sábado, 7 de agosto de 2010

Em um dos começos de noite claros (sem crepúsculo, mas com anoitecer), quase o último, imaginei como seria se eu não estivesse mais aqui. Tudo do que eu teria, antes, que tomar providência. Sinais que eu deixaria, mensagens escritas em lugares obscuros, para serem encontrados muito tempo depois.

O que eu deveria dizer às minhas pessoas importantes. Começou com uma carta única, destinada a todos que me conheceram. Acabei adicionando mensagens pessoais, que rapidamente se transformaram em cartas exclusivas, lotadas de detalhes - muitas vezes, explicações que vêm da época do meu primeiro contato com o destinatário. Mentalmente, escrevi cartas a pessoas de quem nunca fui tão próxima, mas que significaram muito para mim.

Concluí que, se eu tivesse que morrer, levaria anos até ter todo esse material pronto. Ou deveria começar antes de estar com a decisão plenamente tomada. Seriam muitas palavras. Coisas que eu nunca disse a ninguém - nem pretendo, de outro modo.

No começo de noite seguinte (oficialmente, o último, que eu me lembre), desisti da comunicação individual para passar a outro patamar: orientações sobre o que fazer com os meus restos. Uma listagem complexa de cada um dos meus atributos físicos, cada pedacinho de mim; eles deveriam se tornar pingentes de colares, material para desenho, talvez até mesmo comida (em segredo, senão ninguém iria querer comer), utensílios dos mais diversos usos.

Imaginei alguém arrancando a minha pele, depois tirando a carne dos meus ossos. Depois alguém distribuindo tudo entre as pessoas certas (citadas na carta de orientação), ou as coisas se distribuindo sozinhas, aparecendo jogadas em meio às bagunças das pessoas. Engraçado imaginar o meu corpo não sendo mais eu. (Estranhamente, eu assistiria ao meu próprio esquartejamento.)

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