Percebi que eu tenho mais curiosidade do que vontade de viver.
Eu queria poder entrar em uma sala de cinema vazia e assistir, sozinha, aos próximos anos da minha vida.
Se tem alguma coisa que me motiva a viver é querer saber o que vai acontecer. Não porque eu tenha vontade de fazer as coisas, porque eu queira sentir ou fazer sentir. Eu só queria saber no que vai dar.
Tem me deixado realmente triste a maneira como as pessoas que já viveram bastante falam sobre o seu passado. Acho horrível pensar que só temos uma chance. E que, por isso, todas as decisões que tomamos são cruciais, mesmo que as escolhas possam parecer pequenas ou banais no momento em que são feitas.
Um passo em falso pode ser suficiente para colocar uma vida inteira a peder. Quando mais o tempo passa, menos possibilidades se mostram disponíveis.
Queria saber se eu poderia ser capaz de conquistar alguma coisa, queria saber como vai ser a minha aparência daqui a alguns (ou muitos) anos. Não consigo imaginar a minha pele desmanchando em rugas, não quero perder a minha agilidade, fico triste pensando em perder todas as minhas amigas, porque provavelmente iremos nos distanciar com o passar do tempo.
Queria conseguir chegar a algum lugar. Mas as possibilidades são escassas. Todas as perspectivas que eu consigo projetar são desanimadoras, a realidade se mostra a cada dia mais cruel e eu percebo o mundo fazendo o possível para não deixar que eu exista. Como se uma força invisível fechasse todas as portas pelas quais eu estivesse tentando passar, me isolando em um quarto do tamanho do meu corpo, que vai ficando cada vez mais escuro e gelado.
Sou eu sem roupas, emgrecendo e angustiada, não conseguindo dormir por não conseguir deitar mas também por não conseguir parar de pensar, tentando respirar o ar que ainda resta ao meu redor, talvez esse seja um problema bem grande, eu não consigo parar de pensar mesmo quando não estou enclausurada em um quarto do tamanho do meu corpo que vai ficando cada vez mais escuro e gelado, eu penso nos problemas como se eles fossem a única alternativa, talvez eu devesse parar de pensar e tentar abrir a porta, ou talvez só devesse parar de pensar, porque pensar é voltar ao quarto do tamanho do meu corpo, que vai ficando cada vez mais escuro e gelado.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Odeio quando me perguntam como eu me sinto. Não acho que alguém tenha o direito de perguntar como eu me sinto. Talvez pessoas bem próximas possam tentar descobrir, de maneiras menos diretas, por que eu estou me sentindo particularmente mal, mas quem nem me conhece não deveria ousar me olhar e dizer que eu estou com uma expressão péssima.
Acho desreispeitoso e desnecessário perguntar como as pessoas se sentem. Se alguém que eu mal conheço me perguntar por que eu não estou bem, dificilmente responderei que é porque a garota a quem a minha cabeça dedica horas diárias de pensamento nem liga para a minha existência; ou porque eu não tenho apego nenhum à minha vida e que eu ando pensando com uma freqüência assustadora em me matar; ou porque eu acho que ninguém faz questão de mim e eu estou, aos poucos, me tornando uma pessoa repulsiva, não só para os meus amigos, como também para a minha família e, pior ainda, para mim mesma; ou porque eu tenho pensado muito no meu pai que morreu e me deixa bem triste o fato de que eu não posso mais falar com ele; ou porque eu ainda ouço vozes quando me sinto mal com o meu corpo, embora eu tente com muita força não deixar isso me abalar; ou porque não é que o comprimento da minha lista de problemas tem aumentado, mas a profundidade deles. Responderei que estou cansada, porque dormi pouco ou mal; ou que deve haver um engano, porque estou sempre me sentindo ótima.
O mesmo vale para machucados visíveis. Eu só não pergunto, não só porque pode ser constrangedor, mas porque, afinal, o que eu tenho a ver com isso? Qualquer um percebe quando alguém está com um olho roxo, uma mão quebrada ou um corte feio no braço. Talvez porque tenha apanhado em uma briga, porque goste de sadomasoquismo, porque tenha ficado bêbado e sido vítima de algum acidente idiota - enfim, não importa.
Também não importa o motivo pelo qual os parentes das pessoas estão hospitalizados, ou porque eles morreram. Não importa que atividade profissional eles exercem ou qual é a sua situação financeira.
Não importa tanta coisa que, se importasse de verdade, não viraria fofoca. Talvez seja isso o que as pessoas desejam: falar da vida dos outros pelos corredores do mundo. Ter um assunto novo, uma tragédia para espalhar por aí. Ou seja, ninguém que pergunta o motivo do inchaço de olhos tem a intenção de convidar para tomar um café e fazer sentir melhor, nem quem pergunta o porquê das bandagens em uma das mãos quer ajudar a carregar sacolas para amenizar a dor.
As pessoas querem ter o prazer de poder compartilhar com outros os problemas de qualquer um, ou, pior ainda, querem se sentir íntimos daqueles que sofrem. Talvez até se sintam felizes diante da dor dos outros, talvez se sintam menos prejudicadas ao ver pessoas em situações tão ruins.
Acho desreispeitoso e desnecessário perguntar como as pessoas se sentem. Se alguém que eu mal conheço me perguntar por que eu não estou bem, dificilmente responderei que é porque a garota a quem a minha cabeça dedica horas diárias de pensamento nem liga para a minha existência; ou porque eu não tenho apego nenhum à minha vida e que eu ando pensando com uma freqüência assustadora em me matar; ou porque eu acho que ninguém faz questão de mim e eu estou, aos poucos, me tornando uma pessoa repulsiva, não só para os meus amigos, como também para a minha família e, pior ainda, para mim mesma; ou porque eu tenho pensado muito no meu pai que morreu e me deixa bem triste o fato de que eu não posso mais falar com ele; ou porque eu ainda ouço vozes quando me sinto mal com o meu corpo, embora eu tente com muita força não deixar isso me abalar; ou porque não é que o comprimento da minha lista de problemas tem aumentado, mas a profundidade deles. Responderei que estou cansada, porque dormi pouco ou mal; ou que deve haver um engano, porque estou sempre me sentindo ótima.
O mesmo vale para machucados visíveis. Eu só não pergunto, não só porque pode ser constrangedor, mas porque, afinal, o que eu tenho a ver com isso? Qualquer um percebe quando alguém está com um olho roxo, uma mão quebrada ou um corte feio no braço. Talvez porque tenha apanhado em uma briga, porque goste de sadomasoquismo, porque tenha ficado bêbado e sido vítima de algum acidente idiota - enfim, não importa.
Também não importa o motivo pelo qual os parentes das pessoas estão hospitalizados, ou porque eles morreram. Não importa que atividade profissional eles exercem ou qual é a sua situação financeira.
Não importa tanta coisa que, se importasse de verdade, não viraria fofoca. Talvez seja isso o que as pessoas desejam: falar da vida dos outros pelos corredores do mundo. Ter um assunto novo, uma tragédia para espalhar por aí. Ou seja, ninguém que pergunta o motivo do inchaço de olhos tem a intenção de convidar para tomar um café e fazer sentir melhor, nem quem pergunta o porquê das bandagens em uma das mãos quer ajudar a carregar sacolas para amenizar a dor.
As pessoas querem ter o prazer de poder compartilhar com outros os problemas de qualquer um, ou, pior ainda, querem se sentir íntimos daqueles que sofrem. Talvez até se sintam felizes diante da dor dos outros, talvez se sintam menos prejudicadas ao ver pessoas em situações tão ruins.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Fico guardando lágrimas dentro da minha cabeça, o que eu sei que não é muito inteligente porque um dia elas vão querer sair. Elas todas, de uma vez, vão querer sair por onde conseguirem. Talvez elas estourem os meus olhos, talvez desintegrem as minhas bochechas, ou mesmo me façam cair no chão para nunca mais me levantar.
Isso tudo vem de uma habilidade freqüentemente últil que a história da minha vida me ensinou a desenvolver: não chorar. Muita gente se comove com uma bronca bem dada, sucumbe após um dia cansativo e não-recompensador, se desfaz ao flagrar uma traição. Mas eu não.
Lots of girls walk around in tears
But that's not for you
Pode parecer estranho, soar insesível, mas eu simplesmente sei como. Não é que eu não sinta nada, que eu não sinta dor. É só que eu sei disfarçar. Me fazer de bem resolvida.
Isso tudo vem de uma habilidade freqüentemente últil que a história da minha vida me ensinou a desenvolver: não chorar. Muita gente se comove com uma bronca bem dada, sucumbe após um dia cansativo e não-recompensador, se desfaz ao flagrar uma traição. Mas eu não.
Lots of girls walk around in tears
But that's not for you
Pode parecer estranho, soar insesível, mas eu simplesmente sei como. Não é que eu não sinta nada, que eu não sinta dor. É só que eu sei disfarçar. Me fazer de bem resolvida.
Sempre que eu passo por uma situação constrangedora, penso em como ela seria se tivesse acontecido quando eu era criança. Nunca chorei diante de um momento embaraçoso, nem quando eu era criança. Mas, antes, eu deixava transparecer que não estava me sentido bem. Não conseguia agir rápido, ficava pensando em como aquilo tudo me doía sem conseguir falar nada, encarava qualquer objeto que estivesse disposto a aceitar o meu olhar.
Eram pessoas que gritavam, professores, parentes, adultos altos e ruins, gritavam porque eu não tinha entendido, porque eu tinha feito alguma coisa que não deveria ter feito. Muitas vezes não gritavam comigo, mas com coisas que eles queriam que eu fosse.
Coisas que eu não era, mas queria ser (para parar de ouvir gritos, poder encarar de frente e responder). Durante toda a minha vida, fantasmas me humilharam por não ser muitas coisas.
Eu cresci, aprendi a encarar e responder, mas, para isso, tive que aprender a guardar.
Consigo responder calmamente a alguém que grita na minha cara, não me ofendo em não dar a última palavra em uma discussão. Posso permanecer imóvel, de braços cruzados, assistindo a alguém que quebra pratos e derruba móveis de tanta raiva. Com naturalidade, continuo a conversar com os meus amigos quando me deparo com uma pessoa especial beijando alguém, e sorrio.
Para quem observa de longe, é uma qualidade positiva; devo parecer a pessoa mais forte do mundo. (Mas eu me importo, e machuca.)
No fim, talvez eu seja mais infeliz que as pessoas que choram: as lágrimas delas conseguem levar um pouco do que elas têm de ruim, do que elas sentem de mal, enfim, do que as incomoda. As minhas lágrimas, guardadas na minha cabeça, ao contrário do que eu sou capaz de demonstrar, me atormentam, porque não deixam que eu me esqueça dos problemas que fizeram com que elas se acumulassem.
Elas são pesadas, e vão continuar guardadas, mesmo depois de anos.
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