domingo, 26 de julho de 2009

Preciso de alguém para jogar um copo de água na minha cara.

Isso me faria perceber muitas coisas, me deixaria menos ansiosa e mais à vontade. Depois - as gotas pingando pelo meu nariz e meu queixo, minha sobrancelha bagunçada e meus cílios enxarcados -, eu passaria a língua nos lábios. Alguém poderia amarrar as minhas mãos atrás das minhas costas e jogar um copo de água na minha cara.

Assim eu não teria como evitar toda a situação, mesmo relutando muito para que as minhas mãos não fossem amarradas. Talvez fosse preciso amarrar os meus pés aos de uma cadeira.

Alguém jogaria um copo de água na minha cara, e esse seria um gesto anônimo e instantâneo (não seria preciso que essa pessoa realmente existisse).

A água do copo encontrando o meu rosto (a cena repetida em câmera lenta, como nas aulas sobre inércia) escorreria e levaria com ela todo o arrependimento que eu tenho sentido nos últimos tempos.

Não tenho idéia do motivo exato, mas, ultimamente, quando eu páro de falar e começo a pensar a respeito de qualquer assunto, minha mente têm me lembrado de acontecimentos deprimentes das épocas mais diferentes da minha vida. Foram situações em que eu me senti muito constrangida, daquelas em que chega a ser possível sentir as bochechas ganhando cor, você tenta disfarçar e acaba só falando coisas sem o menor sentido ou justificativa.

Em momentos como esse, pisco o olho esquerdo. Involuntariamente. Enquanto estou corando por besteiras que eu fiz há anos, pisco o olho esquerdo, em uma ação reflexa tão imediata que nunca consigo evitar. Quando dou por mim, estou com o olho esquerdo fechado, o resto do rosto se contorcendo em uma careta mal-feita, a boca levantando junto com o nariz.

Se eu recebesse um copo de água na cara bem nesse instante, talvez até desse risada da situação relembrada. Afinal, racionalmente, é mais do que óbvio que não devo me sentir arrependida por momentos tão pontuais e distantes.

Quando eu era menor, essas situações de constrangimento eram bem mais freqüentes. Não sei se porque eu era menos segura, talvez eu falasse demais, ou era mais idiota.

Nenhum daqueles que estavam presentes em cada situação deve lembrar do acontecido, assim como eu não tenho memória da vergonha sentida por outras pessoas. Na hora pode até ser engraçado, às vezes meio triste ou embaraçoso, mas depois de meia hora pronto, já passou, e eu nunca volto a refletir sobre aquilo.

Estou presa nas minhas próprias lembranças, e as boas lembranças não ficam marcadas.

Um comentário:

May disse...
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