguém decide ir a um shopping center por qualquer motivo, tentando persuadi-lo do contrário.

E eu só consegui compreender a verdadeira essência dos shopping centers quando fui salva por um do frio de dez graus negativos. Engoli meu ódio imediatamente e, enquanto recobrava os movimentos das mãos e a sensibilidade da pele do rosto, não conseguia pensar em nada senão nas palavras de um dos meus anti-heróis preferidos: "Viva a civilização!"