domingo, 10 de maio de 2009

Quase sempre que eu tenho que mexer em uma tomada, parece que aqueles serão os meus últimos momentos de vida. Respiro fundo com o equipamento eletrônico que estiver na minha mão e idealizo como seria o resto da minha vida precipitadamente não vivida. Eu com 20 anos. Eu com 30, eu com 40 (em geral a minha imaginação não costuma me levar muito além dos 40). Quem ainda estaria na minha vida?

Eu nunca teria constituído uma família - isso é tão óbvio que nem tem graça imaginar o contrário -, passaria anos buscando um sucesso profissional que nunca teria chegado ao seu ápice. Como sempre, estaria insatisfeita com a minha vida. Sentaria em uma mesa de madeira escura e amassaria folhas de papel durante a madrugada, sozinha, destruindo idéias que não teriam dado certo.

Provavelmente eu não teria mais amigos, e por isso rasgaria os meus pensamentos sem hesitar. A cena traria alguma bebida destilada e o piso de madeira gelado.

Mais ou menos nessa hora eu costumo me dar conta de que não, não morri; não só estou viva como até consegui colocar o celular para carregar sem criar nenhum problema maior que o meu susto especulativo.

Por falar em medos, a minha paranóia de deixar pedaços de mim nos lugares tem aumentado de um jeito vertiginoso. Quando percebo que um fio de cabelo meu caiu, coloco-o rápido dentro da bolsa. Em lugares que não sejam a minha casa, uma lasquinha de dna qualquer pode ser uma grande pista.

Não que eu esteja planejando cometer um crime, nem que eu ache que cientistas andem atrás de mim por algum motivo específico. Eu só não me sinto bem estando espalhada por todos os lugares que freqüento. Não sei bem por que; na verdade, acho que seria até legal se eu pudesse ficar guardada nos lugares que mais me agradam - mas o medo de que alguma coisa (o quê?) possa acontecer se descobrirem onde eu estava em um dia qualquer é maior, mesmo se forem lugares extremamente previsíveis e inevitáveis, que nem sequer serviriam como pistas.

Acho que muita gente pensa o contrário. Afinal, não é esse o princípio que leva a espalhar as cinzas do avô morto por todos os lugares com os quais ele pode ser identificado? Não identificações boas ou ruins, apenas relações que podem ser construídas entre ele e os lugares em que esteve.

Talvez o pior problema seja a mistura aflitiva de dnas. Cada um deles prova que alguém esteve naquele lugar (não importa quem, e sim quantos). As marcas - mesmo que microscópicas - ficam registradas, talvez para sempre. Esse é um jeito de construir memórias, não a memória das pessoas, mas a memória dos objetos. Quando eu era pequena não entendia como as coisas ficavam gastas. Na verdade entendia, mas preferia pensar que isso não tinha a menor lógica.

Por que as faixas de pedestres vão perdendo a tinta? Eu visualizava a primeira pessoa atravessando a rua, assim que a tinta tinha sido passada, e não havia nenhuma mudança evidente de que alguém tivesse pisado ali. A segunda pessoa e, de novo, nenhuma modificação aparente. Outras dez pessoas, outras cem, milhares, milhões. Quantas pessoas são necessárias para gastar uma faixa de pedestres? Quantos dnas diferentes? Você está em todas aquelas esquinas, e a tinta da faixa de pedestres, onde foi parar?

2 comentários:

P. disse...

você tem que ver o santo com o pé redondinho de tanto passarem a mão.

Unknown disse...

A tinta da faixa de pedestres? Bem, um pedaço dela foi parar no solado do seu sapato. Talvez seja isso: o seu fio de cabelo por algumas partículas do lugar. Uma troca. Os lugares pelos quais você passou estão em você, e você está em todos os lugares pelos quais passou.(Não adianta recolher cabelo, sempre tem uma célulazinha da pele morta que cai por aí)