A Denise me irrita por querer almoçar cedo demais; depois eu fico passando fome durante todo o resto do dia, o que é naturalmente um problema para ela, e não para mim. Primeiro porque eu amo ter fome depois de comer (ainda mais especial se for logo depois). Segundo porque, mesmo que no começo a fome possa me deixar com raiva, depois de algumas horas ela obviamente se torna a minha raison d'être.
Depois de muitas horas sem comer, a perspectiva de vir a comer outra vez na vida se torna repulsiva. Se eu posso sobreviver bem sem comida, então por quê? É claro que isso já foi mais forte, muito mais forte, eu colecionava horas sem colocar nem uma gota de água dentro da boca, quanto mais horas melhor, quanto menos peso, menos corpo, mais pele sobrando.
Quanto mais os meus ossos dóem, mais feliz eu me sinto. Eu sei que é errado, mas é assim que eu me sinto, e eu não mentiria sobre isso - não para mim mesma.
Odeio agir de má fé (do jeito Sartre), então não escondo as coisas de mim, nem quando isso for dolorido demais. Nunca.
Mas eu vim aqui para escrever coisas mundanas - cansei dos meus pensamentos blasé dos últimos tempos. Eu vim aqui reclamar da Denise e acabei vomitando um monte de palavras que poderiam, todas elas, estar dentro de um único par de parênteses.
Vim aqui para falar de mim, e não de mim no sentido 'o que eu sinto', nem 'o que eu penso', mas no sentido 'o que eu fiz'.
Ontem trabalho finalmente terminado. O papelão é ingrato, o lame é ingrato. E eu até hoje não sei o que significa 'lame'. Eu sei lá se é uma sigla, uma abreviação...
Daí eu fui no Fifties e pedi um sorvete cabuloso (que mania horrível de chamar tudo de 'cabuloso'), e isso é como uma ponta do ciclo que eu mencionei no começo do post. Apesar de tudo, eu tenho que me centrar, respirar fundo e dizer para mim mesma: Não vai acontecer de novo. Eu não vou deixar acontecer.
Outro dia, enquanto eu assistia a uma mesa redonda (Rico Lins no Tomie Othake), ela veio para mim outra vez. Eu tinha comido um hamburger naquela noite, e ela começou a falar comigo. Pude reconhecer a sua voz, que é muito parecida com a minha mas mantém sempre a mesma entonação, sempre se utilizando com enorme propriedade da função fática. Ela é incisiva e começa a falar quando bem entende. Não adianta tentar não escutar, ela fala as mesmas coisas até que você preste atenção.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas e, se eu estivesse sozinha, provavelmente teria apertado a minha cabeça com as duas mãos e gritado até que ela parasse, mesmo sabendo que ela não iria parar. Ela faz perguntas como 'O que você quer de mim?', 'Aonde você quer chegar?', perguntas que eu é que deveria fazer a ela. Eu já fui dela, eu sei, eu já fiz muito do que ela me mandou fazer, já deixei de gostar das pessoas que são importantes para mim por ela. Levei ela ao extremo de toda a minha razão: nada mais no mundo fazia sentido.
E então eu estou, de novo, falando do mesmo assunto. Eu poderia ser um gravador no modo repeat?
Amanhã acabam as aulas e eu não sei como vai ser. Tantas coisas para fazer, tanto tempo, e ao mesmo tempo nenhum tempo nem nada, nem nada para fazer, nem nada com o que me preocupar - e tudo com o que me preocupar.
Não sei mais o que eu quero (se é que eu algum dia já soube), mas essa inércia de ter trabalhos para entregar e textos para ler e conceitos para entender não me deixava parar para pensar. Agora eu vou ter tempo - A mente vazia é oficina do demônio (São Paulo?) -, e vou ficar muito mais em casa, e muito mais longe do convívio social.
A situação ideal para ela; sim, eu voltei ao mesmo assunto pela terceira vez.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
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laboratório de modelos e ensaios
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