Isso tudo vem de uma habilidade freqüentemente últil que a história da minha vida me ensinou a desenvolver: não chorar. Muita gente se comove com uma bronca bem dada, sucumbe após um dia cansativo e não-recompensador, se desfaz ao flagrar uma traição. Mas eu não.
Lots of girls walk around in tears
But that's not for you
Pode parecer estranho, soar insesível, mas eu simplesmente sei como. Não é que eu não sinta nada, que eu não sinta dor. É só que eu sei disfarçar. Me fazer de bem resolvida.
Sempre que eu passo por uma situação constrangedora, penso em como ela seria se tivesse acontecido quando eu era criança. Nunca chorei diante de um momento embaraçoso, nem quando eu era criança. Mas, antes, eu deixava transparecer que não estava me sentido bem. Não conseguia agir rápido, ficava pensando em como aquilo tudo me doía sem conseguir falar nada, encarava qualquer objeto que estivesse disposto a aceitar o meu olhar.
Eram pessoas que gritavam, professores, parentes, adultos altos e ruins, gritavam porque eu não tinha entendido, porque eu tinha feito alguma coisa que não deveria ter feito. Muitas vezes não gritavam comigo, mas com coisas que eles queriam que eu fosse.
Coisas que eu não era, mas queria ser (para parar de ouvir gritos, poder encarar de frente e responder). Durante toda a minha vida, fantasmas me humilharam por não ser muitas coisas.
Eu cresci, aprendi a encarar e responder, mas, para isso, tive que aprender a guardar.
Consigo responder calmamente a alguém que grita na minha cara, não me ofendo em não dar a última palavra em uma discussão. Posso permanecer imóvel, de braços cruzados, assistindo a alguém que quebra pratos e derruba móveis de tanta raiva. Com naturalidade, continuo a conversar com os meus amigos quando me deparo com uma pessoa especial beijando alguém, e sorrio.
Para quem observa de longe, é uma qualidade positiva; devo parecer a pessoa mais forte do mundo. (Mas eu me importo, e machuca.)
No fim, talvez eu seja mais infeliz que as pessoas que choram: as lágrimas delas conseguem levar um pouco do que elas têm de ruim, do que elas sentem de mal, enfim, do que as incomoda. As minhas lágrimas, guardadas na minha cabeça, ao contrário do que eu sou capaz de demonstrar, me atormentam, porque não deixam que eu me esqueça dos problemas que fizeram com que elas se acumulassem.
Elas são pesadas, e vão continuar guardadas, mesmo depois de anos.

Um comentário:
o que a gente guarda
aparece igual, eu acho....
só que de outro jeito
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