sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Hoje à tarde a casa estava dominada por um cheiro quentinho de morango, porque estavam fazendo geléia, é um cheiro ótimo mas se você cheira com muita força parece cheiro de roupa molhada. Mesmo assim, eu gosto, porque eu costumo senti-lo há algum tempo (e com uma freqüência determinada, já que isso depende das estações do ano).

Fiquei meio triste hoje de quase chorar, por causa do poema que a gente leu na última aula:

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

E isso tem a ver com o post passado, como as coisas que eu venho sentindo ultimamente.

"há sensações sentidas só com imaginá-las". Tristeza é uma delas, tenho me sentido mal por tudo o que eu já senti na vida. Me lembrou um dia que eu comecei a chorar muito antes de dormir porque fiquei imaginando como seria se a minha mãe morresse. Não que ela estivesse fora de casa naquela hora nem que isso não tenha acontecido outras vezes - até por motivos mais idiotas e muito menos racionais.

Engraçado e estúpido isso de não acreditar nas coisas que existem mas só nas que não existem, nas que poderiam ter acontecido, nas que podem acontecer e nas que você queria muito que acontecessem. Isso tudo soa muito como a visão que eu tenho da literatura, a Nina até olhou pra mim com um sorrisinho quando o Maurício disse que o Fernando Pessoa abriu mão de toda a sua vida pela litaratura, que ele não casou nem teve filhos, só vivia para ler e escrever (para ele, obviamente, as coisas mais importantes do mundo).

Não sou uma adepta tão grande, eu sei, na verdade eu até passo menos vergonha do que merecia, mas talvez tudo o que eu queira seja também abrir mão da minha vida, e talvez não porque eu realmente deseje isso, mas porque eu não tenha escolha.

"Há doenças piores que as doenças"... Eu também sei disso. E isso nunca foi real, eu digo, a minha doença, porque, para mim, ela não existia fisicamente. Psicologicamente, sim, claro, afinal, "há dores que não doem (...) mas que são dolorosas mais que as outras".

Coesão zero nesse texto, desculpem.

Sobre a literatura, fiquei pensando nos personagens e em como esse verso tem relação com eles: "Há tanta coisa que, sem existir, Existe, existe demoradamente". Estranho como somos capazes de nos apaixonar por personagens, de sofrer o que eles sofrem, podemos chorar juntos, mas eles não existem, pensei nos heterônimos do Fernando Pessoa e em como cada um deles é uma personalidade dele, mas será que isso não acontece em todos os personagens criados pelos escritores? Para mim, mais do que heterênimos, eles são personagens - de um romance que ainda não foi escrito mas que deveria.

Antony Burgess, o escritor de Laranja Mecânica, era muito fã do Borges (Jorge Luís, o próprio), e ele andou pesquisando e descobriu que os sobrenomes dos dois tinham a mesma origem (acho que vinham do latim). Burgess se referia a Borges como "irmãozinho", então, acho que eu me encontro no mesmo direito, Fernando.

Um comentário:

P. disse...

eu não gosto desse cheiro. cheiro de caixas e caixas de morango sendo desperdiçadas.