"Você sabe quanto tempo eu ainda tenho? [beijo no rosto] Muito pouco, na verdade."
Eu diria isso se soubesse quanto tempo de vida ainda me restaria. Eu contaria à pessoa em questão: dois meses. Ou talvez um ano, ou 18 dias, não importa.
Seria possível que a pessoa se comovesse e aceitasse a minha proposta.
"Sabe, [sorriso] a gente nem vai precisar fingir que a gente não se conhece da próxima vez que nos virmos, porque não haverá uma próxima vez."
Não seria algo estranho. Qualquer um poderia ter acesso a essa informação. Todo o mundo se programaria da maneira mais conveniente para o dia da sua morte. E, então, quando ele finalmente chegasse, as pessoas cuidariam para que tudo acontecesse da melhor forma possível - embora quase nunca isso fosse uma opção.
Testamentos seriam melhor elaborados, ninguém nunca seria pego de surpresa com uma notícia desagradável e, o mais importante, tenderíamos a dar mais valor aos nossos momentos vividos.
Aqueles que fossem destinados a morrer jovens seriam os mais felizes. Viveriam seus poucos anos de vida de forma despreocupada - jamais teriam que se sustentar, saberiam que nunca passariam por uma forma de solidão tão comum na velhice e poderiam atentar aos seus próprios corpos sem nenhum peso na consciência. Eles passariam noites em claro na intenção de não deixar que nada lhes escapasse.
Quem fosse morrer dentro de pouco tempo provavelmente estaria sempre se perguntando o que viria a causar aquilo, caso estivesse vivendo uma vida totalmente normal naquele momento. Acidente, infarto, doença infecto-contagiosa gravíssima?
Dependendo da idade da morte, nem valeria a pena fazer planos a longo prazo. Então as pessoas seriam felizes assim, e essa seria uma boa justificativa para qualquer coisa. Um bom motivo para gastar todo o salário em besteiras, ou para magoar alguém, talvez para matar alguém (será que o destino do assassinado também estaria previsto?), um motivo bom o suficiente para fazer uma viagem infinita - morrer em um lugar escolhido com calma.
Quem fosse morrer dentro de pouco tempo provavelmente estaria sempre se perguntando o que viria a causar aquilo, caso estivesse vivendo uma vida totalmente normal naquele momento. Acidente, infarto, doença infecto-contagiosa gravíssima?
Dependendo da idade da morte, nem valeria a pena fazer planos a longo prazo. Então as pessoas seriam felizes assim, e essa seria uma boa justificativa para qualquer coisa. Um bom motivo para gastar todo o salário em besteiras, ou para magoar alguém, talvez para matar alguém (será que o destino do assassinado também estaria previsto?), um motivo bom o suficiente para fazer uma viagem infinita - morrer em um lugar escolhido com calma.
Mas, com certeza, haveria aqueles que prefeririam ser silenciosamente levados da vida.
"E então, quando é que vai ser, hein?" "Não faço idéia."
Como as grávidas que preferem não saber o sexo dos seus bebês. Não é que elas não tenham curiosidade. Talvez gostem de esperar a hora certa (sejam pacientes). Ou desanimadas. Afinal, um dia a hora vai ter que chegar.
Muitos tentariam explicar o seu destino através de coincidências de fatos ligados ao dia da sua morte. Obcecados por números analisariam o horário exato de partida e teriam hora, minuto e segundo fixos em suas memórias, para que tudo o que apresentasse alguma semelhança remota fosse tomado como importante. Placas de carros desconhecidos, números de telefone - para citar obviedades. Eles se aproximariam de pessoas cujo número de RG fosse de alguma forma correspondente à marcação do relógio no instante do seu último suspiro, por exemplo.
Finalmente, o instante tão esperado. Um pescoço quabrando em uma batida de carro. A dor de um punhal rasgando o estômago. Morrer dormindo. Morrer no hospital. Com uma pessoa importante ao lado. Com um cano de revólver enfiado na boca.

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