O lugar mais óbvio em que poderíamos nos conhecer seria em um restaurante no número 206 da rua 63 leste em Manhattan, Nova York. Não seria daqui a muito tempo, mas - por tradição - o restaurante provavelmente não seria mais o Smocking Q, que existe ali hoje.
Não o imagino comendo churrasco, nem mesmo eu sou grande apreciadora deles (e menos ainda dos restaurantes de churrasco), mas esse seria, de fato, o lugar mais provável em que poderíamos nos encontrar. Primeiro porque ele certamente jamais deixará de freqüentar o 206 da 63 leste e segundo porque eu, sabendo disso, persistiria indo comer churrasco (ou o que quer que estivessem servindo ali) até que conseguisse me encontrar com ele.
Seria a minha terceira visita a Manhattan. Ele escreveria sobre mim em algum lugar - no seu mais novo livro, sobre a história do prédio que existe no número 206 da 63 leste? -, mencionando essa informação enquanto me introduzisse como brasileira, para, depois, descrever a conversa que eu teria ido começar a ter com ele. Apresentaria a mim como costuma fazer aos seus personagens, inundando páginas de dados biográficos, então citaria alguns dos meus traços físicos e, no desenrolar da conversa, algumas das minhas características psicológicas que ele pudesse ir deduzindo conforme dialogássemos.
Isso aconteceria daqui a alguns anos, não muitos, de modo que eu não seria tão diferente do que sou hoje. Caminharia pelo salão do restaurante - algum cabelo caindo sobre o rosto e um sorriso delineado de leve que combinasse com os olhos brilhantes - até ter coragem e um nível etílico razoável no sangue para conseguir me dirigir a ele. Ele não acharia estranho, talvez se sentisse apenas um pouco aborrecido; ele deve estar acostumado e, ainda, saber muito bem como lidar com abordagens de desconhecidos, por qualquer razão que elas venham a ocorrer.
A minha razão seria apenas devotiva, eu faria elogios sobre a pessoa dele mas tentaria não ser uma fã insuportável, agradeceria a ele por se fazer presente no mundo (foi o que eu tentei dizer aos meus grandes ídolos com os quais já tive a sorte de trocar palavras e olhares, como Gaz Coombes e Eleanor Friedberger) e melhorar a vida das pessoas que puderam se ver contagiadas com seu ótimo trabalho.
Eu tentaria absorver dele o máximo que me fosse possível durante a nossa conversa; seria uma experiência sobre a qual eu quereria parar para escrever mais tarde, ou simplesmente me abalaria de um modo tão profundo que ficaria idiota por alguns dias, sem conseguir dar atenção a mais nada (as pessoas falando comigo e eu demorando a responder, sem querer).
Eu não gostaria de planejar o que iria falar: isso me transformaria em uma intérprete e retiraria de mim toda a minha personalidade, embora me fizesse correr o risco de não conseguir falar nada ou de acabar falando tudo errado - a boca tremendo e a voz confusa, aquela sensação de que eu não estou sendo compreendida quando falo em outra língua e o tradicional problema de não conseguir falar alto o suficiente.
É comum que as pessoas que vemos pela primeira vez ao vivo mas que já vimos outras vezes em fotografias, principalmente quando já conhecemos parte do seu trabalho ou tivemos contato com informações sobre a sua vida de alguma outra maneira, se mostrem muito diferentes daquilo que imaginávamos. A altura delas é sempre diferente, além das nuances mais variadas, tal como o jeito com que a boca se mexe para falar, o timbre da voz ou a cor exata do cabelo; freqüentemente nos damos a liberdade de imaginar traços que quase nunca são reais, em geral por desejarmos a tranqüilidade de ter guardada na memória uma pessoa pronta a que nosso cérebro possa fazer ligação quando o mundo exterior a referencia em circunstâncias diversas. Para pessoas de que gostamos, escolhemos características positivas, naturalmente, ainda que isso possa nada ter a ver com o que conhecemos delas.
Eu o imagino alto (ele disse ser alto, mas eu imagino bem alto), uma pessoa intimidadora de tão bonita (mesmo não tendo mais uma beleza de juventude), de terno claro (porque é o que ele veste na fotografia da contracapa da edição de Vida de escritor que eu li), simpático, muito bem educado e extremamente sorridente. Imagino a sua facilidade para falar, no que se inclui não só uma grande extroversão, mas também uma habilidade de fazer perguntas certas nas horas certas, para nunca deixar que uma conversa qualquer tenha acontecido em vão.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Acho horrível quando me fazem perguntas que me forçam a me imaginar no futuro. Ninguém parece entender que eu não sei e, pior, que eu não quero.
Infelizmente, também não quero o presente. E o passado, me sinto muito bem a cada vez que imagino como eu era, em qualquer época da minha vida.
Fiz a minha última lista de problemas há alguns dias, mas não lembro onde a escrevi. Na verdade, nunca tenho coragem de escrever todos. Às vezes preciso escrever em códigos. Em fragmentos. Trocando a ordem das palavras, ou em inglês.
Talvez eu nem tenha escrito, só tenha pensado. É comum que eu esteja pensando nos meus problemas em forma de lista, conto-os nos dedos mas quase nunca chego a realmente escrevê-los. Não só por medo de serem encontrados e lidos. Principalmente por medo de, escrevendo-os, efetivá-los.
Lembro de ter tido uma conversa sobre lista de problemas com a Maia no ano passado, ela se sentia triste por algum motivo específico e eu mencionei a minha lista de problemas; eu disse que só me considerava triste de verdade quando não conseguia ter nada dentro da cabeça além da lista, ou quando ficava imaginando demais qual seria a reação das pessoas diante da notícia da minha morte. Acabei mencionando alguns dos problemas que vinham entrando nas minhas listas desde 2006 (quando eu comecei a criá-las) para dar exemplos, porque, de início, ela não entendeu direito o que eu queria dizer com "lista de problemas". (Engraçado como, para mim, elas eram parte essencial do que quer que significasse vida, mas, para ela, não podiam nem mesmo ser compreendidas.)
Ainda me lembro da minha primeira lista de problemas, anotada em uma das últimas páginas do meu caderno de química do segundo ano, justamente durante uma aula do Zink. Era um caderno A4 horroroso, com linhas rosa-choque que eu tinha encapado com uma impressão de um pôster do filme Sobre café e cigarros bem parecido com o que eu tenho pendurado na minha parede até hoje.
Naturalmente, não me lembro de todos aqueles problemas, mas me lembro de alguns que, não por acaso, são os que perduram até hoje. Estes são os piores de todos, consigo acompanhar sua evolução mentalmente ao longo dos últimos anos, alguns se agravaram, alguns se amenizaram; eles nunca se solucionarão e, ainda que encontrem (em última análise, que eu encontre) saídas plausíveis, já conseguiram deixar marcas em mim que jamais serão apagadas. Talvez sejam superadas, repensadas ou encaradas de formas mais amenas, mas elas estão em mim sem nunca terem como me abandonar.
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