De toda forma, eu também não consigo responder direito quando me vejo comprometida a obrigações demais. Em qualquer meio segundo de brecha que encontro durante uma conversa com qualquer pessoa, minha cabeça começa, sem a minha autorização, a organizar uma lista de tarefas que devem ser cumpridas, estipulando metas, calculando possibilidades. Sou eu encarando uma parede, o céu, uma lousa, o rosto de alguém sem conseguir me concentrar em escutar o que estou ouvindo - o que também acontece quando estou fingindo viver outras vidas, na minha imaginação. Tento disfarçar, mas nem sempre consigo captar o sentido geral da conversa, a ponto de dar uma resposta que possa significar que eu realmente estava ouvindo. Às vezes, admito, rindo, a minha distração, e peço para a pessoa repetir - se é que o que ela estava falando fosse realmente interessante, ou se ela estivesse me cobrando uma opinião.
Minha mãe nunca foi tão habilidosa quanto eu. (Ainda que eu falhe algumas vezes, consigo obter uma porcentagem bastante satisfatória no que diz respeito a enganar o meu interlocutor. Isso acontece com professores, amigos, pessoas que dão informação na rua, enfim, qualquer um, mas também, claro, com a minha mãe.) Minha mãe nunca se importou em não conseguir disfarçar: milhões de vezes, tive de repetir a mesma pergunta até que ela percebesse que estava sendo interrogada - e, então, eu tinha de repetir a pergunta de novo. Me acostumei a agir assim com a minha mãe, mas devo reconhecer que isso atravanca demais a nossa comunicação. Talvez, por isso, eu tenha me disposto a conversar cada vez menos com a minha mãe.
Quando eu era pequena, reclamava Você não está prestando atenção! Ela dizia que estava, mas ainda assim me pedia para repetir o que eu havia acabado de falar. Com o tempo, passei a parar de repetir. Você não está interessada.
Esse processo foi eliminando a minha vontade de falar sobre mim. Se nem a minha mãe queria saber das coisas que eu queria falar, quem mais quereria?
Só fui perceber que eu não falava sobre mim - principalmente em conversas com muitas pessoas ao mesmo tempo, daquelas que não levam a nada, em mesas de bar ou de restaurante, mas em que cada um quer contar a sua história a qualquer custo - quando eu tinha 17 anos. Foi uma constatação da Yasmin (não em uma conversa com muitas pessoas envolvidas, em mesas de bar ou de restaurante, mas em uma conversa particular): Você não gosta muito de falar sobre você, né?. Achei louvável que ela tivesse percebido aquilo, porque era algo que nem eu mesma jamais havia percebido até então.
Ainda que eu não fale sobre mim, penso muito sobre mim. Principalmente, quando estou conversando com outras pessoas. Penso tanto sobre mim que às vezes eu acho que não penso sobre mais ninguém. Claro, eu só tenho o discernimento necessário para pensar sobre a minha própria vida. O que é bom, porque quer dizer que eu não fico especulando sobre os sentimentos alheios - e já que eu não tenho nada a ver com eles. Mas faz de mim uma pessoa fechada. E fecha em mim mesma sentimentos que, se fossem compartilhados com outras pessoas, talvez não me machucassem tanto. Talvez eles não precisassem ser jogados em uma conversa de mesas de bar ou de restaurante, mas pudessem ser divididos. Com as pessoas certas.
Quando estou conversando com outras pessoas, principalmente quando estou ouvindo outras pessoas falando, penso muito sobre mim. São os meus personagens vivendo as vidas deles dentro da minha cabeça. Ou os meus problemas passeando em frente aos meus olhos, impedindo que eu olhe para a pessoa que conversa comigo.
E, um dia desses, enquanto eu conversava (ou tentava, ou fingia conversar) com a minha mãe, percebi que eu tinha me tornado uma pessoa diferente nos últimos tempos. Mais do que isso, percebi por que eu tinha me tornado uma pessoa diferente. Ao longo dos últimos meses, adquiri posições críticas sobre muitas questões. Hoje, posso dizer que eu tenho opiniões formadas sobre muitos assuntos, o que eu não poderia afirmar com tanta certeza há menos de um ano.
Foi conversando com a minha mãe que eu percebi que eu gasto tempo demais pensando sobre mim, sobre os meus personagens, horas e horas diárias para racionalizar o que cada um deles deve fazer, enredos complexos que poderiam preencher milhares de páginas ou consumir milhares de minutos de filme. Percebi que eu tenho muitos conflitos internos para resolver. Não consigo aprender a conviver comigo mesma; não me sinto confortável dentro da minha própria vida. E, ao longo de todos esses anos em que eu venho pensando sobre mim, tenho tentado fazer da minha existência uma situação menos dolorosa - o que eu costumo conseguir através da imaginação de realidades alternativas.
Acho que gastei tanto tempo pensando sobre mim que nunca consegui me sensibilizar o bastante com o que acontece ao redor de mim - como eu quase nunca consigo enxergar o que está do lado de fora de mim - e devolver uma resposta minha para o mundo. Mas, com o tempo, os problemas dos meus personagens & os meus problemas começaram a se transformar nos problemas do mundo. O mundo caiu em cima de mim, da minha vida, dos meus personagens, dizendo que nós não podíamos seguir existindo como vínhamos fazendo.
E todo esse jeito de existir que nós sempre usamos para existir foi questionado, ferido, derrotado pelo que eu finalmente entendi como sendo a sociedade ao nosso redor. Eu e os meus personagens descobrimos que não vivemos da maneira certa nessa sociedade. Não estamos adequados a diversos padrões, não pensamos de acordo com o pensamento dominante.
E, assim, pela primeira vez, percebi que os meus conflitos internos não tinham simplemente surgido no meu interior. Talvez eles tenham sido piorados por mim, mas eles foram provocados por pessoas, questões e situações das quais eu jamais poderia ter controle.
Demorei, ao longo de um processo angustiante, perturbador para conseguir entender que eu deveria tentar fazer alguma coisa para mudar isso. Descobri que muitas pessoas estão por aí pensando sobre as mesmas questões que me fizeram sofrer, que me fizeram - e me fazem - viver alienada em romances, músicas e filmes para tentar aliviar o terror de enfrentar os meus próprios problemas.
Conversando com a minha mãe, percebi por que eu nunca consegui ter opiniões políticas. Porque eu tinha muitos conflitos internos para resolver. Ainda não resolvi, mas, agora, a política se transformou em um conflito interno meu.

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