Se eu pudesse tirar do calendário os dias que me trazem memórias tristes, eu certamente não precisaria mais viver.
(Odeio como as datas me fazem lembrar.)
(E isso porque eu nem vivi muito.)
Eu queria apagar algumas lembranças da minha cabeça. Apagar algumas pessoas que passaram pela minha vida, e deixaram marcas desagradáveis. Em geral, porque foram embora. (Pessoas que ficam não deixam saudades, nem a sensação do que poderia ter acontecido.)
Eu queria viver sem ter que ficar me lembrando o tempo todo.
(Quase nunca estou vivendo o meu presente. Ou estou vivendo lembranças, ou estou vivendo situações inventadas, que não são a minha vida de verdade. Estranhamente, inventar faz com que eu me sinta muito bem. São alguns segundos de uma vida perfeita para horas, dias, semanas da minha vida sem graça, cheia de defeitos.
Fico me perguntando o que eu seria sem a minha imaginação. Nada além de nada, talvez eu nem existisse fisicamente.
O problema é que eu tenho uma tendência particularmente grande de transformar as maiores trivialidades do mundo em paranóia. Numero tudo o que for quantificável. E exijo de mim mesma uma explicação lógica para o que quer que os números possam representar.
Me descubro propondo desafios a mim mesma, me cobrando situações e metas que eu mesma me impus.)
Eu queria que alguém se sentisse como eu me sinto. Não porque eu quisesse a compaixão de alguém, mas porque eu queria conversar com alguém sobre os meus sentimentos. (Como só eu sou capaz de senti-los, ninguém nunca vai conseguir realmente entender como eu me sinto.)
É que eu acho que isso tem sido uma coisa importante para mim - como eu me sinto -, e não vejo a maioria das pessoas dando tanto valor a isso.
Eu queria não ter vergonha de me sentir como eu me sinto. Porque, se eu não tivesse vergonha, eu poderia contar para alguém o que se passa dentro da minha cabeça. Por mais que as pessoas não entendessem, acho que eu me sentiria mais leve por sentir que eu poderia falar.
(Mas deve existir mais gente no mundo com a mente atormentada que não tem coragem de falar como se sente.)
(Eu queria que as pessoas pudessem contar aos outros como se sentem.)
Eu queria poder contar como eu me sinto. Se eu pudesse, talvez não precisasse tirar alguns dias do calendário. (Porque, talvez, eu não tivesse memórias tão tristes. Talvez existam pessoas com memórias parecidas com as minhas.) Se as pessoas escutassem umas às outras, talvez pudéssemos viver todos os dias do calendário sem sofrer pelo passado, viver cada um dos dias sem pensar em como, nos próximos anos, eles serão lembrados pelas tristezas que os deixarão marcados para sempre.

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