domingo, 29 de março de 2009

Resolvi conferir o cronograma da matéria para a qual vou entregar um trabalho amanhã e descobri que, logo amanhã, vou ter que desenhar um modelo vivo. Na verdade eu já devia estar suspeitando disso, porque mandaram a gente levar um bloco de papel A2 e cinco grafites diferentes e, além disso, eu já tinha lido esse cronograma outras vezes antes - só não estava lembrando da seqüência certa das datas.

Quando eu li modelo vivo fiquei meio desesperada. Lembrei do David Sedaris contando em um conto sobre uma situação igual a essa que aconteceu com ele, assim que ele entrou na faculdade. Mas, ele, ao contrário de mim, contava os dias para que chegasse o momento de, finalmente, desenhar um homem pelado. Toda essa empolgação porque ele era gay; não sei se ele nunca tinha visto um homem pelado antes, bom, ele é um homem mas é óbvio que não é a mesma coisa. Acho que o maior problema era ter que desenhar aquilo tudo enquanto só o que ele queria era ficar olhando, talvez ele nem conseguisse parar para desenhar.

Enfim, não sei quanto ao David, mas eu não acho legal ter que desenhar uma pessoa sem roupas. Com roupas já é constrangedor, tenho sempre que fingir que eu não estou nem aí para o desenho, e dar aquela boa desviada de olhar de tempos em tempos. Além do mais, eu não sou artista, aprendi a desenhar há um semestre: não, eu não sei ser profissional, nem quero aprender a ser.

Não que eu ache tão absurdo assim uma pessoa pelada na minha frente, não sou daquele tipo que faria piadinhas ou daria risadas constrangedoras depois de sussurar no ouvido do colega ao lado. Eu só não sei desenhar, realmente, e acho que seria melhor se começássemos desenhando um boneco ou até uma casa com todos os seus pontos de fuga, uma rua, um carro, um cachorro, que tal?

E, depois, ainda tem toda a situação de o seu desenho ter ficado um lixo. Você lá, olho no olho com um modelo nu e vivo, e de repente a moça olha e percebe que os peitos dela estão muito mais assimétricos do que deveriam, ou vai ver você faz ela mais magra só pra não ficar chato, e o que acontece é que essa não era bem a proposta da atividade de observação... Imagina se você tivesse que realçar uma celulite com hachuras? E deve ter alguma coisa perdida no corpo da pessoa em que todo o mundo reparou e ela nunca tinha notado antes; pior, todo o mundo desenhou enquanto ela nem sabia que aquilo existia.

quinta-feira, 26 de março de 2009

inventos

I
Tenho pensado em como seria bom poder dormir com um olho só. Quando eu sinto sono em público, durante alguma situação em que preciso estar acordada, costumo fechar um dos meus olhos (em geral o esquerdo) e garanto que, ao abri-lo outra vez, me sinto mais disposta.

Na verdade essa é uma ação reflexa trazida pelo meu sono e pelo meu bom senso ao mesmo tempo: o sono me faz querer dormir; o bom senso me faz ficar acordada. Juntos, os dois concordam que o melhor a se fazer é fechar um olho só.

A idéia seria que o meu corpo concordasse em me deixar dormir pela metade (já que, para dormir por inteiro, eu precisaria dos dois olhos fechados). Funcionaria como um modo de espera: eu estaria prestando atenção ao que acontece ao meu redor mas não 100% de atenção, e teria metade de mim trabalhando na minha recomposição. Poderia parecer um pouco estranho ver alguém com um olho aberto e outro fechado, na maior naturalidade; além disso, seria impossível agir normalmente dormindo pela metade. Isso só seria útil quando a minha presença física - e não a psicológica - fosse necessária: em uma aula pouco estimulante, ao esperar em filas ou no ponto de ônibus.

Mas bastaria um único estímulo externo referido diretamente a mim e o meu modo de espera se desativaria. Não como um monitor de computador, que simplesmente se acende quando tocamos o mouse (depois de alguns minutos sem atividade), completamente escandaloso e denunciador, do tipo acordar atrasado por causa do despertador que não tocou - e sim uma ação despercebidamente natural, para que ninguém suspeitasse do meu médio sono.


II
Sabe quando você está subindo uma ladeira - especialmente em São Paulo, onde elas são inclinadas e infinitas demais - e já não está mais agüentando, e então você percebe alguém que está lá em cima, bem onde você quer chegar, mas fazendo o movimento contrário, ou seja, descendo?

E se vocês pudessem trocar de lugar? De repente, você estaria lá em cima e o sujeito, bem no ponto onde você teria parado.

Ainda não decidi como seria feita essa troca, talvez por teletransporte ou até por meio de um pulo gigante que nunca te cansaria. Mas uma coisa é certa: vocês teriam que concordar em mudar de lugar. Deveria haver uma troca de olhares seguida de confirmações de cabeça, ou sinais positivos com as mãos ou outras partes do corpo. Tudo dependeria da boa vontade da pessoa que estaria em cima, afinal, talvez ela não precisasse ir até o lugar onde você estaria, talvez ela virasse uma rua antes daquilo...


III
Sempre que eu estou presa no trânsito, parece que os carros, ônibus e caminhões que estão na minha frente seguem em linha até o litoral do país, e que eu é que sou a última pessoa da fila. Ou quando estou esperando, parece sempre que, assim que eu resolvo começar a esperar, passo a ser a última que está esperando. A última senha do balcão de atendimento, a última a passar pela porta, a última de todos, sempre.

Correndo atrasada como tenho feito ultimamente (a usp é bem mais longe da minha casa do que eu imaginava), concluí que eu preciso - não posso mais viver sem - de uma palavra que indique a minha ansiedade em ser a última pessoa.

E foram tantas as caminhadas casa-escola que eu decidi que preciso da palavra anti-vanguarda. É uma síntese específica, porque nem tudo que não é vanguarda é anti-vanguarda. Anti-vanguarda é a criança baixinha que chega afobada porque errou o caminho na escola nova, sou eu com sete anos fazendo aula de natação. (Tem muito disso em esportes, é verdade, me dá a maior aflição quando algumas pessoas páram de correr no meio uma maratona, e nunca mais terminam. Até hoje, elas ainda não terminaram a maratona. Talvez já tenham morrido, e morreram sem terminar. O tempo da corrida está contando até hoje, e para sempre.)

Anti-vanguarda pode até ser, em alguns casos, o contrário de uma vanguarda. Se o Marx era uma pessoa de vanguarda em relação ao pensamento comunista, então ele era uma anti-vanguarda capitalista. Não, acho que não foi um bom exemplo, funcionaria melhor com arte.

sexta-feira, 20 de março de 2009

O quarto da minha irmã está cheirando àquelas canetas tóxicas de desenho profissional (acabei de conseguir me familiarizar com o cheiro, a Paula insistia em dizer que era culpa da acetona que ela usou agora há pouco).

Digitando com dificuldade por causa do band-aid que eu coloquei no indicador esquerdo. O desenho do band-aid é by Alexandre Herchcovitch, e eu tive que colocá-lo porque fiz um movimento brusco para amarrar o cadarço do meu tênis e então a minha unha começou a descolar.

Voltei não faz muito tempo de uma palestra ou debate no Centro Cultural São Paulo com três dos meus professores (e mais dois designers), que serviu, acima de tudo, como uma percepção precisa de que eu estou na festa errada. Eu gosto de design, gosto de artes plásticas e tudo, mas não quero nunca ter a palavra designer antes do meu nome - ou então esse aposto terrível contextualizando o leitor ou ouvinte sobre a pessoa de quem se está tratando.

Acho que eu posso ser mais do que isso. Talvez seja melhor até não ter apostos. Ou ter outros mais neutros. Mais engrandecedores, seria bom.

Eu gosto de escrever mais do que de olhar, gosto mais de ler e menos de desenhar. Sou o contrário de cada pessoa naquela classe. Sei que design é um bom conjunto de tudo e não me imagino fazendo nenhum outro curso. Pelo menos não agora.

Mas, às vezes, queria estar lendo ou pensando e errando palavras ao invés de estar ocupada com o autocad. Tudo bem, a parte chata existe sempre, talvez se eu estivesse estudando estudos literários não agüentasse mais ver um livro na minha frente.

Sinto que eu perdi o domínio das palavras por estar em volta de pessoas tão despreocupadas com isso.

Se tem uma coisa que eu gosto de estar na fau é história da arte. Muita história da arte, e muita história também, toda a história tem me fascinado muito ultimamente. As histórias mais distantes, principalmente, nem sempre para entender mas só para saber o que aconteceu, como a maioria das coisas que a gente quer saber, só quer saber por saber.

Este post são idéias jogadas e desconexas. Mas, depois de uma semana sem postar, fiquei assim. Tenho rascunhos de quase todos os dias em que eu não postei, talvez um dia eles ainda cheguem a se tornar posts, mas provavelmente ninguém nunca vai lê-los, porque eles estarão nas páginas anteriores.

Tenho ficado muito sozinha em casa durante o dia e pensado muito. Não só em mim ou na minha faculdade; nos meus personagens, nas minhas pessoas. As pessoas da minha vida, onde elas estão? Por que parece que o meu tempo é sempre livre?

O Giulio Carlo Argan usa muito bem o ponto e vírgula (tem hífen?). Queria ser assim, e conhecer tudo o que ele conhece. Aparentemente vou ter que procurar ajuda em outros livros para conseguir ler o livro dele.

Fazer uma opinião, como é possível ser uma pessoa absoluta? Como ele (o Argan), o Hobsbawn, o Machado de Assis ou o Roberto Schwarz. Gente que você simplesmente senta e ouve. Se tivesse que falar com uma pessoa absoluta, não conseguiria. Não conseguiria perguntar as horas, nem pedir desculpas se esbarrasse no ombro de alguma delas.

Acho que vale estudar e tentar aprender o quanto antes. Talvez dê tempo, eu poderia ser uma velhinha de opinião.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Acho que já ficou tarde demais, então eu posso, oficialmente, dizer que dei um jaiminho no autocad.

Agora ler textos e concluir - pela décima oitava vez só nessa semana - que os designers brasileiros (or those who claim to be) são analfabetos. Nunca vi gente que gosta tanto de usar "onde" em lugar errado, eles assassinam a compreensão das frases a cada três linhas.

É tudo muito mal escrito e, como eu sou uma iniciante, não há nada que eu possa fazer a respeito. Na verdade, nunca vai existir nada que eu possa fazer a respeito, porque, embora eu até me interesse pelo assunto, não quero ser escritora de qualquer coisa que não seja romances.

Desculpe, mundo do design, vocês vão ter que me conquistar.

Talvez esse mal venha da arquitetura, já viu arquiteto preocupado em escrever direito? Eles não usam acentos e insistem na vírgula antes do verbo, um horror.

Ontem a moça escreveu MASCARA na lousa, isso, esqueceu da única regra que ninguém esquece: todas as proparaxítonas são acentuadas.

Pelo menos eu tenho os meus livros e a minha poesia para me proteger (SIMON et GARFUNKEL, 1966).

Estava olhando o caderno de viagens do jornal do dia 10 e tinha uma propaganda de agência de turismo com preços absurdos, do tipo Disney, 7 noites, pacote incluindo hospedagem, passagem aérea e ingressos para parques por apenar 791 reais por pessoa. REAIS! Bom, mesmo se fossem dólares... Ou euros, ou até libras...

Deu vontade de ir pra Disney, é claro. Não necessariamente para a Disney, acho, eles também tinham ofertas magníficas para o Canadá, para a Península Ibérica e para o Oeste dos Estados Unidos.

Depois fiquei com vontade de ter a minha própria máquina fotográfica.
Tanta coisa para escrever, mas a minha cabeça não deixa. Antagônico, pensando bem. É que eu venho sentindo com freqüência a minha alma subindo pelo meu esôfago. Tudo fica confuso, confuso, girando.

Atrapalha a fluência do pensamento. Estou há alguns dias sem conseguir ouvir música. Preciso de um diagnóstico.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O professor não perguntou por que a gente tinha decidido fazer design, só o que a gente achava que era design. "É um conceito polêmico." As pessoas falaram coisas óbvias mas pertinentes, idéias mais ou menos próximas do que o que eu falaria. "Ninguém tem uma idéia deturpada do que é design?"

Ele explicou como foi difícil consolidar a profissão de designer no Brasil, principalmente porque, em português, não existia um termo correspondente para design. Em inglês ou espanhol, por exemplo, existe uma palavra para desenho (draw, dibujo) e outra para design (design, deseño). Então adicionaram design ao nosso dicionário.

Ele disse que a gente vai ter que fazer seminários, era difícil decidir entre um dos temas porque todos eram muito legais (o que me deixou muito emocionada, mil coisas interessantes em um só segundo). Peguei o que era sobre um livro do Sevchenko, A corrida para o século XXI, que me lembrou as aulas do Renan sobre Crise de 29 - os exerícios sempre traziam um trecho desse livro.

Acho que, enfim, talvez eu tenha encontrado uma raison d'être.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Ana Karênina

- ...O amor é como a escarlatina, todos têm de passar por ela.

- Então, seria bem melhor que se arranjasse maneira de inoculá-lo artificialmente, como se faz com a varíola.

- ...sou de opinião que, para conhecermos o amor, temos, primeiro, que nos enganarmos para depois corrigirmos o erro.

(...)

- Eu acho - disse Ana, brincando com uma das luvas - que, se é verdade que cada cabeça cada sentença, há de haver tantas maneiras de amar quantos os corações.


L. N. Tolstói

domingo, 1 de março de 2009

(Que coisa aflitiva ter aulas amanhã mas elas não serem a primeira coisa do dia.)