segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Por que eu não quero ter filhos

1. Sou contra a instituição da família burguesa
Isso é sério. Não acho certo que algumas pessoas tenham oportunidades melhores na vida só porque nasceram em famílias melhores - mais emocionalmente estáveis, mais ricas, de gosto melhor, de melhor bom senso.

E não gosto da convivência em família. São várias pessoas morando em uma mesma casa (ou se encontrando com freqüência) que, se não tivessem sido obrigadas a conviver dessa maneira, dificilmente o fariam por opção.

Acho que seria ótimo se pudéssemos ser pessoas soltas, sem obrigações congênitas. É claro que isso nos obrigaria a morar em orfanatos (que não se chamariam assim, porque ninguém teria pais) até que tivéssemos certa idade, o que, na minha opinião, não seria algo ruim, porque cresceríamos ao lado de pessoas de idade correspondente - amigos.

Isso certamente demandaria uma infra-estrutura que não existe na maioria dos países hoje, mas, com o tempo, poderia se tornar algo tão fundamental que, por pior que fosse, simplesmente teria que existir.

Não sei muito bem como os pais fariam os filhos, provavelmente alguns bebês seriam roubados assim que nascessem por pessoas conservadoras, seria preciso que houvesse um grande controle sobre isso. Minha mente não consegue pensar em saídas muito melhores que as do Admirável mundo novo, infelizmente.


2. Não gosto de crianças
Não que eu queria chutar todas as crianças que eu vejo, nem que eu não seja educada e até bastante receptiva com as crianças que insistem em falar comigo; eu só não me emociono na presença de uma criança.

Engraçado, porque eu vivi a minha vida inteira tendo medo de crescer. (Ainda tenho.) Tenho uma lembrança bem forte de quando eu tinha uns cinco anos, em que eu estou vendo um álbum de fotos minhas quando bebê e chorando muito. Eu não consigo gostar de ver o tempo passando, talvez seja isso, e de pensar que não temos mais contato com o passado.

Hoje, não vejo muita graça em ser criança, embora eu me lembre de gostar de ser criança. Se bem que eu não vejo nenhum atrativo na idéia de envelhecer e talvez eu goste de ser mais velha, um dia.


3. Não sou responsável
Sou boa em seguir acordos, guardar segredos, cumprir promessas. Se alguém precisa da minha ajuda, tento contribuir da melhor maneira possível; eu reconheço isso.

Mas tem coisas que eu faço comigo que eu não faria com os outros.

Então, se alguém dependesse de mim para existir, e estivesse perto de mim o tempo todo, talvez percebesse que eu não sou tão boa assim para mim mesma, e isso poderia machucar. Fora o fato de que eu poderia considerar essas pessoas (meus filhos) como estensões de mim, fazendo, com elas, coisas que eu faço comigo mas não faria com os outros, porque eu poderia fazer isso sem perceber.


4. Eu não conseguiria conviver com a culpa de gerar uma pessoa infeliz
Acho que essa seria a maior infelicidade de todas as infelicidades que eu poderia sentir na vida. É também por isso que eu nunca gosto de dizer para a minha mãe quando eu estou me sentido triste. Deve ser um sentimento horrível de derrota. Saber que aquela pessoa, que existe no mundo por sua causa, está infeliz... É claro que você tem culpa. Ou, se é que não tem, deve fazer um esforço enorme para deixá-la feliz.

Me assusta a idéia de que a felicidade de alguém deva depender de mim. Eu não tenho competência nem para fazer de mim mesma uma pessoa feliz.


5. Não tenho a intenção de misturar os meus genes com os de alguém que eu amo (porque isso só daria certo se essa pessoa fosse um homem)
Não faz muito tempo que eu percebi que essa é uma das grandes razões que levam as pessoas a querer se reproduzir.

Não acho que seja só isso (a vontade de materializar um amor em uma forma física), mas também um desejo por continuidade, tentar deixar algum pedaço de si mesmo no mundo.

Li outro dia uma entrevista com um biólogo em que ele, perguntado sobre o aumento da longevidade e as suas hipóteses a respeito da possibilidade de se viver infinitamente, disse uma coisa que me fez pensar muito: não existe razão evolutiva que justifique a continuidade da vida dos pais depois que seus filhos se tornam independentes. Bom, mas isso não tem muito a ver com o que eu estava dizendo.

Mesmo assim, ainda que não diretamente, me ajudou a entender algo que sempre me deixou intrigada: por que os pais gastam tanto tempo disputando a posse da aparência dos filhos. É a ilusão de estar deixando pedaços de si mesmos no mundo.


6. Quero ter a minha vida para mim
Não sei muito bem como funciona quando se fica mais velho, mas tem que existir alguma coisa que motive a viver, quando se fica mais velho, que não seja o futuro.

Para mim, acho que a motivação vai ser sempre a mesma. Coisas. Livros, filmes, música, artes. E horas de pensamento sendo despejadas da minha cabeça para dentro de mim. Isso é a minha vida, e isso depende de mim (só de mim).

Por isso eu não quero ter filhos e por isso eu nunca quero me casar. Talvez, se alguém tivesse me perguntado isso antes, há alguns anos, a resposta poderia ser diferente. Hoje, eu já acho que eu tenho a minha vida como ela vai ser para sempre.

Se ninguém tivesse filhos (vide item 1), a lógica de vida de todo o mundo seria diferente. Com certeza, bem menos gente pensaria em se casar. E as pessoas viveriam mais para si mesmas, com certeza. (E mais para o mundo do que para outras pessoas, com certeza.)


7. O mundo já tem gente demais
E não tem?

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