sexta-feira, 24 de outubro de 2008

A minha raiva nos últimos tempos tem me assustado. Por motivos mais sérios, às vezes, mas por motivos completamente banais, em geral. Perder o ônibus (ou entrar em um lotado), respirar poluição e sentir o nariz arder, não conseguir dormir ou não conseguir acordar, as pessoas do cursinho fazendo gestos que me incomodam, entre milhões de outros exemplos, são coisas que me deixam, todos os dias, puta com o mundo.

Fiquei pensando em como seria se, a cada vez que eu sentisse raiva, pudesse bater em alguém, mas isso me deu uma sensação de impotência enorme. Primeiro porque eu tenho nojo do rosto das pessoas, e teria mais ainda dos fluídos que escorreriam dos seus machucados*, embora esse problema se resolva de maneira bem simples na minha cabeça - luvas de boxe, por influência da Paula e do seu trabalho de graduação. Segundo porque o meu próprio eu ri de mim, e assim também riem as pessoas que apanham no meu pensamento, já que eu não tenho força suficiente nem pra bater em um flamingo, um sentimento bem desagradável que me leva de volta ao período de início do meu emagrecimento (antes de emagrecer eu era bem forte, ganhava braço de ferro, escalava, fazia bons arremessos de pivot no handball e as pessoas costumavam me pedir ajuda para abrir vidros ou garrafas, juro).

Minha consciência quis me ajudar me concedendo uma arma, coisa que eu sempre achei muito bonita mas nunca tive coragem de defender nem vontade de ter, pelo mal que ela pode causar para os outros e, claro, para mim mesma. Mas a raiva é tanta que eu comecei a idealizar as balas em forma de ogiva, sonhar com o cano quente soltando fumaça, de modo que ninguém, nunca mais, poderia me fazer sentir raiva outra vez.

A raiva ganha proporções cada vez maiores dentro de mim quando eu penso no revólver que eu ainda vou ter, me imagino de fones e óculos de proteção, fechando um dos olhos bem firme e acertando a circunferência vermelha que contorna a bola branca do centro do alvo. A raiva aumenta com o barulho dos disparos, aperto os lábios e continuo atirando. Depois o alvo deixa de ser um círculo e passa a ser a projeção de uma pessoa feita de madeira, na qual a cabeça é o grande objetivo. Se eu fosse realmente boa, poderia me deitar atrás de trincheiras e objetivar até alvos em movimento. Abaixaria a cabeça com um medo inventado da resposta do inimigo - que não existe mas me faz ter mais raiva ainda.

Quando estou na rua, penso sobre qual seria a reação das pessoas se eu andasse com a minha arma à mostra, e se elas soubessem que eu sou uma exímia atiradora. Fico reconfortada em poder me defender, nas minhas imagens eu atiraria nas pessoas sem o menor pudor, mas sempre com algum motivo. Não olhem mais para as minhas pernas ou para os meus óculos, olhem agora para a minha pistola.

E a ação de recarregá-la. Sentada em uma mesa pública, eu exporia as minhas ogivas cintilantes, apertaria-as com amor, talvez até mesmo fizesse isso em uma biblioteca. As pessoas levantariam os olhos das linhas de palavras ao perceber o som metálico das balas sendo enfiadas, e provavelmente ficariam assustadas ao ouvir o clic-clic (bem de filme) que quer dizer que a arma já está carregada. Eu continuaria a estudar, como se nada tivesse acontecido, com a minha pequena ao lado, talvez até desse um nome pra ela, como eles fazem em Querida Wendy.



*é verdade que eu gosto de pessoas lindas machucadas, mas não das nojentas que eu imagino socar

Um comentário:

Unknown disse...

também me assustou