quarta-feira, 5 de novembro de 2008

(do meu Moleskine, segunda-feira)


Tenho a impressão de que, quando eu morrer, poderei assistir em vídeo a todas as imagens da minha vida.

Por isso tento manter o cabelo sempre em ordem, as roupas concordando e as olheiras imperceptíveis.

Ensaio diálogos imaginários comigo mesma, invento cenas enquanto estou esperando ou quando estou mergulhada demais dentro do meu eu interior.

Hoje, andando por uma ilha de avenida, simulei um gesto à la Trip Fontaine - jogar o casaco por cima do ombro - enquanto tocava uma música do Badfinger na minha cabeça (No matter what you do, I will always be around...)

Embora o momento fosse propício (uma rajada de felicidade subiu de repente pelas minha costas), tentei não sorrir, que é o que um personagem de verdade faria. A câmera deveria andar junto comigo, na mesma velocidade mas partindo de uma certa distância à minha frente, e depois começaria a subir, até captar uma planta baixa da Consolação e, então, de toda a Zona Oeste da cidade de São Paulo.

A luz era a do amanhecer, mas poderia ser a do crepúsculo sem grandes problemas - o que mudaria seria só o meu gesto de tirar o casaco, já que o frio estaria chegando, não indo embora.

O distanciamento da cidade poderia culminar no anoitecer (mesmo que estivéssemos de manhã), que serviria de base para a próxima ação.

Se isso fosse mesmo um filme, o anoitecer teria continuidade e o espectador (eu mesma, morta) poderia entender o motivo do meu êxtase anterior, em uma tomada escura com tons de azul que lembrassem as listras do meu casaco jogado no ombro horas antes. Se eu fumasse, seria bonito que estivesse fumando, mas, tentando ser mais verossímil, eu poderia estar simplesmente jantando e me preparando para a terça-feira, ou tomando um banho de touca.




PS horóscopo mensal diz You're more than up to the challenge, FYI.

Nenhum comentário: