quarta-feira, 10 de março de 2010

Com o celular quebrado, acabei me decidindo por usar músicas como despertador. Ontem e hoje foi Supergrass (ontem Za, hoje Evening of the day). É legal porque eu acordo pulando - nunca fui de acordar de uma vez - e passo a primeira parte da manhã no êxtase da música, que continua tocando por horas dentro da minha cabeça.

Mas me deixa melancólica e meio devagar, seria ruim se eu precisasse de concentração assim que despertasse - eu quase nunca preciso disso, na minha rotina invertida -, talvez me afete um pouco porque parece que as músicas entram na última parte do meu sono, se transformando em sonhos ou se apropriando de alguns dos meus suspiros de sonho.

Cria a ilusão de que eu estou feliz, o que pode ser útil (nada pior do que já acordar com a sensação de que nada vale a pena), mas, como não é verdade e a verdade prevalece, não é útil.

Eu queria poder fazer alguma coisa com a música que fosse mais do que ouvi-la. Como se eu estivesse acordando em um musical. As pessoas ao meu redor também estariam contagiadas pela música, talvez dançando ou cantando em voz alta, e obedecendo ao seu ritmo para fazer qualquer movimento.

Às vezes fico com aflição por perceber que aquilo que me comove em uma música - cada um dos acordes cortados por pausas em Evening of the day, por exemplo - não comove mais ninguém no mundo de uma maneira precisamente igual.

Isso me lembra por que eu sempre quis namorar alguém que tivesse um gosto musical parecido com o meu, nossas vidas seriam uma enquanto fossem um videoclipe, não posso dizer com certeza qual é a sensação de ter alguém durante uma parte preferida de uma música muito especial para mim porque isso nunca aconteceu antes - ou porque nunca aconteceu com a pessoa ideal -, seria uma guitarra certa no momento exato, um pedaço da letra que completasse o que eu estaria sentindo (As I'm looking at the view/ All I'm thinking of is you) e toda aquela sensação idílica que a gente sempre acha que ainda vai sentir um dia.

Parte de ter alguém é poder dividir momentos engraçados de especiais; eu não saberia ensinar ninguém a aproveitar os meus milésimos de segundo antes de me irritar completamente.

Ontem encontrei uma frase que eu escrevi,
por que eles não fazem um clone de mim para gostar de mim?, tenho certeza de que eu mesma me entenderia, que soa idiota mas é o que eu sinto, eu queria poder me sentir bem sozinha porque eu acredito que isso é possível, ainda que eu nunca aja de acordo com essa possibilidade.

Outro dia, andando na rua sozinha à noite, passando por muitas pessoas reunidas (grandes grupos de amigos em bares), parei para pensar em como seria se eu só tivesse a mim própria. Esse é um assunto que tem ocupado a minha cabeça com uma freqüência maior do que qualquer outro assunto, mas, naquela noite, pela primeira vez eu realmente consegui sentir como seria não ter ninguém. Eu não teria com quem conversar, chegaria em casa e encararia as paredes, ouviria o eco do salto dos meus sapatos encontrando o chão.

Apesar de tudo, seriam os meus momentos na minha casa, os meus copos e o meu tapete, o meu sofá, no meu quarto na minha vida, quem quer que fosse pediria permissão para entrar e dividir espaços de tempo comigo, eu recusaria a maioria das propostas até o dia em que não recebesse mais nenhuma.

Eu observaria o teto do meu pé direito alto, abraçaria almofadas enquanto estivesse vestindo apenas botas e colares, comeria a mesma pizza por um mês, não teria telefone, acabaria de uma vez por todas com as preocupações que, hoje, eu considero essenciais à minha futura existência.

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