Fiz uma lista mental e descobri que eu já me apaixonei por seis pessoas. Duas eram meninos. A lista começa a contar quando eu tinha doze anos. Apesar do número exato (hoje estamos seis anos e seis pessoas depois), estive apaixonada pela primeira pessoa por alguns meses; pela segunda, por mais de dois anos; a terceira paixão começou quando eu tinha catorze anos e, de certa forma, dura até hoje; a quarta veio logo em seguida e durou um pouco mais de um ano; a quinta durou pelo menos um ano mas também nunca foi totalmente superada; a sexta foi a mais concreta, mas talvez tenha durado menos do que a primeira.
De todas essas pessoas, fiquei com duas. Uma eu nunca conheci pessoalmente. Duas eu mal conhecia. Duas eram amigas, ou se diziam ser amigas, mas hoje em dia não passam de conhecidos. Três tomaram conhecimento de que eu gostava delas; uma, se não percebeu, é idiota. Duas nunca suspeitaram - nem nunca vão suspeitar - de nada.
Tenho trabalhado o meu cérebro para nunca mais se apaixonar por pessoas absurdas. Absurdas são pessoas que eu não conheço, que eu mal conheço ou que não têm nada a ver comigo mas que eu acho que têm por causa de alguma característica marcante (de acordo com uma visão pessoal, e não geral, é claro).
Sempre fui uma pessoa fechada e indisposta a ver coisas positivas nos outros, por isso pode parecer besteira me esforçar para tentar gostar menos ainda de alguém. Muito disso vem de tentar evitar situações de sofrimento, constantes na minha vida nos últimos anos.
Nunca mantive um relacionamento. Nunca gostei de ficar com alguém. Só beijei duas pessoas enquanto estava sóbria. Ninguém nunca se apaixonou por mim.
Não acho que eu mereça um relacionamento. Não acho que eu, um dia, vá gostar de ficar com alguém, porque eu sei que nunca vou conseguir as pessoas que eu quero. Não vou ficar com alguém só porque a minha primeira opção não está nem aí para a minha existência - prefiro permanecer sozinha para sempre, o que não deixa de ser uma escolha, mesmo que opressora.
Mas, como a grande maioria das outras pessoas, eu gostaria de conseguir fazer concessões. De me apaixonar por pessoas que pudessem oferecer vantagens, mesmo que a médio prazo. Eu gostaria de pensar no amor como uma coisa normal ou até banal.
Odeio a idéia de colocar as pessoas em um pedestal e de me sentir na obrigação de admirá-las muito mais do que elas merecem. Ao mesmo tempo, não acho que seja justo pensar no amor como algo que poderia acontecer a qualquer instante, bastasse um estímulo qualquer.
Não acho que existam muitas pessoas no mundo capazes de sentir amor. É um sentimento nobre, afinal. Escrevi uma vez alguma coisa sobre a inexistência do amor recíproco - achei um papel amassado no meio de muitos outros -, e ainda acredito nisso. Seria ótimo se fosse verdade, mas a maioria dos relacionamentos já está tão desgastada no instante em que começa a acontecer que nem valeria a pena ser tentada.
Se existisse alguém com sentimentos ou intenções amorosas parecidas com as minhas, provavelmente seria um ultra-romântico. E provavelmente seríamos tão irritantes um com o outro que não agüentaríamos ficar juntos por muito tempo, e teríamos, previsivelmente, finais como suicídio ou manicômio.
Em Milk, o Harvey Milk diz que teve quatro relacionamentos em toda a sua vida. Fiquei pensando que quatro é um número bom, eu morreria feliz se tivesse passado por quatro relacionamentos durante a vida. Dois entre 20 e 30 anos, um entre 30 e 40 e outro entre 40 e 50 (não sei se teria capacidade para morrer muito depois disso), parece ideal. Mas duvido que eles seriam ininterruptos (um seguido do outro), acho que cada um não duraria mais de dois anos, na verdade, e isso talvez não seja de todo mal, pensando na proporção de anos em que eu estaria e em que eu não estaria namorando.
No mais, eu não me sinto apaixonada. Tenho conseguido evitar que isso aconteça com louvor, eu realmente deveria me sentir orgulhosa. Ao invés disso, me sinto feia, estranha e extremamente desinteressante. Sinto que eu afasto as pessoas; não consigo trazer ninguém para perto de mim. Além disso, acho horrível a idéia de alguém interessado em mim, isso me torna inversamente interessada. Tenho medo de que os outros também se sintam assim, então, quando me interesso por alguém, procuro não demonstrar (embora nem sempre obtenha sucesso); às vezes até acho que demosntro odiar as pessoas por quem estou interessada, não me aproximo delas nem dou bom dia, encaro-as com olhos apertados de raiva.
Por isso eu acho que a minha abordagem afetiva é péssima. Como eu posso dar a entender que estou interessada em alguém? Bom, talvez seja até melhor não dar a entender, porque assim não corro o risco de cair de um precipício quando souber que a pessoa por quem eu estou apaixonada não dá a mínima para mim, ou que até me acha ridícula.
Tenho medo do que as pessoas pensam de mim, queria saber a opinião de cada um sobre cada uma das minhas características - físicas, psicológicas, comportamentais. Poderia ser por meio de um questionário, não importa, as pessoas marcariam o que elas acham de pior em mim, dariam notas em escala de 1 a 5 sobre todos os meus aspectos. Dependendo do resultado, eu poderia tentar mudar. Perceberia o que os outros desejam de mim, como em uma pesquisa de mercado, e, se os resultados fossem muito estranhos, eu é que teria que mudar de público-alvo.
O público-alvo, aliás, é uma questão central. Porque quando se é heterossexual, a abordagem afetiva é muito mais simples. Em um ambiente noturno, então, a aproximação significa quase o mesmo do que carregar plaquinhas no pescoço com os dizeres VAMO AÍ?. Fora o fato de os heterrossexuais dominarem o mundo, ou seja, é muito mais provável (acho que provável chega a ser até uma palavra fraca) que um homossexual se apaixone por um heterossexual do que o contrário.
Talvez eu esteja andando com as pessoas erradas, talvez fosse melhor para mim encontrar as pessoas certas, melhor para a minha busca pelos meus quatro relacionamentos da vida. Mas onde elas estão? Quem são as pessoas certas? Nem sei se elas existem. E estou feliz com as minhas amigas, mesmo sabendo que não se trata de uma situação de exclusão.
terça-feira, 26 de maio de 2009
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2 comentários:
mas faz um esforço aí, que não existe amor depois dos vinte. se bem que se você não gastar eu acho que existe.
você fez tanto método para gostar de alguém que não tem como a pessoa que você gosta não ser absurda.
bom texto
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