segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Alguém já percebeu que quase tudo o que eu escrevo começa com "Fiquei imaginando..."? Mas é porque é verdade. Estou o tempo todo imaginando. Freqüentemente, imagino situações impossíveis - o que não me impressiona; me impressiona que as outras pessoas não percam tanto tempo quanto eu imaginando absurdos.

Fiquei imaginando como seria quando eu quisesse terminar. Fiquei me imaginando em um carro, a madrugada do dia que eu já escolhi, garrafas de bebidas caras (seriam as últimas, afinal), uma estrada infinita - porque ela vai e volta, eu poderia dirigir nela para sempre, se eu quisesse - muito escura, as minhas lágrimas e a minha música tocando bem alto. Fiquei imaginando a minha breve despedida (um recado em código, uma mensagem de texto enviada para a lista), que não seria breve por descaso, mas por incapacidade.

Nunca estive tão curiosa para saber se eu vou estar viva daqui a um período de tempo bem curto. Soa tudo muito perfeito. O dia que eu escolhi é perfeito. Tudo vai estar bem mais calmo até lá, eu provavelmente já terei recebido mais umas vinte ou trinta provas de que não deveria estar no mundo e de que a minha vida não pode dar certo; tudo soa perfeito.

Eu não queria estar sorrindo no meu último dia, mas queria que as pessoas se lembrassem de mim com um amor feliz.

Não queria causar aflição. Queria que fosse simplesmente um fato que as pessoas tivessem que aceitar. De repente. Estarei aqui e, no segundo seguinte, não estarei mais. Sem muita dor, mas com muito sofrimento.

Depois, minha imaginação me levou a outros rumos. Afinal, contra o que eu teria que colidir o meu carro em uma estrada deserta? (Imaginei uma daquelas que têm duas mãos na mesma pista.) Contra outro carro seria injusto. Contra uma árvore ou um cercado de acostamento teria grandes chances de dar errado - ou seja, não morrer . Me jogar de um barranco seria difícil, e também não seria garantido.

Pensei em pulsos e sangue, um partido que eu nunca achei que fosse o melhor. Se eu sobrevivesse, poderia ficar em estado vegetativo por décadas. Descobri como se faz o corte da melhor maneira. Mesmo assim, seria doloroso. O que eu não acho que seja um agravante, porque essa seria a minha última dor. Tenho pena de quem me encontraria mergulhada em uma poça de sangue, sem cor no rosto e de olhos virados, sem roupa, jogada no chão do meu quarto. Isso também seria injusto.

É que às vezes eu me sinto tão triste que tenho vontade de me machucar muito. E acho que, pela primeira vez na vida, sinto que eu não tenho nada a perder.

Quando eu era mais nova, tinha esperanças em relação ao meu futuro. Vivi momentos bons desde então, talvez os meus melhores momentos. (Então, se tiver que acabar, que não seja na decadência.)

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