sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Gay

O lugar mais óbvio em que poderíamos nos conhecer seria em um restaurante no número 206 da rua 63 leste em Manhattan, Nova York. Não seria daqui a muito tempo, mas - por tradição - o restaurante provavelmente não seria mais o Smocking Q, que existe ali hoje.

Não o imagino comendo churrasco, nem mesmo eu sou grande apreciadora deles (e menos ainda dos restaurantes de churrasco), mas esse seria, de fato, o lugar mais provável em que poderíamos nos encontrar. Primeiro porque ele certamente jamais deixará de freqüentar o 206 da 63 leste e segundo porque eu, sabendo disso, persistiria indo comer churrasco (ou o que quer que estivessem servindo ali) até que conseguisse me encontrar com ele.

Seria a minha terceira visita a Manhattan. Ele escreveria sobre mim em algum lugar - no seu mais novo livro, sobre a história do prédio que existe no número 206 da 63 leste? -, mencionando essa informação enquanto me introduzisse como brasileira, para, depois, descrever a conversa que eu teria ido começar a ter com ele. Apresentaria a mim como costuma fazer aos seus personagens, inundando páginas de dados biográficos, então citaria alguns dos meus traços físicos e, no desenrolar da conversa, algumas das minhas características psicológicas que ele pudesse ir deduzindo conforme dialogássemos.

Isso aconteceria daqui a alguns anos, não muitos, de modo que eu não seria tão diferente do que sou hoje. Caminharia pelo salão do restaurante - algum cabelo caindo sobre o rosto e um sorriso delineado de leve que combinasse com os olhos brilhantes - até ter coragem e um nível etílico razoável no sangue para conseguir me dirigir a ele. Ele não acharia estranho, talvez se sentisse apenas um pouco aborrecido; ele deve estar acostumado e, ainda, saber muito bem como lidar com abordagens de desconhecidos, por qualquer razão que elas venham a ocorrer.

A minha razão seria apenas devotiva, eu faria elogios sobre a pessoa dele mas tentaria não ser uma fã insuportável, agradeceria a ele por se fazer presente no mundo (foi o que eu tentei dizer aos meus grandes ídolos com os quais já tive a sorte de trocar palavras e olhares, como Gaz Coombes e Eleanor Friedberger) e melhorar a vida das pessoas que puderam se ver contagiadas com seu ótimo trabalho.

Eu tentaria absorver dele o máximo que me fosse possível durante a nossa conversa; seria uma experiência sobre a qual eu quereria parar para escrever mais tarde, ou simplesmente me abalaria de um modo tão profundo que ficaria idiota por alguns dias, sem conseguir dar atenção a mais nada (as pessoas falando comigo e eu demorando a responder, sem querer).

Eu não gostaria de planejar o que iria falar: isso me transformaria em uma intérprete e retiraria de mim toda a minha personalidade, embora me fizesse correr o risco de não conseguir falar nada ou de acabar falando tudo errado - a boca tremendo e a voz confusa, aquela sensação de que eu não estou sendo compreendida quando falo em outra língua e o tradicional problema de não conseguir falar alto o suficiente.

É comum que as pessoas que vemos pela primeira vez ao vivo mas que já vimos outras vezes em fotografias, principalmente quando já conhecemos parte do seu trabalho ou tivemos contato com informações sobre a sua vida de alguma outra maneira, se mostrem muito diferentes daquilo que imaginávamos. A altura delas é sempre diferente, além das nuances mais variadas, tal como o jeito com que a boca se mexe para falar, o timbre da voz ou a cor exata do cabelo; freqüentemente nos damos a liberdade de imaginar traços que quase nunca são reais, em geral por desejarmos a tranqüilidade de ter guardada na memória uma pessoa pronta a que nosso cérebro possa fazer ligação quando o mundo exterior a referencia em circunstâncias diversas. Para pessoas de que gostamos, escolhemos características positivas, naturalmente, ainda que isso possa nada ter a ver com o que conhecemos delas.

Eu o imagino alto (ele disse ser alto, mas eu imagino bem alto), uma pessoa intimidadora de tão bonita (mesmo não tendo mais uma beleza de juventude), de terno claro (porque é o que ele veste na fotografia da contracapa da edição de Vida de escritor que eu li), simpático, muito bem educado e extremamente sorridente. Imagino a sua facilidade para falar, no que se inclui não só uma grande extroversão, mas também uma habilidade de fazer perguntas certas nas horas certas, para nunca deixar que uma conversa qualquer tenha acontecido em vão.

2 comentários:

Ferdi disse...

Eu poderia e gostaria de ter escrito esse texto.
Aliás, cheguei até seu blog porque queria a hospedagem que você teve a idéia primeiro :)

Vou te seguir, gostei muito do seu jeito fluido de escrever e espero que você não tenha abandonado o blog.

Beijos.

Hannah Maruci Aflalo disse...

taleseee...oun