Se eu não tenho coisas obrigatórias para fazer, pelo menos poderia estar lendo um livro ou vendo um filme ou escrevendo ou tentando desenhar ou estudando qualquer porcaria, estar praticando um esporte, conversando com alguém.
Talvez doa mais do que precisasse doer (precisa doer, é claro). E não saber qual é o problema me incomoda ainda mais. Não ter a solução é completamente normal, mas não poder nem conseguir poder buscá-la é extremamente desgastante.
Sinto falta da raiva quase patológica que eu cultivava dentro de mim há alguns meses: minha vida já foi muito mais vazia do que é hoje, mas eu tinha uma maneira, embora péssima, para tentar lidar com isso.
Dói perceber que o problema talvez não seja eu, mas as minhas escolhas e as escolhas dos outros - eu ainda me considero maior do que as minhas escolhas. No fim, tenho que escolher os caminhos menos piores para os piores problemas, e caminhos agradáveis para situações nem tão ruins assim.
Gostava da minha auto-mutilação, um jeito próprio para me resolver comigo mesma. Como eu é que me punia, nenhum outro tipo de punição poderia ser mais provocativo. Tenho me tornado mais tolerante em relação a mim, e isso é horrível. Ao mesmo tempo que abre espaço para que mais gente se sinta à vontade para entrar na minha vida, suprime todo o controle que eu tenho sobre o que os outros estão fazendo comigo.
Sobre o que estão fazendo com a minha vida; eu não sei até que ponto poderei me deixar levar. Ou até quando vou abaixar a cabeça e pensar Um dia melhora - não que eu gostaria que melhorasse muito. (Em todos os sentidos, nunca.)
Procurando referências para ensinar Realismo, encontrei o poema do Drummond sobre o Machado de Assis (A um bruxo, com amor):
Olhas para a guerra, o murro, a facada como uma simples quebra da monotonia universal
Na folha de papel que a Antonietta entregou para a gente no segundo ano, desenhei uma flexa ao lado desses versos e escrevi Senão o mundo seria muito chato, que é provavelmente uma fala dela (combina com a sua risadinha irônica) mas, lido hoje, soa bonito e condiz com a linearidade de tudo o que eu estou falando.
Fico pensando, pensando, e talvez seja bom gastar tempo pensando, mas não sei se tanto. Citando Jonathan Safran Foer pela milésima vez - e, pela milésima vez, o mesmo conto, que parece descrever a minha vida em pedacinhos quebrados que se caixam precisamente em momentos variados -, A gente tem todas essas idéias de coisas que quer ver feitas. Acho que não pensava o suficiente sobre o fazer.

Um comentário:
rica.
chorei.
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