segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Odeio quando me perguntam como eu me sinto. Não acho que alguém tenha o direito de perguntar como eu me sinto. Talvez pessoas bem próximas possam tentar descobrir, de maneiras menos diretas, por que eu estou me sentindo particularmente mal, mas quem nem me conhece não deveria ousar me olhar e dizer que eu estou com uma expressão péssima.

Acho desreispeitoso e desnecessário perguntar como as pessoas se sentem. Se alguém que eu mal conheço me perguntar por que eu não estou bem, dificilmente responderei que é porque a garota a quem a minha cabeça dedica horas diárias de pensamento nem liga para a minha existência; ou porque eu não tenho apego nenhum à minha vida e que eu ando pensando com uma freqüência assustadora em me matar; ou porque eu acho que ninguém faz questão de mim e eu estou, aos poucos, me tornando uma pessoa repulsiva, não só para os meus amigos, como também para a minha família e, pior ainda, para mim mesma; ou porque eu tenho pensado muito no meu pai que morreu e me deixa bem triste o fato de que eu não posso mais falar com ele; ou porque eu ainda ouço vozes quando me sinto mal com o meu corpo, embora eu tente com muita força não deixar isso me abalar; ou porque não é que o comprimento da minha lista de problemas tem aumentado, mas a profundidade deles. Responderei que estou cansada, porque dormi pouco ou mal; ou que deve haver um engano, porque estou sempre me sentindo ótima.

O mesmo vale para machucados visíveis. Eu só não pergunto, não só porque pode ser constrangedor, mas porque, afinal, o que eu tenho a ver com isso? Qualquer um percebe quando alguém está com um olho roxo, uma mão quebrada ou um corte feio no braço. Talvez porque tenha apanhado em uma briga, porque goste de sadomasoquismo, porque tenha ficado bêbado e sido vítima de algum acidente idiota - enfim, não importa.

Também não importa o motivo pelo qual os parentes das pessoas estão hospitalizados, ou porque eles morreram. Não importa que atividade profissional eles exercem ou qual é a sua situação financeira.

Não importa tanta coisa que, se importasse de verdade, não viraria fofoca. Talvez seja isso o que as pessoas desejam: falar da vida dos outros pelos corredores do mundo. Ter um assunto novo, uma tragédia para espalhar por aí. Ou seja, ninguém que pergunta o motivo do inchaço de olhos tem a intenção de convidar para tomar um café e fazer sentir melhor, nem quem pergunta o porquê das bandagens em uma das mãos quer ajudar a carregar sacolas para amenizar a dor.

As pessoas querem ter o prazer de poder compartilhar com outros os problemas de qualquer um, ou, pior ainda, querem se sentir íntimos daqueles que sofrem. Talvez até se sintam felizes diante da dor dos outros, talvez se sintam menos prejudicadas ao ver pessoas em situações tão ruins.

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