I
Tenho pensado em como seria bom poder dormir com um olho só. Quando eu sinto sono em público, durante alguma situação em que preciso estar acordada, costumo fechar um dos meus olhos (em geral o esquerdo) e garanto que, ao abri-lo outra vez, me sinto mais disposta.
Na verdade essa é uma ação reflexa trazida pelo meu sono e pelo meu bom senso ao mesmo tempo: o sono me faz querer dormir; o bom senso me faz ficar acordada. Juntos, os dois concordam que o melhor a se fazer é fechar um olho só.
A idéia seria que o meu corpo concordasse em me deixar dormir pela metade (já que, para dormir por inteiro, eu precisaria dos dois olhos fechados). Funcionaria como um modo de espera: eu estaria prestando atenção ao que acontece ao meu redor mas não 100% de atenção, e teria metade de mim trabalhando na minha recomposição. Poderia parecer um pouco estranho ver alguém com um olho aberto e outro fechado, na maior naturalidade; além disso, seria impossível agir normalmente dormindo pela metade. Isso só seria útil quando a minha presença física - e não a psicológica - fosse necessária: em uma aula pouco estimulante, ao esperar em filas ou no ponto de ônibus.
Mas bastaria um único estímulo externo referido diretamente a mim e o meu modo de espera se desativaria. Não como um monitor de computador, que simplesmente se acende quando tocamos o mouse (depois de alguns minutos sem atividade), completamente escandaloso e denunciador, do tipo acordar atrasado por causa do despertador que não tocou - e sim uma ação despercebidamente natural, para que ninguém suspeitasse do meu médio sono.
II
Sabe quando você está subindo uma ladeira - especialmente em São Paulo, onde elas são inclinadas e infinitas demais - e já não está mais agüentando, e então você percebe alguém que está lá em cima, bem onde você quer chegar, mas fazendo o movimento contrário, ou seja, descendo?
E se vocês pudessem trocar de lugar? De repente, você estaria lá em cima e o sujeito, bem no ponto onde você teria parado.
Ainda não decidi como seria feita essa troca, talvez por teletransporte ou até por meio de um pulo gigante que nunca te cansaria. Mas uma coisa é certa: vocês teriam que concordar em mudar de lugar. Deveria haver uma troca de olhares seguida de confirmações de cabeça, ou sinais positivos com as mãos ou outras partes do corpo. Tudo dependeria da boa vontade da pessoa que estaria em cima, afinal, talvez ela não precisasse ir até o lugar onde você estaria, talvez ela virasse uma rua antes daquilo...
III
Sempre que eu estou presa no trânsito, parece que os carros, ônibus e caminhões que estão na minha frente seguem em linha até o litoral do país, e que eu é que sou a última pessoa da fila. Ou quando estou esperando, parece sempre que, assim que eu resolvo começar a esperar, passo a ser a última que está esperando. A última senha do balcão de atendimento, a última a passar pela porta, a última de todos, sempre.
Correndo atrasada como tenho feito ultimamente (a usp é bem mais longe da minha casa do que eu imaginava), concluí que eu preciso - não posso mais viver sem - de uma palavra que indique a minha ansiedade em ser a última pessoa.
E foram tantas as caminhadas casa-escola que eu decidi que preciso da palavra anti-vanguarda. É uma síntese específica, porque nem tudo que não é vanguarda é anti-vanguarda. Anti-vanguarda é a criança baixinha que chega afobada porque errou o caminho na escola nova, sou eu com sete anos fazendo aula de natação. (Tem muito disso em esportes, é verdade, me dá a maior aflição quando algumas pessoas páram de correr no meio uma maratona, e nunca mais terminam. Até hoje, elas ainda não terminaram a maratona. Talvez já tenham morrido, e morreram sem terminar. O tempo da corrida está contando até hoje, e para sempre.)
Anti-vanguarda pode até ser, em alguns casos, o contrário de uma vanguarda. Se o Marx era uma pessoa de vanguarda em relação ao pensamento comunista, então ele era uma anti-vanguarda capitalista. Não, acho que não foi um bom exemplo, funcionaria melhor com arte.
quinta-feira, 26 de março de 2009
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Um comentário:
I - Você acha que existe diferença essencial entre o estado de coisas absurdo produzido pela ficção de dormir com um olho só e o de pausar o tempo para dormir?
II - Se a pessoa que estivesse lá em cima fosse descer até um trecho do caminho, vocês poderiam trocar créditos. Por exemplo, você troca com ela e ela sobe um pedaço desnecessário da ladeira. Em compensação, numa outra vez, ela ganha passos gigantes e você fica em loop na ladeira.
III - Com o exemplo do Marx você chegou perto do conceito que um amigo e eu desenvolvemos de não-piada. O rótulo é ruim, como o anti-vanguarda, mas até cabe metalingüisticamente. A idéia é fazer uma piada em que o sentido é aludido, mas falha por pouco. Infelizmente eu nunca anotei uma.
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