Ontem eu, a Paolinha e a Hannah estávamos falando sobre O escafrandro e a borboleta enquanto subíamos as escadas logo depois de o sinal ter batido. A Paolinha estava contando que finalmente assistiu ao filme, ela disse que chorou mas não tanto quanto imaginava que iria chorar depois de ter ouvido à minha pressão psicológica. Eu disse que chorei muito. A Paolinha disse que chorou mais em A vida dos outros. A Hannah disse que morreu em PS I love you.
Daí pensei nos assuntos que mais me fazem chorar (acho que eu já falei sobre isso uma vez com a Hannah) - já que tínhamos chegado ao meu andar, o primeiro, e elas continuaram subindo - e consegui sintetizar tudo em duas frentes: 1) problemas familiares e 2) fatalidades.
Nunca vi PS I love you, mas, pelo que a Hannah já me contou, não faz nem um pouco o meu gênero de tristeza. Posso presenciar a pior história de amor do mundo que dificilmente irei me comover. A não ser que isso envolva fatalidades.
Mas se um pai esquecer o filho em casa, ou se dois irmãos pararem de se falar por um tempo, se uma avó ficar viúva (espera, isso é mais familiar do que afetivo), enfim, até o enredo mais banalizado possível, eu me sentirei realmente mal. Por exemplo: eu chorei em Capote. Não sei se é raro chorar em Capote; para mim, a gota d'água é quando ele conta sobre a infância dele, sobre a mãe que vivia bêbada, eles moravam cada vez em um hotel diferente e ele acordava no meio da noite sem a mãe no quarto.
Sobre as fatalidades, acho que isso não envolve só acidentes - afinal, nem sempre eles são tão incríveis assim -, mas principalmente doenças. (Ah, lembrei de Menina de ouro. Uma fatalidade, também, e eu chorei muito, cheguei a soluçar quando ela tem que amputar a perna. ) Quando eu digo doenças, penso em doenças do acaso, por isso fatalidades. Pensei que fatalidades tem a ver com fatal, e não era bem isso o que eu queria dizer. Será que fatalidade só pode dizer respeito a fatal? É que eu pensei em fatalidade no sentido de... Droga, se alguém pensava que eu tinha alguma familiaridade com as palavras...
Assim: depressão não é uma fatalidade. Porque não é uma coisa que acontece de uma hora para a outra, é algo que você cultiva, por mais idiota que isso possa parecer. Na verdade, a depressão muitas vezes surge devido a uma fatalidade; acho, na verdade, que é pior quando isso acontece, mas, bem ou mal, você precisa incorporá-la para que ela se torne realmente uma doença, deixando de ser só mal-estar.
Mas o acidente do Jean-Dominique Bauby é uma fatalidade. Quem estava conversando comigo e disse que "o pior é que ele era uma pessoa comum, ele não era muito legal nem muito chato, nem inteligente demais nem burro..."? Isso é uma fatalidade. De repente, acontece. Com qualquer um. Tipo Marcelo Rubens Paiva.
E até hoje eu tenho a intertextualidade mais genial na minha cabeça (é Louis XIV):
Well there’s a house on the block that’s empty now that Dominique’s gone
(...)
Dear Dominique I wrote to tell you you’re delightful
(...)
I wrote to tell you that I hope you’re feeling better
Self addressed stamped envelope stuffed with your own death letter
Written in blood and in your own handwriting
There’s a house on the block that’s empty now that Dominique’s gone
(...)
I must admit that we never thought you’d go this far
Dear Dominique well I hope you’re feeling better
You look so cute writing out your own death letter
Well now there’s no one to watch your TV
(...)
Dear Dominique you have a bold imagination
The countless ways you thought to die no hesitation
Fantasize long enough, you know it just might come true
A diferença aqui é que Dominique é uma mulher. E ela se matou.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário