Reparando em todas as formas de arte que estão sempre ao meu redor, me pergunto para qual eu teria menos talento.
A voz na minha cabeça é imperativa: música. Outra voz discorda: dança. Outra ri e grita pintura, com naturalidade, enquanto alguma se questiona sobre a escultura.
As vozes são pessoas de personalidades características: o da música veste fraque e tem cabelos desgrenhados, fala com severidade e usa movimentos bruscos de cabeça; a da dança é ossuda de magra e não consegue ficar parada; o da pintura e o da escultura se confundem, de lenço no pescoço e roupas surradas cheias de manchas, dentes amarelados e tortos.
Eles riem para me olhar com superioridade - desista. Tento conversar com o poeta, algo como um Baudelaire que está tomando um drink em uma poltrona de couro no canto da sala (os escritores pensam mais do que escrevem, seria errado se ele estivesse escrevendo na frente de todo o mundo). Seu olhar é perturbador e amargo, ele não está disposto a conversar. Eu me livraria do caderno e do lápis que traria em mãos (pegaria mal) para tentar uma aproximação.
Ele não me encararia de frente, nem por um segundo deixaria de olhar para um nada tão assustador e quase que convidativo. Isso me daria mais vontade de tentar. Um desafio. Não que eu pudesse me igualar a ele, nem que nunca viesse a ter essa pretensão, mas me estimularia.
Eu voltaria a tentar pensar sobre qual seria a forma de arte para a qual eu teria menos talento, dando passos curtos para trás, com cautela, para sair da área delimitada pelo tapete persa sob a poltrona do poeta.
Teatro, diria um homem que estaria conversando com o pintor e o escultor, também rindo. Faria um sentido óbvio na mesma hora, mas, depois de alguns segundos, eu perceberia que até poderia ter talento para teatro, se essa não fosse a minha forma de arte menos preferida. Eu sorriria de volta, sem me preocupar com o que ele pensaria sobre mim (tal qual eu me preocuparia com a opinião do escritor), balançando a cabeça de um lado para o outro.
Cinema e fotografia são artes irmãs, e eu acho que eu teria talento para criar imagens dentro da minha cabeça, então eu poderia ter talento para retirar essas imagens de dentro de mim em forma de cinema ou fotografia - mais talento do que para fazer isso através de desenho, pintura ou escultura, que requerem destrezas específicas de um tipo de atividade artesanal que não existe em mim.
Eu não poderia dançar porque me induzi a acreditar nessa idéia há anos. Tenho uma empatia enorme por dança, mas acho que estou destinada a ficar como espectadora. A obra se completa no espectador, e acho que a dança me faz bem de muitos jeitos - como espectadora -, então fico feliz com isso e deixo para quem entende do assunto a possibilidade de tentar me completar.
Música demanda muitas noções teóricas que eu nunca consegui incorporar. (Não que eu tenha me dedicado a fundo.) Sem querer parecer resignada, digo que eu gosto de ter a música como algo a parte, puramente emocional. Embora eu considere importante para os meus sentidos saber o motivo teórico da minha emoção, nesse caso, não sinto tanta necessidade. E tomo como bom ou ruim aquilo que me agrada, que, por sua vez, é o que me faz bem baseado em perspectivas temporais (não consigo me abalar com algo que, por mais interessante, seja igual ao que milhares de pessoas já fizeram antes, ou tento não me abalar, por meio de auto-chantagens).
Os artistas plásticos falam alto enquanto mexem as mãos. O músico tenta não participar, mas é interrogado o tempo todo, dando respostas lacônicas de cabeça baixa. Ninguém está nem aí para a dançarina, que marca ritmos com um dos pés no chão de madeira. (Na verdade, os outros se importam apenas com o barulho, principalmente o escritor, que trava a boca em caretas blasé de quando em quando.) O ator tenta - sem receber retorno algum - se comunicar com a dançarina, andando ao redor dela, como se interpretasse uma peça mas sendo muito verdadeiro em seus significados.
Eu ainda estou no meio de todos, de frente para o escritor, de costas para os artistas plásticos, a dançarina à minha direita e o músico logo atrás de mim. O fotógrafo conversa com o cineasta apontando para a lente da câmera no seu pescoço. Nenhum deles, entretanto, dá muita atenção ao outro, a conversa é interrompida e retomada várias vezes.
A sala é um ambiente pouco convencional, a parte onde estão os artistas plásticos lembra um prédio em construção, vigas de madeira aparentes, pé direito alto - é impossível ver o teto, o escuro predomina metros acima das cabeças deles - e cabos de aço sobrando por todos os lados; onde está o escritor é como uma cena de estúdio, a poltrona e o tapete combinando com o papel da parede, o qual preenche só um recorte específico dela, justamente como se o que importasse fosse uma área pequena o bastante para poder ser enquadrada por uma câmera, refletores abandonados atrás da poltrona, uma mesa de centro esquecida de cabeça para baixo.
A situação é infinita e eu sei que poderei voltar ali outras vezes. Porém, minha visita nunca é voluntária. É preciso que o meu cérebro atinja um determinado estado de emoções para que eu possa chegar até ali, surgida do nada, bem no centro da sala, de frente para o escritor e de costas para os artistas plásticos, caderno e lápis em mãos.
domingo, 4 de outubro de 2009
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4 comentários:
Susan Donnerstag :*
um dia eu chego no domingo, Zucker ;)
gostei demais.
(eu = nani)
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